Capítulo 2
Tornando ao convívio do Assistente, na noite imediata, dele recebemos o acolhimento gentil da véspera. — Creio haver traçado o nosso programa, — falou, paternal. Finda a ligeira pausa em que nos registava a atenção, prosseguiu: — Admito que devamos centralizar nossas observações em reduzido núcleo, onde melhor dispomos do fator qualidade. Temos um grupo de dez companheiros encarnados, com quatro médiuns detentores de faculdades regularmente desenvolvidas é de lastro moral respeitável. Trata-se de pequeno conjunto, a serviço de uma instituição consagrada ao nosso ideal cristianizante. Desse grupo-base ser-nos-á possível alongar apontamentos e coletar anotações que se façam valiosas à nossa tarefa. Fitou-nos com bondade por um instante de silêncio e acrescentou: — Isso porque vocês pretendem especializar conhecimentos, em torno da mediunidade, apenas no Círculo terrestre, de vez que em nosso campo de ação espiritual o assunto seria muito menos complexo. — Sim, — esclarecemos Hilário e eu, — desejávamos auxiliar, de algum modo, os irmãos encarnados, na execução de serviços em que se mostravam comprometidos. A oportunidade, por esse motivo, surgia diante de nós por verdadeira bênção. Decorridos alguns minutos de entendimento afetuoso, o orientador convidou, solícito: — Sigamos. Não há tempo a perder. Logo após, muniu-se de pequena pasta e, talvez porque nos percebesse a curiosidade, informou, paciente: — Temos aqui o nosso psicoscópio, de modo a facilitar-nos exames e estudos, sem o impositivo de acurada concentração mental. Tomei o enigmático volume, chamando a mim o agradável serviço de transportá-lo, notando, então, que na Terra o minúsculo objeto não pesaria senão alguns gramas. Espicaçado tanto quanto eu pela curiosidade, Hilário indagou sem preâmbulos: — Psicoscópio? Que novo engenho vem a ser esse? — É um aparelho a que intuitivamente se referiu ilustre estudioso da fenomenologia espirítica, em fins do século passado. Destina-se à auscultação da alma, com o poder de definir-lhe as vibrações e com capacidade para efetuar diversas observações em torno da matéria, — esclareceu Áulus, com leve sorriso. — Esperamos esteja, mais tarde, entre os homens. Funciona à base de eletricidade e magnetismo, utilizando-se de elementos radiantes, análogos na essência aos raios gama. É constituído por óculos de estudo, com recursos disponíveis para a microfotografia. E, enquanto demandávamos a cidade terrestre em que nos cabia operar, o mentor continuava explicando: — Em nosso esforço de supervisão, podemos classificar sem dificuldade as perspectivas desse ou daquele agrupamento de serviços psíquicos que aparecem no mundo. Analisando a psicoscopia de uma personalidade ou de uma equipe de trabalhadores, é possível anotar-lhes as possibilidades e categorizar-lhes a situação. Segundo as radiações que projetam, planejamos a obra que podem realizar no tempo. Meu colega e eu não conseguíamos sopitar a surpresa. Entre assombrado e receoso, ousou Hilário inquirir: — Quer isso dizer que qualquer de nós pode ser submetido a exame dessa espécie? — Sem dúvida, — considerou o nosso interlocutor bem-humorado; — decerto que estamos sujeitos às sondagens dos Planos superiores, tanto quanto pesquisamos agora os Planos que se nos situam à retaguarda. Se o espectroscópio permite ao homem perquirir a natureza dos elementos químicos, localizados a enormes distâncias, através da onda luminosa que arrojam de si, com muito mais facilidade identificaremos os valores da individualidade humana pelos raios que emite. A moralidade, o sentimento, a educação e o caráter são claramente perceptíveis, através de ligeira inspeção. — Mas, — indagou Hilário, investigador, — e na hipótese de surgirem elementos arraigados ao mal, numa formação de cooperadores do bem? De posse da ficha psicoscópica, os instrutores espirituais providenciar-lhes-ão a expulsão? — Não será preciso. Se a maioria permanece empenhada na extensão do bem, a minoria encarcerada no mal distancia-se do conjunto, pouco a pouco, por ausência de afinidade. — Contudo, — alegou ainda o meu companheiro, — que acontece numa instituição cujo programa elevado se degenera em desequilíbrio, induzindo-nos a reconhecer que a virtude aí não passa de bandeira fictícia, acobertando a ignorância e a perversidade? — Então, nesse caso, — adiantou o interpelado, tolerante, — dispensamos qualquer regime de perseguição ou denúncia. Encarrega-se a vida de colocar-nos no lugar que nos compete. E, sorrindo, ajuntou: — Os Anjos ou Ministros da Eterna Sabedoria entregam-nos, com segurança, às forjas renovadoras do tempo e da provação. Sabe-se, atualmente, na Terra, que um grama de rádio perde a metade do seu peso em dezesseis séculos e que um ciclotron, trabalhando com projéteis atômicos acelerados a milhões de elétrons-volt, realiza a transmutação dos elementos químicos de imediato. A evolução vagarosa nos milênios ou o choque brusco do sofrimento alteram-nos o panorama mental, aprimorando-lhe os valores. Essas notas arrastavam-nos a divagação noutros campos. O Assistente revelava brilhante cultura, aliada a extremas facilidades de exposição. Dispunha-me a ensaiar perguntas extra-serviço, mas, adivinhando-nos o intento, Áulus objetou: — Toda conversação nobre é instrutiva, no entanto, por agora, guardemos o espírito no trabalho a fazer. O êxito não exonera a atenção. Se cairmos numa digressão acerca da química, o horário não nos desculpará. Reajustando-se aos nossos objetivos, Hilário acentuou: — O psicoscópio, só por si, dá margem a preciosas reflexões. Imaginemos uma sociedade humana que pudesse retratar a vida interior dos seus membros… Isso economizaria grandes quotas de tempo na solução de grandes problemas psicológicos. — Sim, — anuiu o mentor, cordial, — o futuro reserva prodígios ao senso do homem comum. Havíamos, porém, alcançado o portão de espaçoso edifício que o Assistente nos designou como sendo o santuário que nos competia visitar e servir. — Esta é a casa espírita-cristã onde encontraremos nosso ponto básico de experiências e observações. Entramos. Atravessado largo recinto, em que estacionavam numerosas entidades menos felizes de nosso Plano, o orientador esclareceu: — Vemos aqui o salão consagrado aos ensinamentos públicos. Todavia, o núcleo que buscamos jaz situado em reduto íntimo, assim como o coração dentro do corpo. Escoados alguns instantes, penetramos acanhado aposento, onde se congregava reduzida assembleia, em silenciosa concentração mental. — Nossos companheiros, — elucidou o Assistente, — fazem o serviço de harmonização preparatória. Quinze minutos de prece, quando não sejam de palestra ou leitura com elevadas bases morais. Sabem que não devem abordar o mundo espiritual sem a atitude nobre e digna que lhes outorgará a possibilidade de atrair companhias edificantes e, por esse motivo, não comparecem aqui sem trazer ao campo que lhes é invisível as sementes do melhor que possuem. Hilário e eu nos inclinávamos à indagação, contudo, a respeitabilidade do recinto impunha-nos silêncio. Amigos da nossa Esfera ali se demoravam em oração, compelindo-nos a entranhado recolhimento. O Assistente armou o psicoscópio e, depois de ligeira análise, recomendou-nos a observação. Chegada a minha vez de usá-lo, assombraram-me as peculiaridades do aparelho. Sem necessidade de esforço mental, notei que todas as expressões de matéria física assumiam diferente aspecto, destacando-se a matéria de nosso Plano. Teto, paredes e objetos de uso corriqueiro revelavam-se formados de correntes de força, a emitirem baça claridade. Detive-me na contemplação dos companheiros encarnados que agora apareciam mais estreitamente associados entre si, pelos vastos círculos radiantes que lhes nimbavam as cabeças de opalino esplendor. Tive a impressão de fixar, em torno do apagado bloco de massa semi-obscura a que se reduzira a mesa, uma coroa de luz solar, formada por dez pontos característicos, salientando-se no centro de cada um deles o semblante espiritual dos amigos em oração. Desse colar de focos dourados alongava-se extensa faixa de luz violeta, que parecia contida numa outra faixa de luz alaranjada, a espraiar-se em tonalidades diversas que, de momento, não pude identificar, de vez que a minha atenção estava presa ao círculo dos rostos fulgurantes, visivelmente unidos entre si, à maneira de dez pequeninos sóis, imanados uns aos outros. Reparei que sobre cada um deles se ostentava uma auréola de raios quase verticais, fulgentes e móveis, quais se fossem diminutas antenas de ouro fumegante. Sobre essas coroas que se particularizavam, de companheiro a companheiro, caíam do Alto abundantes jorros de luminosidade estelar que, tocando as cabeças ali irmanadas, pareciam suaves correntes de força a se transformarem em pétalas microscópicas, que se acendiam e apagavam, em miríades de formas delicadas e caprichosas, gravitando, por momentos, ao redor dos cérebros em que se produziam, quais satélites de vida breve, em torno das fontes vitais que lhes davam origem. Custodiando a assembleia, permaneciam os mentores espirituais presentes, cada qual irradiando a luz que lhe era própria. Admirado, porém, com os irmãos da Esfera física, a se revelarem tão afins, na onda brilhante em que se reuniam, perguntei, entusiástico: — Áulus amigo, os companheiros que visitamos são, porventura, grandes iniciados na revelação divina? O interpelado estampou um gesto de bom humor e respondeu: — Não. Achamo-nos ainda muito longe de semelhantes apóstolos.
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Nome do Capítulo O psicoscópio