O regresso de Paulo e Barnabé foi assinala do em Antíoquia com imenso regozijo. A comunidade fraternal admirou, profundamente comovida, o feito dos irmãos que haviam levado a regiões tão pobres, e distantes, as sementes divinas da verdade e do amor. Por muitas noites consecutivas, os recém -chegados apresentaram o relatório verbal de suas atividades, sem omitir um detalhe. A igreja antioquense vibrou de alegria e rendeu graças ao Céu. Os dois dedicados missionários haviam voltado em uma fase de grandes dificuldades para a instituição. Ambos perceber am-nas, contristados. As contendas de Jerusalém estendiam -se a toda a comunidade de Andio quia; as lutas da circuncisão estavam acesas. Os pró prios chefes mais eminentes estavam divididos pelas afirmativas dogmáticas. Tão alto grau atingiram os dis crimes, que as vozes do Espírito Santo não mais se manifestavam. Manahen, cujos esforços na igreja eram indispensáveis, mantinha -se a distância, em vista das discussões estéreis e venenosas. Os irmãos achavam -se extremamente confusos. Uns eram partidários da cir cuncisão obrigatória, outros se batiam pela independência irrestrita do Evangelho. Eminentemente preocupado, o pregador tarsense observou as polêmicas furiosas, a respeito de alimentos puros e impuros. Tentando estabelecer a harmonia geral em torno dos e nsinamentos do Divino Mestre, Paulo tomava inutilmente a palavra, explicando que o Evangelho era livre e que a circuncisão era, tão -somente, uma característica convencional da intolerância judaica. Não obstante sua autoridade inconteste, que se aureolava de prestígio perante a comunidade inteira, em vista dos grandes valores espirituais conquistados na missão, os desentendimentoS persistiam. Alguns elementos chegados de Jerusalém complica ram ainda mais a situação. Os menos rigorosos falavam da autoridade absoluta dos Apóstolos galileus. Comentava-se, à sorrelfa, que a palavra de Paulo e Barnabé, por muito inspirada que fosse nas lições do Evangelho, não era bastantemente autorizada para falar em nome de Jesus. A igreja de Antioquia oscilava numa posição d e imensa perplexidade. Perdera o sentido de unidade que a caracterizava, dos primórdios. Cada qual doutrinava do ponto de vista pessoal. Os gentios eram tratados com zombarias; organizavam-se movimentos a favor da circuncisão. Fortemente impressionados com a situação, Paulo e Barnabé combinam um recurso extremo. Deliberam convidar Simão Pedro para uma visita pessoal à instituição de Antioquia. Conhecendo-lhe o espírito liberto de preconceitos religiosos, os dois companheiros endereçam -lhe longa missiva, ex plicando que os trabalhos do Evangelho precisavam dos seus bons ofícios, insis tindo pela sua atuação prestigiosa. O portador entregou a carta, cuidadosamente, e, com grande surpresa para os cristãos antioquenos, o ex -pescador de Cafarnaum chegou à cidade , evidenciando grande alegria, em razão do período de repouso físico que se lhe deparava naquela excursão. Paulo e Barnabé não cabiam em si de contentes. Acompanhando Simão, viera João Marcos que não aban donara, de todo, as atividades evangélicas. O grupo viveu lindas horas de confidências íntimas, a propósito das viagens missionárias, relatadas inteligentemente pelo ex -rabino, e relativamente aos fatos que se desenrolavam em Jerusalém, desde a morte do filho de Zebedeu, contados por Simão Pedro, com sin gular colorido. Depois de bem informado da situação religiosa em Antioquia, o ex pescador acrescentava: — Em Jerusalém, nossas lutas são as mesmas. De um lado a igreja cheia de necessitados, todos os dias; de outro as perseguições sem tréguas. No centro de todas as atividades, permanece Tiago com as mais rís pidas exigências. Às vezes, sou tentado a lutar para restabelecer a liberdade dos princípios do Mestre; mas, como proceder? Quando a tempestade religiosa ameaça destruir o patrimônio que conseguimos ofe recer aos aflitos do mundo, o farisaísmo esbarra na observância rigorosa do companheiro e é obrigado a paralisar a ação criminosa, encetada desde muito tempo. Se tra balhar por suprimir-lhe a influência, estarei precipi tando a instituição de Jerusalém no abismo da destruição pelas tormentas políticas da grande cidade. E o pro grama do Cristo? e os necessitados? seria justo preju dicarmos os mais desfavorecidos por causa de um ponto de vista pessoal? E ante a atenção profunda de Paulo e Barnabé, o bondoso c ompanheiro continuava: — Sabemos que Jesus não deixou uma solução di reta ao problema dos incircuncisos, mas ensinou que não será pela carne que atingiremos o Reino, e sim pelo raciocínio e pelo coração. Conhecendo, porém, a atuação do Evangelho na alma popular, o farisaísmo autoritário não nos perde de vista e tudo envida por exterminar a árvore do Evangelho, que vem desabrochando entre os simples e os pacíficos. É indispensável, pois, todo o cuidado de nossa parte, a fim de não causarmos pre juízos, de qualquer natureza, à planta divina. Os companheiros faziam largos gestos de aprovação. Revelando sua imensa capacidade para nortear uma idéia e congraçar os numerosos prosélitos em divergência, Simão Pedro tinha uma palavra adequada para cada situação, um esclarecimento justo para o problema mais singelo. A comunidade antioquiana regozijava -se. Os gentios não ocultavam o júbilo que lhes ia nalma. O gene roso Apóstolo a todos visitava pessoalmente, sem distinção ou preferência. Antepunha sempre um bom sorris o às apreensões dos amigos que receavam a alimentação “impura” e costumava perguntar onde estavam as substâncias que não fossem abençoadas por Deus. Paulo acompanhava -lhe os passos sem dissimular íntima satis fação. Num louvável esforço de congraçamento, o Apóstolo dos gentios fazia questão de levá-lo a todos os lugares onde houvesse irmãos perturbados pelas idéias da circuncisão obrigatória. Estabeleceu -se, rapidamente, notável movimento de confiança e uniformidade de opi nião. Todos os confrades exultavam de contentamento. Eis, porém, que chegam de Jerusalém três emissá rios de Tiago. Trazem cartas para Simão, que os recebe com muitas demonstrações de estima. Daí por diante, modifica-se o ambiente. O ex-pescador de Cafarnaum, tão dado à simplicidade e à independência em Cristo Jesus, retrai -se imediatamente. Não mais atende aos convites dos incircuncisos. As festividades íntimas e carinhosas, organizadas em sua honra, já não contam com a sua presença alegre e amiga. Na igreja, modificou as mínimas atitude s. Sempre em companhia dos mensageiros de Jerusalém, que nunca o deixavam, parecia austero e triste, jamais se referindo à liberdade que o Evangelho outorgara à consciência humana. Paulo observou a transformação, tomado de pro fundo desgosto. Para o seu espírito habituado, de modo irrestrito, à liberdade de opinião, o fato era chocante e doloroso. Agravara-o a circunstância de partir justa mente de um crente como Simão, altamente categorizado e respeitável em todos os sentidos. Como interpretar aquele procedimento em completo desacordo com o que se esperava? Ponderando a grandeza da sua tarefa junto dos gentios, a menor pergunta dos amigos, nesse particular, deixava-o confuso. Na sua paixão pelas atitudes francas, não era dos trabalhadores que conseguem es perar. E após duas semanas de expectação ansiosa, dese joso de proporcionar uma satisfação aos numerosos elementos incircuncisos de Antioquia, convidado a falar na tribuna para os companheiros, começou por exaltar a emancipação religiosa do mundo, desde a vinda de Jesus-Cristo. Passou em revista as generosas demonstrações que o Mestre dera aos publicanos e aos pecadores. Pedro ouvia -o, assombrado com tanta erudição e recurso de hermenêutica para ensinar aos ouvintes os princípios mais difíceis, Os mensageiros de Tiago estavam igualmente surpreendidos, a assembléia ouvia o orador atentamente. Em dado instante, o tecelão de Tarso olhou fixa -mente para o Apóstolo galileu e exclamou: — Irmãos, defendendo o nosso sentimento de uni ficação em Jesus, não posso disfarçar nosso desgosto em face dos últimos acontecimentos. Quero referir-me à atitude do nosso hóspede muito amado, Simão Pedro, a quem deveríamos chamar “mestre”, se esse título não coubesse de fato e de direito ao nosso Salvador. (1) A surpresa foi grande e o espanto geral. O Após tolo de Jerusalém tambêm estava surpreso, mas parecia muito calmo. Os emissários de Tiago revelavam profundo mal-estar. Barnabé estava lívido. E Paulo prosseguia sobranceiro: — Simão tem personificado para nós um exemplo vivo. O Mestre no-lo deixou como rocha de fé imortal. No seu coração generoso temos depositado as mais vastas esperanças. Como interpretar seu procedimento, afastan do-se dos irmãos incircuncisos, desde a chegada dos mensageiros de Jerusalém? Antes disso, compa recia aos nossos serões íntimos, comia do pão de nossas mesas. Se assim procuro esclarecer a questão, abertamente, não é pelo desejo de escandalizar a quem quer que seja, mas porque só acredito num Evangelho livre de todos os preconceitos errôneos do mund o, considerando que a palavra do Cristo não está algemada aos interesses inferiores do sacerdócio, de qualquer natureza. (1) As observações de Paulo na Epístola aos Gálatas (capítulo 2º, versículos 11 e 14) referem -se a um fato anterior à reunião dos dis cípulos. — (Nota de Emmanuel) O ambiente carregara-se de nervosismo. Os gentios de Antioquia fitavam o orador, enternecidos e gratos. Os simpatizantes do farisaísmo, ao contrário, não escondiam seu rancor, em face daquela coragem quase audaciosa. Nesse instante, de olhos inflamados por sen timentos indefiníveis, Barnabé tomou a palavra, enquanto o orador fazia uma pausa, e considerou: — Paulo, sou dos que lamentam tua atitude neste passo. Com que direito poderás atacar a vida pura do continuador de Crist o Jesus? Isso, inquiria-o ele em tom altamente comovedor, com a voz embargada de lágrimas. Paulo e Pedro eram os seus melhores e mais caros amigos.