E o médium dobrava-se sobre a mesa, de braços estendidos, fazendo mesuras. Servira aos imperadores romanos. Eles ainda se julgavam deuses, dizia. Estava, porém, bastante lúcido.
Informou-me de que, nesse ínterim de quase dois milênios, tivera outras encarnações. Lamenta a perniciosa influência que exerceu sobre os seus soberanos, açulando-lhes paixões aviltantes. Eram pobres criaturas desequilibradas, mas ele, não; estava perfeitamente lúcido e consciente do que fazia, utilizando o poder dos Césares para promover seus interesses inconfessáveis. Por isso, estava ainda preso a eles. Quanto ao Cristianismo, já sabia, naquele tempo, que era a doutrina melhor, mas rejeitou-a deliberadamente, porque não lhe convinha. Digo-lhe que precisa, agora, encarar seu antigo amo, não como a um poderoso, mas como a um Espírito infeliz, desarvorado e sofredor, que precisa de muita ajuda e compreensão.
Promete ajudar e diz que o que o salvou foi a visão de um homem pregado à cruz, na antiga Roma, e cujo olhar não mais esquecera, através dos tempos. Aqueles olhos lhe penetravam as mais profundas e ignotas camadas do ser. Diz-me uma palavra de muito afeto e anuncia que ficaria ali, ao lado, à minha direita, invisível ao seu antigo chefe, pois não chegara ainda o momento de apresentar-se à sua visão. Poderia perturbá-lo. E me diz, com inesquecível toque de autenticidade, que “ele” era uma criança grande, fácil de conduzir. Bastava dar-lhe a impressão de que a decisão tomada fosse dele. Eu deveria fazer isso; só que agora, para o bem, enquanto ele o fizera para o mal. Antes de desligar-se do médium, disse-me, ainda, que sabia dos planos, já assentados, a respeito da próxima encarnação de seu antigo chefe, e que não iria ser nada fácil.
Despedimo-nos com uma palavra de afeição muito sincera e amiga. Este Espírito deixou em mim uma sensação de fraternidade, compreensão e simpatia. Conhecedor de suas próprias aflições interiores, conservava-se, no entanto, consciente e disposto a corrigir-se, muito embora sabendo que era longo o caminho a percorrer, em vista da profundidade a que descera.
Nunca sabemos, pois, que métodos e recursos empregarão os nossos mentores espirituais, na sua nobre tarefa de despertar os companheiros que permanecem hipnotizados às suas angústias.
As vezes, utilizam-se da projeção fluídica. Os quadros são apresentados com todo o seu vigor e realismo, com cenários, personagens, cores, sons, movimento, emoções, mas formados com
“material” sacado do subconsciente do Espírito, animado por meio de recursos retirados, como explica André Luiz, dos presentes em torno da mesa de trabalho. Esses quadros exibem figuras humanas, também, é claro, mas continuam sendo projeções.
De outras vezes, não obstante, é necessária a presença real dos Espíritos ligados aos manifestantes, em recentes ou antigas encarnações. Eles se apresentam aos seus olhos, conversam com eles diretamente, ou através de outro médium, ou se tornam semimaterializados, para poderem impressionar seus sentidos, mais pela presença de suas vibrações pessoais, do que pelo mero apelo da memória. Nos casos em que essa presença se faz indispensável, os benfeitores espirituais incumbem-se de localizar os Espíritos ligados ao irmão que precisa de ajuda, e de trazê- los ao ambiente do trabalho, ainda que estejam encarnados, quer se encontrem endividados ou redimidos perante a lei. Já vimos, aqui mesmo, caso em que o Espírito manteve o diálogo com a antiga esposa — no momento encarnada — que ele assassinara na Idade Média, num impulso de paixão e ciúme.
É preciso, pois, muito respeito com o trabalho dos nossos mentores invisíveis, depois, naturalmente, que eles demonstrarem seus conhecimentos e sua capacidade, bem como a segurança com que executam suas tarefas. Antes que inspirem essa confiança em nós, seria arriscado segui-los confiadamente, pois há Espíritos ardilosos, que se apresentam revestidos de peles de mansos cordeiros, para melhor dominar e impor as suas condições. Uma vez, porém, identificados como autênticos trabalhadores do Cristo, deixemos à sua iniciativa a condução dos trabalhos. Isto não significa que devamos cruzar os braços e deixá-los fazer tudo; assistir a tudo sem espírito crítico e sem a necessária vigilância, de que tanto nos falam eles. Não é tudo que eles podem fazer por nós. Mesmo o grupo mais bem ajustado, integrado num trabalho sério e fecundo, poderá ser sutilmente envolvido pelos ardis das sombras, naquilo em que os nossos compromissos e erros passados nos sintonizem com os companheiros desarvorados, muitos deles nossos antigos comparsas.
É claro que os trabalhadores da seara do amor precisam de nossa colaboração, de seres encarnados, pois, do contrário, tudo fariam sem nós. Sabem eles, no entanto, que há sempre, em nós, um componente de incerteza, de falha, de descuido, que pode pôr tudo a perder. Eles nos assistem com desvelado carinho, amparam-nos nas horas de incerteza, ajudam-nos nos momentos de fraqueza e de desânimo, mas não podem fazer, por nós, aquilo que nos compete. Estejamos, pois, muito atentos. Quanto à tarefa que lhes cabe, não obstante, estejamos tranquilos: tudo será feito, desde o planejamento cuidadoso até o último pormenor da execução, com todas as opções e alternativas previamente examinadas. São eles que nos preparam o trabalho, dão-nos o apoio, a inspiração, os recursos e a sua presença constante, segura, tranquila.
É certo, porém, que não poderão garantir o resultado, mesmo naquilo que lhes cabe fazer.
Não estão manipulando mecanismos cibernéticos, mas cuidando de seres humanos, dotados de livre-arbítrio, imprevisíveis e, às vezes, muito bem dotados intelectual-mente, e que não se deixarão conduzir pela mão, como crianças tímidas e ingênuas. Eles sabem, por outro lado, que somos julgados não pelos resultados que alcançamos, mas pelo esforço que empregamos em atingi-los.
Procuremos respeitar-lhes o planejamento e a execução, pois a visão que têm dos problemas suscitados é incomparavelmente mais ampla do que a nossa, embora não infalível, que infalível só é a visão divina. Naturalmente que, de certa forma, participamos de algumas fases do planejamento e dos contactos realizados no mundo espiritual, acompanhando-os em excursões pelo mundo da dor, durante os desprendimentos, mas nosso conhecimento é muito limitado, para autorizar-nos a precipitar qualquer situação. Se, por exemplo, ainda não é chegado o momento de
exibir uma projeção fluídica, não tentemos forçá-la, com passes e sugestões verbais, ao Espírito manifestado. Se os companheiros dele, ali presentes, devem ser exibidos à sua visão, ou não, também ignoramos.
Enfim, a nossa posição é de ativa expectativa. Para isso, precisamos (especialmente o doutrinador) estar com as antenas psíquicas permanentemente sintonizadas com os trabalhadores invisíveis, para captar-lhes, através da intuição, as sutis instruções que nos ministram. E, definitivamente, não nos envaideçamos com o resultado do trabalho realizado: cabe muito pouco, a nós, dos méritos. Baste-nos a alegria do dever cumprido, a doce felicidade de ter, uma vez mais, servido de humildes e imperfeitos instrumentos da pacificação.