Noite fechada. Calderaro e eu penetramos casa confortável e nobre, onde o instrutor, segundo prometera, me proporcionaria alguns esclarecimentos novos com referência aos desequilíbrios da alma.
— Não é caso tão grave quanto aquele do paralítico que visitamos, — adiantou o prestimoso orientador; — trata-se, a bem dizer, de questão quase vencida. Há muito tempo assisto Marcelo com fluidos reconfortantes, e a sua situação é de triunfo integral. Dócil à nossa influência, encontrou na prece e na atividade espiritual o suprimento de energias de que necessitava. Vimos ontem um caso de destrambelho total dos elementos perispiríticos, com a consequente desagregação do sistema nervoso, em doloroso quadro que só o tempo corrigirá. Aqui, entretanto, a paisagem é outra. O problema de perturbação essencial já está resolvido, o reajustamento da vida surgiu pleno de esperanças novas, a paz regressou ao tabernáculo orgânico; mas perseveram ainda as recordações, os remanescentes dos dramas vividos no passado aflorando sob forma de fenômenos epileptóides, as ações reflexas da alma, que emergem de vasto e intricado túnel de sombras e que tornam, em definitivo, ao império da luz. Se o mal demanda tempo para fixar-se, é óbvio que a restauração do bem não pode ser instantânea. Assim ocorre com a doença e a saúde, com o desvio e o restabelecimento do equilíbrio. Após atravessar o pórtico, dirigimo-nos, devidamente autorizados, ao interior, onde agradavelmente me surpreendeu encantadora cena de piedade doméstica: um cavalheiro, uma senhora e um rapaz achavam-se imersos nas divinas vibrações da prece, cercados de grande número de amigos do nosso Plano. Fomos recebidos amorosamente. Convidou-me o orientador a colaborar nos trabalhos em curso, de vez que, com a valiosa cooperação daqueles três companheiros encarnados, se prestavam a irmãos recém-libertos da Crosta reais auxílios, de modalidades várias. Digna de registo era a respeitável beleza daquela reduzida assembleia, consagrada ao bem e à iluminação do espírito. Admirando a harmonia daqueles três corações unidos nos mesmos nobres pensamentos e propósitos, e que miríficos fios de luz entrelaçavam, o Assistente amigo comentou com oportunidade:
— A família é uma reunião espiritual no tempo, e, por isto mesmo, o lar é um santuário. Muitas vezes, mormente na Terra, vários de seus componentes se afastam da sintonia com os mais altos objetivos da vida; todavia, quando dois ou três de seus membros aprendem a grandeza das suas probabilidades de elevação, congregando-se intimamente para as realizações do Espírito eterno, são de esperar maravilhosas edificações. Compreendi que o instrutor estimaria prestar-me outros esclarecimentos, ampliando a santificante concepção da família; contudo, o serviço urgente não nos permitia mais longa palestra. O trabalho de socorro a irmãos sofredores prosseguiu ativo, em “nosso lado”. Terminado o concurso do trio familiar, com expressiva e comovedora oração, começou a retirada dos companheiros de nossa Esfera, enquanto os amigos encarnados entravam em carinhosa conversação. O cavalheiro, com o sorriso feliz do trabalhador que bem cumpriu o dever, dirigiu-se aos circunstantes em voz alta:
— Graças a Deus, tudo normal. Encarando o rapaz com imensa ternura paternal, indagou:
— E você, Marcelo, continua bem?
— Oh! Sem dúvida, — respondeu o interpelado, alegre; — estou maravilhado, papai, com os excelentes resultados que venho colhendo em nossas reuniões das quintas-feiras.
— Têm voltado os ataques noturnos?
— Não. À proporção que me esforço no conhecimento das verdades divinas, cooperando com a minha própria vontade no terreno da aplicação prática das lições recebidas, sinto que passo cada vez melhor, que me reforço intimamente, recuperando a saúde perdida. Reconheço também que, em me desinteressando da edificação espiritual, distraído da minha necessidade de elevação, voltam as perturbações com intensidade. Nessas fases nocivas, desperto alta noite com os membros cansados e doloridos, e assaltam-me evidentes sinais das convulsões, deixando-me longos momentos sem sentido… O jovem sorriu a esta singela confissão filial e prosseguiu:
— Felizmente, porém, agora que me consagro, zeloso e assíduo, à tarefa espiritualizante, reconheço que os passes de mamãe são mais eficientes. Estou mais receptivo e observo que a boa vontade é fator decisivo em meu bem-estar. Os ouvintes entreolharam-se, contentes, e o entendimento íntimo continuou, edificante, repleto de belas sugestões. O Assistente, preparando-me o raciocínio, informou:
— Certo, não precisarei de esclarecer que Marcelo se entretém com os pais. Possui outros irmãos que ainda não se afinam com a sagrada missão do casal. Ele, porém, é portador de sentimentos elevados e generosos. Tem, como quase todos nós, um pretérito intensamente vivido nas paixões e excessos da autoridade. Exerceu, outrora, enorme poder de que não soube usar em sentido construtivo. Senhor de vigorosa inteligência, planou em altos níveis intelectuais, de onde nem sempre desceu para confortar ou socorrer. Portador de vários títulos honoríficos, muita vez os esqueceu, precipitando-se na vala comum dos caprichos criminosos. Impôs-se pelo absolutismo, e intensificou a lavra de espinhos que o dilacerariam mais tarde. Chegada a colheita de nefanda messe, experimentou sofrimentos atrozes. Inúmeras vítimas o esperavam além do sepulcro, e arremeteram contra ele. Entretanto, se errou clamorosamente, Marcelo, em muitas ocasiões, desejou ser bom e formou dedicações valiosas em torno de seu nome; tais devotamentos, contudo, houveram que aguardar oportunidade por auxiliá-lo. Os inimigos eram massa compacta e gritavam furiosamente, invocando a justiça vulgar; retiveram-no longo tempo nas regiões inferiores, saciaram velhos propósitos de vingança, seviciando-lhe a organização perispiritual. Marcelo, em plena sombra da consciência, rogou, chorou e penitenciou-se vastos anos. Por mais que suplicasse e por muito que insistissem os elementos intercessórios, a ansiada libertação demorou muitíssimo, porque o remorso é sempre o ponto de sintonia entre o devedor e o credor, e o nosso amigo trazia a consciência fustigada de remorsos cruéis. Os desequilíbrios perispiríticos flagelaram-no, assim, logo que atravessou o pórtico do túmulo, obstinando-se anos a fio… Feito breve intervalo nas explicações, acrescentei, curioso:
— Isso quer, então, dizer, que o fenômeno epileptóide… — … Mui raramente ocorre por meras alterações no encéfalo, como sejam as que procedem de golpes na cabeça, — elucidou o Assistente, cortando-me a observação reticenciosa, — e, geralmente, é enfermidade da alma, independente do corpo físico, que apenas regista, nesse caso, as ações reflexas. Longe vai o tempo em que a razão admitia o paraíso ou o purgatório como simples regiões exteriores: Céu e inferno, em essência, são estados conscienciais; e, se alguém agiu contra a Lei, ver-se-á dentro de si mesmo em processo retificador, tanto tempo quanto seja necessário. Ante a realidade, portanto, somos compelidos a concluir que, se existem múltiplas enfermidades para as desarmonias do corpo, outras inúmeras há para os desvios da alma. O instrutor fez pausa curta, apontou para o rapaz e continuou:
— Mas, regressando às informações a respeito de Marcelo, cabe-me dizer-te que, pouco a pouco, esgotou ele as substâncias mais pesadas do fundo cálice de provas. Longos anos de desequilíbrio, em que as vítimas tornadas em algozes o abalaram com tremendas convulsões através de choques e padecimentos inenarráveis, clarearam-lhe os horizontes internos; tendo nosso irmão, afinal, logrado entender-se com prestimoso e sábio orientador espiritual, a quem se liga desde remoto passado. Foi socorrido e amparado. Indagou, ansioso, por almas que lhe eram particularmente queridas, sendo-lhe cientificado que os seus laços mais fortes já se encontravam de novo na carne, em testemunhos e labores dignificantes. Suplicou a reencarnação, prometeu aceitar compromissos de concurso espiritual na Crosta, a fim de resgatar os enormes débitos, colaborando no bem e na evolução dos inimigos de outrora, e conseguiu a dádiva, apoiado por abnegado mentor que o estima de muitos séculos. Tornou à Esfera carnal e reiniciou o aprendizado. Ultimamente renasceu estreitado em braços carinhosos, aos quais se sente vinculado no curso de várias existências vividas em comum. Agora, sinceramente aproveitando as bênçãos recebidas, desde os mais tenros anos, preocupa-se em reajustar as preciosas qualidades morais: caracteriza-se, desde menino, pela bondade e obediência, docilidade e ternura naturais. Passou a infância tranquilo, embora continuamente espreitado por antigos perseguidores invisíveis. Não se achava a eles atraído, em virtude do serviço regenerador a que se submetera; mas ao topar com algum dos adversários, nos minutos de parcial desprendimento propiciado pelo sono físico, sofria amargamente com as recordações. Tudo prosseguia sem novidades dignas de menção. Sob a vigilância dos pais e com o amparo dos benfeitores invisíveis, preparava-se o menino para os trabalhos futuros. Contudo, logo que se lhe consolidou a posse do patrimônio físico, ultrapassados os catorze anos de idade, Marcelo, com a organização perispiritual plenamente identificada com o invólucro fisiológico, passou a rememorar os fenômenos vividos, e surgiram-lhe as chamadas convulsões epilépticas com certa intensidade.