Capítulo 8
Levantou-se, envergonhado, e ensaiou algumas explicações com dificuldade: — Meu amigo, — começou a dizer, dirigindo-se ao auxiliar de Alexandre, — já sei que vem procurar-me… não sei como esclarecer o que ocorre… Não pôde, contudo, prosseguir e mergulhou a cabeça nas mãos, como se desejasse esconder-se de si mesmo. A essa altura da cena constrangedora, verifiquei, então, sem vislumbres de dúvida, que as entidades visitantes eram da pior espécie, de quantas conhecia eu nas regiões das sombras. Irritadas talvez com o recuo do companheiro, que se revelava triste e humilhado, prorromperam em grande algazarra, acercando-se mais intensamente de nós, sem o mínimo respeito. — Impossível que nos arrebatem Marcondes! — Disse uma delas, enfaticamente. — Afinal de contas, vim de muito longe para perder meu tempo assim, sem mais nem menos! — Ele mesmo nos chamou para a noite de hoje, — exclamou a segunda, atrevidamente, — e não se afastará de modo algum. Sertório ouvia com serenidade, evidenciando íntima compaixão. A terceira entidade, que parecia reter instintos inferiores mais completos, aproximou-se de nós com terrível expressão de sarcasmo e falou, dando-me a entender que aquela não era a primeira vez que Sertório procurava o sítio para os mesmos fins e nas mesmas circunstâncias: — Os senhores não passam de intrusos. Marcondes é fraco, deixando-se impressionar pela presença de ambos. Nós, todavia, faremos a reação. Não conseguirão arrancar-nos o predileto. E gargalhando, irônica, acentuava: — Também temos um curso de prazer. Marcondes não se afastará. Contrariamente aos meus impulsos, Sertório não demonstrava a mínima atenção. As palavras e expressões daquela criatura, porém, irritavam-me. Ao meu lado, o auxiliar de Alexandre mantinha-se extremamente bondoso. A própria vítima permanecia humilde e triste. Porque semelhantes insultos? Ia responder alguma coisa, no sentido de esclarecer o caso em termos precisos, quando Sertório me deteve: — André, contenha-se! Um minuto de conversação atenciosa com as tentações provocadoras do Plano inferior pode induzir-nos a perder um século. Em seguida, com invejável tranquilidade, dirigiu-se ao interessado, perguntando, sem espírito de censura: — Marcondes, que contas darei hoje de você, meu amigo? O interpelado respondeu, lacrimoso e humilhado: — Ó Sertório, como é difícil manter o coração nos caminhos retos! Perdoe-me… Não sei como isto aconteceu… Não posso explicar-me! Mas Sertório parecia pouco disposto a cultivar lamentações e, mostrando-se muito interessado em aproveitar o tempo, interrompeu-o, exclamando: — Sim, Marcondes. Cada qual escolhe as companhias que prefere. Futuramente você compreenderá que somos seus amigos leais e que lhe desejamos todo o bem. Despejaram as mulheres nova série de frases ridiculizadoras. Marcondes começou, de novo, a lastimar-se, mas o mensageiro de Alexandre, sem hesitar, tomou-me a destra e regressamos à via pública. — Voltemos imediatamente, — disse ele, decidido. — E em que ficamos? — Indaguei, — não vai acordá-lo? — Não. Não podemos agir aqui do mesmo modo. Marcondes deve demorar-se em tal situação, para que amanhã a lembrança desagradável seja mais duradoura, fortificando-lhe a repugnância pelo mal. — Que fazer, então? — Perguntei, espantado. — Diremos ao nosso orientador o que ocorre, — redarguiu Sertório, calmamente, — é o que nos cabe levar a efeito. E, sintetizando longas considerações que poderia expender relativamente ao assunto, acentuou: — Por agora, André, chama-nos o dever mais alto, no campo de nossa jornada para Deus. Todavia, quando terminarem as instruções da noite, voltarei a ver o que é possível efetuar em favor de nossos pobres amigos. No momento, não devemos perder os minutos. As preleções de Alexandre não se destinam tão somente ao preparo dos nossos irmãos que ainda se ligam aos envoltórios de carne, na superfície da Crosta; são igualmente valiosas para nós outros, que necessitamos enriquecer possibilidades para socorrer, com êxito, os companheiros encarnados. — Sim, concordo, — respondi. — No entanto, a situação de Vieira e Marcondes sensibiliza-me fundamente. Sertório, porém, cortou-me a palavra, rematando, seguro de si mesmo: — Conserve seu sentimento, que é sagrado; não se arrisque, porém, a sentimentalismo doentio. Esteja tranquilo quanto à assistência, que não lhes faltará no momento oportuno; todavia, não se esqueça de que se eles mesmos algemaram o coração em semelhantes cárceres, é natural que adquiram alguma experiência proveitosa à custa do próprio desapontamento.
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