“Tenho a infelicidade de ter sido condenado a seis anos de reclusão, justa conseqüência de minha conduta passada. Assim, não tenho direito de me queixar e, se o relato, é a bem da ordem.
“Há apenas um mês eu me julgava perdido para sempre. Por que hoje penso o contrário e por que a esperança inunda de luz o meu coração? Não será porque o Espiritismo, desvendando-me a sublimidade de suas máximas, fez-me compreender que os bens terrenos nada valem? que a verdadeira felicidade só existe para os que praticam as virtudes ensinadas por Jesus-Cristo, virtudes que nos aproximam de Deus, nosso pai comum? Não será, também, porque, apesar de caído num estado de abjeção, não obstante desacreditado pela sociedade, posso esperar reabilitar-me de algum modo e, deste ponto de vista, preparar minha alma para uma vida melhor pela prática das virtudes e meu amor a Deus e ao próximo?
“Não sei se são bem estas as verdadeiras causas da mudança que em mim se operou; mas o que sei é que em todo o meu ser se passa algo que não posso definir. Estou com melhores disposições em face dos infelizes que, como eu, estão colocados sob a palmatória da sociedade. Tenho certa autoridade sobre uma centena deles e estou bem decidido a não usá-la senão para o bem.
Minha posição moral parece-me menos penosa; considero meus sofrimentos como uma justa expiação e esta idéia me ajuda a suportá-la. Enfim, não é mais com sentimentos de ódio que considero a sociedade; rendo-lhe a justiça que lhe é devida.
“Tenho certeza de que são estas as causas que reagiram sobre o meu espírito e que, no futuro, farão de mim – acalento essa doce esperança – um homem amante e servo de Deus e do próximo, praticando a caridade e seus deveres. E a quem deverei render graças por esta feliz metamorfose, que de um homem mau terá feito um homem amante da virtude? Primeiramente a Deus, a quem devemos tudo referir, e em seguida aos vossos excelentes escritos. Assim, senhor, permiti vo-lo diga, esta carta tem por objetivo vos assegurar toda a minha gratidão.
“Mas por que minha educação espírita deve ficar inacabada? Sem dúvida Deus assim o quer; que se faça a sua vontade! Não vos deixarei ignorar, senhor, o nome da excelente criatura a quem devo o que sei agora: é o Sr. Benoît, que, tendo notado em mim um desejo de reparar o meu passado, houve por bem iniciar-me na Doutrina Espírita; infelizmente vou perdê-lo, pois sua nova posição não mais lhe permitirá que me venha ver. É uma grande desdita para mim e não vo-la oculto, porque aos conselhos ele juntava o exemplo. Também ele deve o seu progresso à doutrina. Dizia-me: ‘Até que tivesse sido esclarecido pelo Espiritismo, tão logo terminava minha refeição ia para o café e lá, muitas vezes, não só me esquecia dos deveres para com a minha pequena família, mas ainda para com o meu patrão. O tempo que assim passava hoje emprego na leitura de livros espíritas, leitura que faço em voz alta, para que minha família também aproveite. E crede-me, acrescentava o Sr. Benoît, isto vale mais, é o começo da verdadeira, da única felicidade.’
“Peço-vos perdoeis a minha temeridade e, sobretudo, a extensão desta carta, e crede-me, etc.”
D...
Esse Sr. Benoît é um simples operário. Tinha sido instruído no Espiritismo por uma senhora da cidade, da qual havia falado ao prisioneiro. Este último, antes da partida de seu instrutor, a ela enviou a seguinte carta: “Senhora, “Por certo é grande temeridade de minha parte ousar vos dirigir estas linhas, mas conto com a vossa bondade para ser perdoado, principalmente em razão das causas que me levam a agir. Primeiro, tenho de vos agradecer, senhora, mas agradecer do mais profundo do coração, de toda a minha alma, pelo bem que me fizestes, permitindo que o Sr. Bennoît me instruísse no Espiritismo, esta sublime doutrina chamada a regenerar o mundo, e que tão bem sabe demonstrar ao homem o que deve a Deus, à família, à sociedade, a si mesmo; que, provando que nem tudo se acaba nesta vida, o estimula e lhe dá meios de se preparar uma outra vida. Creio ter aproveitado os úteis ensinamentos que recebi, porque experimento um sentimento que me deixa com melhores disposições para com os meus semelhantes e me faz ter sempre o pensamento voltado para o céu. É um começo de fé?
Eu o espero. Infelizmente o Sr. Benoît vai partir e, com ele, a esperança de me instruir.
“Sei que sois bondosa, que tendes pensado em continuar a me dar os meios de me esclarecer; eu vos suplico de joelhos que continueis a obra começada; ela vos será contada por Deus, pois tendes a esperança de fazer de um infeliz perdido nos vícios do mundo um homem virtuoso, um homem digno deste nome, de sua família e da sociedade. Esperando o dia em que, livre, poderei dar minhas provas, eu vos bendirei como meu Espírito nesta Terra; eu vos associarei às minhas preces e dia virá em que também poderei ensinar à minha família a vos bendizer, a vos venerar, pois lhe tereis devolvido um filho, um irmão honesto. É impossível ser de outra forma quando se serve a Deus sinceramente. Concluo, pois, senhora, pedindo que sejais, na Terra, meu Espírito bom e que me dirijais no bom caminho. O que fizerdes será contado como uma boa obra. Quanto a mim, prometo ser dócil aos vossos ensinamentos.
“Termino, etc.”
Observação – Simples operário, esse Sr. Benoît era um exemplo recente do efeito moralizador do Espiritismo e, por sua vez, já traz ao bom caminho uma alma transviada; devolve à família, à sociedade um homem honesto em vez de um criminoso, boa obra para a qual concorreu uma dama caridosa, desconhecida de ambos, mas animada do só desejo de fazer o bem. E tudo isto é feito na sombra, sem fausto, sem ostentação, e apenas com o testemunho da consciência.
Espíritas, eis desses milagres de que vos deveis orgulhar, que todos podeis operar e pelos quais não necessitais de nenhuma faculdade excepcional, pois basta o desejo de fazer o bem. Se o Espiritismo tem tal poder sobre as almas corrompidas, que não se deve esperar para a regeneração da Humanidade, quando se tiver convertido em crença comum e cada um o empregar em sua esfera de ação!
Vós todos que atirais pedras contra o Espiritismo e dizeis que ele enche as casas de alienados, dai, pois, em seu lugar algo que produza mais do que ele. Pelo fruto se conhece a qualidade da árvore. Julgai, pois, o Espiritismo pelos seus frutos e tratai de os produzir melhores; então sereis seguidos. Mais alguns anos e vereis muitos outros prodígios; não sinais no céu para ferir os olhos, como pediam os fariseus, mas prodígios no coração dos homens, dos quais o maior será fechar a boca dos detratores e abrir os olhos aos cegos, pois é preciso que se cumpram as predições do Cristo, e todas elas se cumprirão.