que Deus não é cruel, nem vingativo, nem inflexível, como o apresentam, mas bom e misericordioso? se, em todos os pontos do globo onde as chamam para se convencerem da vida futura, elas dizem a mesma coisa? Enfim, é culpa minha se o quadro que fazem do futuro reservado aos homens é mais sedutor que o que ofereceis? se os homens preferem a misericórdia à danação? Quem fez a Doutrina Espírita? São suas palavras, e não a minha imaginação; são os próprios atores do mundo invisível, as testemunhas oculares das coisas de além-túmulo que a ditaram e ela só foi estabelecida sobre a concordância da imensa maioria das revelações feitas em todos os lados e a milhares de pessoas que eu jamais tinha visto. Em tudo isto não fiz senão recolher e coordenar metodicamente o ensino dado pelos Espíritos; sem levar em conta opiniões isoladas, adotei as do maior número, afastando todas as idéias sistemáticas, individuais, excêntricas ou em contradição com os dados positivos da Ciência.
Desses ensinamentos e de sua concordância, bem como da atenta observação dos fatos, ressalta que as manifestações espíritas nada têm de sobrenatural, mas, ao contrário, resultam de uma lei da Natureza, até hoje desconhecida, como o foram durante muito tempo as da gravitação, do movimento dos astros, da formação da Terra, da eletricidade, etc. Desde que essa lei está na Natureza, é obra de Deus, a menos que se diga que a Natureza é obra do diabo. Esta lei, explicando uma porção de coisas que, sem ela, seriam inexplicáveis, converteu tantos incrédulos à existência da alma que o fato propriamente dito das manifestações e a sua prova está no grande número de materialistas reconduzidos a Deus só pela leitura das obras, sem nada terem visto. Teria sido melhor que permanecessem na incredulidade, com risco de nem mesmo estarem na ortodoxia católica?
A Doutrina Espírita não é obra minha, mas dos Espíritos. Ora, se esses Espíritos são as almas dos homens, ela não pode ser obra do demônio. Se fosse minha concepção pessoal, vendo seu prodigioso sucesso eu não poderia senão felicitar-me; mas eu não me poderia atribuir o que não é meu. Não, ela não é obra de um só, homem ou Espírito, que, fosse quem fosse, não lhe poderia ter dado uma sanção suficiente; é obra de uma multidão de Espíritos, e é isto que constitui a sua força, pois cada um pode receber a sua confirmação. O tempo, como dizeis, far-lhe-á boa justiça? Para tanto é preciso que deixe de ser ensinada, isto é, que os Espíritos deixassem de existir e de se comunicarem em toda a Terra; seria preciso, além disso, que ela deixasse de ser lógica e de satisfazer às aspirações dos homens. Acrescentais esperar que eu reconheça meu erro. Não o creio e, francamente, não são os argumentos de vossa brochura que me farão mudar de opinião, nem desertar do posto em que me colocou a Providência, no qual tenho todas as alegrias morais a que um homem pode aspirar neste mundo, vendo frutificar o que semeou. É uma felicidade muito grande e muito doce, eu vos asseguro, à vista dos que tornou felizes, de tantos homens arrancados ao desespero, ao suicídio, à brutalidade das paixões e reconduzidos ao bem. Uma só de suas bênçãos me paga largamente de todas as fadigas e de todos os insultos. Não está no poder de ninguém me arrancar esta felicidade; não a conheceis, visto que ma quereis tirar. Eu vo-la desejo de toda a minha alma; tentai e vereis.
Senhor vigário, eu vos concedo dez anos de prazo para ver o que então pensareis da doutrina.
Aceitai, etc.
Allan Kardec