2. Poder-se-ão considerar como aparições as figuras e outras imagens que se apresentam a certas pessoas, quando estão levemente adormecidas, ou quando apenas fecham os olhos?
“Quando os sentidos se entorpecem, o Espírito se desprende e pode ver longe, ou perto, aquilo que não lhe seria possível ver com os olhos. Com muita frequência, tais imagens são visões, mas também podem ser efeito das impressões que a vista de certos objetos deixou no cérebro, cujos vestígios conserva, como conserva os dos sons. O Espírito liberto vê então no seu próprio cérebro as impressões que aí se fixaram como numa chapa fotográfica. A variedade e a mistura dessas impressões formam conjuntos estranhos e fugazes, que se desfazem quase imediatamente, apesar dos esforços que se façam para retê-los. É a uma causa semelhante que se devem atribuir certas aparições fantásticas, que nada têm de reais e que muitas vezes se produzem durante uma enfermidade.”
Admite-se que a memória seja o resultado das impressões que o cérebro conserva. Mas por que singular fenômeno essas impressões, tão variadas, tão múltiplas, não se confundem? Eis um mistério impenetrável, porém não mais estranho do que o das ondulações sonoras que se cruzam no ar e que, no entanto, se conservam distintas. Num cérebro saudável e bem organizado, essas impressões são claras e precisas; em condições menos favoráveis, elas se apagam e se confundem; daí a perda de memória ou a confusão das ideias. Isto ainda parecerá menos extraordinário se admitirmos, como admite a frenologia, uma destinação especial a cada parte e, até mesmo, a cada fibra do cérebro.
As imagens que chegam ao cérebro através dos olhos deixam ali uma impressão, em virtude da qual uma pessoa se lembra de um quadro, como se o tivesse diante de si. Trata-se de uma questão de memória, pois nada se vê. Ora, em certos estados de emancipação, a alma vê o que está no cérebro e aí torna a encontrar aquelas imagens, sobretudo as que mais a chocaram, segundo a natureza das preocupações ou as disposições de espírito. É assim que lá encontra de novo a impressão de cenas religiosas, diabólicas, dramáticas, mundanas, figuras de animais esquisitos, que ela viu noutra época em pinturas ou mesmo em narrações, já que estas últimas também deixam impressões. A alma, pois, vê realmente, mas vê apenas uma imagem fotografada no cérebro. Em condições normais essas imagens são fugazes, efêmeras, porque todas as partes cerebrais funcionam livremente; porém, no curso de doenças o cérebro se acha mais ou menos enfraquecido, o equilíbrio entre todos os órgãos deixa de existir, conservando somente alguns a sua atividade, enquanto outros permanecem de certa forma paralisados. Daí a persistência de certas imagens, que as preocupações da vida exterior não mais conseguem apagar, como acontece no estado normal. Eis aí a verdadeira alucinação e causa principal das ideias fixas.
Conforme se vê, explicamos esta anomalia por meio de uma lei muito conhecida, inteiramente fisiológica, a das impressões cerebrais, embora nos fosse necessário lançar mão da intervenção da alma. Ora, se os materialistas ainda não puderam dar uma solução satisfatória para este fenômeno, é porque não querem admitir a alma. Por isso mesmo, dirão que a nossa explicação é má, já que nos apoiamos em um princípio que é contestado. Contestado por quem? Por eles, mas admitido pela imensa maioria das criaturas, desde que houve homens na Terra. A negação de alguns, portanto, não pode constituir lei.
Nossa explicação é boa? Apresentamos a nossa pelo que ela possa valer, em falta de outra e, se quiserem, a título de simples hipótese, enquanto não aparece coisa melhor. Tal como foi dada, pode explicar todos os casos de visão? Claro que não. Desafiamos, porém, os fisiologistas a apresentarem uma explicação que, do seu ponto de vista exclusivo, resolva todos os casos, já que nada dizem quando pronunciam as palavras sacramentais: superexcitação e exaltação. Sendo assim, e levando-se em conta que todas as teorias da alucinação se mostram incapazes de explicar todos os fatos, é que existe alguma coisa além da alucinação propriamente dita. Nossa teoria seria falsa se a aplicássemos a todos os casos de visão, porque alguns poderiam contradizê-la. É, porém, legítima, desde que restrita a alguns efeitos.