A Floresta de Dodona e a Estátua de Memnon
É verdade que a história não nos diz que esses oráculos eram proferidos por pancadas, como vemos em nossos dias. Na floresta de Dodona resultavam do sibilar do vento através das árvores, do sussurro das folhas ou do murmúrio da fonte que jorra ao pé do carvalho consagrado a Júpiter. Diz-se que a estátua de Memnon emitia sons melodiosos aos primeiros raios do sol. Mas também a História nos diz, como teremos ocasião de demonstrar, que os Antigos conheciam perfeitamente os fenômenos atribuídos aos Espíritos batedores. Ninguém duvida de que nisso repouse o princípio de sua crença na existência de seres animados nas árvores, nas pedras, nas águas, etc. Mas, desde que tal gênero de manifestação foi explorado, as batidas já não eram suficientes; os visitantes eram muito numerosos para que a cada um se pudesse oferecer uma seção particular, o que teria sido, aliás, muito simples; era preciso o prestígio e, contanto que enriquecessem o templo com suas oferendas, tais despesas deviam ser providas. O essencial era que o objeto fosse olhado como sagrado e habitado por uma divindade; desde então, podia-se fazê-lo dizer aquilo que se quisesse, sem se precisar tomar tantas precauções. Diz-se que os sacerdotes de Memnon usavam de fraude; a estátua era oca e os sons que emitia eram produzidos por algum processo acústico. Isso é possível e mesmo provável. Até os Espíritos batedores, que em geral são menos escrupulosos do que os outros, nem sempre estão, como nos disseram, à disposição do primeiro que chegar: têm sua vontade, suas ocupações, suas susceptibilidades e nenhum gosta de ser explorado pela cupidez. Que descrédito para os sacerdotes se não fizessem falar o seu ídolo de modo convincente! Seria preciso suprir seu silêncio e, se necessário, forçar uma ajuda. Aliás, era muito mais cômodo do que se dar a tanto trabalho, bastando formular a resposta conforme as circunstâncias. O que vemos hoje em dia não é prova menos evidente de que, a despeito disto, tinham por princípio o conhecimento das manifestações espíritas, razão por que dissemos que o Espiritismo moderno é o despertar da Antigüidade, porém da Antigüidade esclarecida pelas luzes da civilização e da realidade.
TAG Valor
Mês Fevereiro
Ano 1858