XVI
Quando se lança um olhar rápido sobre o conjunto da História, esse verdadeiro livro do destino dos povos, parece que cada século tem um papel especial a preencher, uma particular missão a exercer na marcha da Humanidade. O século XX parece ter uma vocação superior a todos os outros. Em sua primeira metade, assiste ao desmoronamento de tudo quanto constituiu o passado. Em sua segunda metade, assentará as bases do mundo futuro, feito de beleza, de luz, de justiça, que nossos contemporâneos saudaram por miragem ainda longínqua desse novo mundo do pensamento e de ciência, mundo que pressentimos tal qual Cristóvão Colombo pressentiu a aproximação de um continente desconhecido. A transição não se faz sem abalo, sem choques violentos. O espetáculo das decomposições que se produzem seria lamentável, se não soubéssemos que, às grandes ruínas, sucedem as grandes ressurreições. A História, com efeito, apaga para poder escrever; o pensamento só destrói para reconstruir; é a lei da evolução, a marcha lógica da Humanidade. Assistimos ao aluir das religiões, ou melhor, dos ritos e formas culturais, porque a religião, em seu princípio, em sua essência, isto é, o vôo da Alma para o Infinito, a aspiração das Inteligências para o ideal divino, a religião é indestrutível, quanto o é a Verdade, inesgotável quanto o amor, inalterável quanto a beleza. O que deve perecer e tende, dia a dia, a extinguir-se, são as velhas fórmula dogmáticas, o farisaísmo antigo, as disciplinas envelhecidas. É todo o aparelhamento sacerdotal e o culto dos ídolos. A Religião Católica, em particular, abate-se ao peso de suas faltas seculares. A Igreja Romana, desde há muito, não passa de potência política. Seus pontífices desconheceram a própria missão; seus padres perderam o senso da iniciação profunda e sagrada dos primeiros cristãos. Assim se acentuou, pela abolição da Concordata e pela atitude do papa, durante a última guerra, a ruptura entre a Igreja e a sociedade moderna, a cisão entre o espírito de Roma e o do século. Assistimos igualmente ao desabamento da Ciência, não da verdadeira Ciência, como o pretendia Brunetière, porque esta não pode perecer – (a trabalhadora que jamais depõe a sua balança) –, mas da ciência materialista, a que dominou o mundo durante mais de cem anos. Há meio século, Ernest Renan publicava um livro sobre o Futuro da Ciência, livro habilmente concebido, que teve certa voga, e no qual profetizava a desaparição, em breve termo, do mistério que, sob formas diversas, surge em desafio ao pensamento humano. O mistério subsistiu... Multiplicou-se, mesmo, graças à recente descoberta da radioatividade dos corpos e do desenvolvimento dos fenômenos psíquicos. Outros exemplos farão ver até que ponto a ciência oficial, proclamando vitórias sobre a Matéria, mostrou-se impotente para resolver as grandes questões que têm tratado da Alma humana e de suas faculdades. Nos seus Enigmas do Universo, escreveu Haeckel: “Enquanto o enigma da substância, que recapitula todos os outros enigmas, não for resolvido, nada se terá feito para a satisfação do espírito humano.” Um dos mestres da ciência moderna, Henri Poincaré, a quem a morte surpreendeu em meio de seus trabalhos, demonstrava, em uma de suas últimas obras, que a Ciência é, ainda, uma hipótese, e confessava que as leis da Física estão para rever-se. D'Arsonval teve quase a mesma linguagem, em seu curso no Colégio de França. Vejamos agora o que dizia sobre o mesmo assunto William James, reitor da Universidade de Harvard, nas últimas páginas de seu belo livro: A Experiência Religiosa. Ele declara não poder, “sem ouvir uma demonstração interior”, colocar-se na atitude do homem de ciência que não vê nada fora da sensação e das leis da Matéria.”. E algumas linhas mais adiante: “Toda experiência humana, em sua viva realidade, impele-me irresistivelmente a sair dos estreitos limites em que a Ciência pretende confinar-se. O mundo real é diferentemente constituído, muito mais rico e mais complexo que o da Ciência.”. É precisamente esse mundo real, o mundo psíquico, que a maior parte dos nossos sábios não quer conhecer; em vez de estudar, como deveriam, a vida, em suas altas manifestações, perdem-se na análise infinitesimal; não vêem, por assim dizer, senão o pó das coisas e das idéias. Faltaram sempre à ciência oficial a independência e a liberdade; apartou-se do caminho, submetendo-se servilmente à autoridade da Igreja; em seguida, enfeudou-se às doutrinas materialistas do século XVIII e, em seguida, ao panteísmo germânico. Enfim, depois de quase um século, tornou-se o satélite do Positivismo, essa doutrina incompleta, que se desinteressa sistematicamente do maior problema que o espírito humano quer e deve resolver o da sua origem e de seu destino. Ela se limita a arrastar pelo mundo fórmulas secas e banais, semelhantes à “Vitória-aptera”, que, desprovida de asas, se achava condenada a rastejar, sem poder elevar-se do solo. A Ciência céptica havia posto a lei do número na base de tudo. Desde então, a vida tornou-se uma espécie de álgebra, cujas equações nos levaram a uma ou a muitas incógnitas. Era andar em sentido contrário ao da Natureza; porque o homem existe para criar e não para decompor; para agir, e não unicamente para analisar. Esse sistema negativo havia tornado estéreis os trabalhos dos sábios, e foi assim que vimos, desde muito, ir, pouco a pouco, apagando-se, sob nossos olhos, os caracteres e as consciências, a arte, o ideal e a beleza. Com efeito, a Ciência desconheceu a lei da estética, consagrando o naturalismo que disseca a vida, em lugar de desenvolvê-la. Em moral, preconizou o determinismo, que erige em princípio a impotência do esforço e a renúncia à ação. Na ordem social, a pulverização, ao infinito, dos poderes e das responsabilidades, dando em resultado, por momentos, a um estado de coisas que confina com a desordem e a confusão. A Ciência, que tinha por missão construir uma sociedade sobre bases novas, destruiu sem nada edificar. Perdendo de vista as grandes altitudes, os grandes focos do pensamento, a Ciência céptica resfriou o coração humano; destruiu o grau elevado que poetiza a vida, que a torna suportável. Eis por que as gerações que surgem se mostram desenganadas e reclamam outra coisa. O problema político não oferece menor gravidade. Sob a pressão dos acontecimentos, a maior parte das instituições monárquicas desmoronou-se e a democracia triunfante estendeu-se sobre suas ruínas; em seu seio, porém, surgiu uma crise intensa. Crescem e espalham-se os elementos de anarquia. Os destinos da ciência materialista e os do Socialismo atual estão em correlação; inspiram-se pelos mesmos métodos e pelas mesmas fórmulas. É preciso convir, a democracia socialista de nossos dias está em desacordo com o próprio princípio da Revolução. Esta era essencialmente individualista; queria dar a cada um a livre iniciativa de seus atos pessoais. O regime atual age diferentemente; tende a nivelar as individualidades fortes, e a passar logicamente da igualdade de direito à igualdade de fato. Vai ao coletivismo, isto é, à negação da pessoa humana e à sua absorção no todo social. O “Estadismo” não nos desembaraçaria das mediocridades; bem ao contrário, seria, por natureza, o seu protetor. Não é também a regulamentação do trabalho, pela coletividade, que dará ao proletariado a felicidade que os utopistas do dia fazem luzir a seus olhos. Os homens são iguais, dir-se-á. Em seu sentido histórico restrito, a fórmula pode parecer exata; mas não se poderia tratar aqui de igualdade real, absoluta. Se os homens são iguais em direito, serão sempre desiguais em inteligência, em faculdades, em moralidade. Afirmar o contrário seria negar a lei da evolução, que, naturalmente, não age com a mesma eficácia sobre todos os indivíduos. O homem livre na terra livre! Tal será o ideal social do futuro. Mas, é preciso ter em conta a necessidade preliminar de outro fator: a Fraternidade, que só pela harmonia pode estar em equilíbrio com a liberdade. Têm fugido os séculos, desde a idade heróica dos primeiros cristãos, quando estes vendiam quanto possuíam, para que os Apóstolos distribuíssem, entre todo o preço dessa venda, segundo as necessidades de cada um. Esse princípio de verdadeira fraternidade, lembrado por Mabli aos homens da Revolução, onde se encontrará? Não é decerto nos costumes atuais, que o egoísmo caracteriza; é nas aspirações da Alma humana, nesse movimento que agita os povos de um extremo a outro da Terra; é no longínquo das idades futuras!... Acabamos de passar em revista as ruínas a que o século XX já assistiu. Falemos agora das renovações que prepara e que executará. É sempre na ordem intelectual que as grandes renovações começam. As idéias precedem e preparam os fatos. É a lógica da História e a lei do progresso humano. O abuso dos métodos e dos processos de análise tem estado a ponto de nos perder. Conseqüentemente, é mister preparar as grandes sínteses, as concepções de conjunto. Eis que se estabelece um novo ponto de vista para todas as coisas. Para aplicar métodos novos são precisos homens novos. Para a ciência livre de amanhã, são necessários espíritos livres. Enquanto os homens destas gerações, submetidos à disciplina da Igreja ou da Universidade, não tiverem desaparecido, apenas se poderá esboçar a obra de redenção do espírito humano. A Igreja com suas confissões e a Universidade com seus exames quebrantaram a elasticidade da Alma e oprimiram os surtos do pensamento. As vocações e as inteligências retraíram-se; ninguém teve o tempo e o espaço necessário para sentir e viver plenamente. Prepara-se, entretanto, o trabalho de renovação. O século XIX e o começo do XX viram aparecer os precursores. Os gênios não tardarão em vir. Em cada época da História, conta-se certo número de Espíritos que pertencem mais ao século seguinte do que àquele em que vivem.
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Título A missão do século XX
Parte Terceira
Título da Parte A lei circular – A missão do século XX