Isso foi um grave equívoco de seus supostos orientadores e um sério problema para ela. É certo que o médium deve ser tão impessoal quanto possível na avaliação de suas faculdades e do processo do seu exercício. Precisa examinar-se, ouvir opiniões e conselhos, procurar informar-se do seu desempenho e observar o que ocorre consigo mesmo, antes, durante e depois da manifestação, e coisas dessa natureza, mas não deve bloquear sumariamente o fenômeno. É preciso deixá-lo ocorrer e examiná-lo depois, com as lentes de aproximação da observação desapaixonada, pronto a rejeitar tudo aquilo sobre o que paire a mais leve suspeita de inautenticidade. Erasto, em O livro dos médiuns, deixou documentada sua muito citada recomendação: é melhor rejeitar nove verdades do que aceitar uma mentira. As verdades rejeitadas, o tempo as confirmaria, sob outras condições e através de outros médiuns ou do mesmo, ao passo que a mentira aceita veste a toga da verdade e se torna difícil de ser desvestida e apeada do seu falso pedestal.
Seja como for, o médium bem-intencionado, responsável e esclarecido precisa manter certa dose de confiança em si mesmo. Do contrário, o melhor que tem a fazer é abandonar a tarefa. Será preferível recuar de um compromisso assumido - o que é, usualmente, o da mediunidade - do que se perder lamentavelmente nos meandros da alienação.
Discorrendo sobre a inibição que os pesquisadores excessivamente críticos produzem sobre os fenômenos que pretendem estudar, Boddington acrescenta que também os médiuns demasiadamente críticos de suas faculdades acabam por inibi-las ao ponto de se inutilizarem para o trabalho a que foram, evidentemente, programados.
Páginas adiante ele retoma o assunto, de maneira ainda mais incisiva: "A predominância de uma atitude hiper crítica no médium frustra prontamente a eclosão da mediunidade".
Acha ele - entendo que com toda a razão - que a exagerada e obsessiva atitude crítica do médium gera no seu íntimo uma corrente de pensamento negativo que antagoniza o fenômeno nas suas próprias fontes. Correto isso, mesmo porque o campo de trabalho do médium, como temos visto, é o pensamento. Se ele impõe à livre circulação de idéias um sistema de sinais e de válvulas fechadas, não há espaço interior para que o fenômeno se produza. É preciso, portanto, que o médium desenvolva suas faculdades, procure afinar seu instrumento, aperfeiçoe constantemente seus métodos de trabalho e o faça em constante regime de vigilância. A atitude crítica final deve ficar reservada para ampliar os resultados e não para bloquear o processo em si. Somente se os resultados forem consistentemente insatisfatórios, então, sim, é preciso voltar ao mecanismo, ao sistema, à instrumentação da mediunidade para reexaminá-los de ponta a ponta, passo a passo, a fim de identificar e corrigir desacertos. Não, porém, paralisar todo o sistema para impedir que o fenômeno ocorra. Não se joga fora um aparelho de televisão recém adquirido somente porque está sem som, a imagem está distorcida ou não se fixa. É preciso revisar todo o circuito, substituir peças defeituosas, restabelecer circuitos interrompidos e reajustá-la. Ele voltará a funcionar. Não se pode extinguir a vida num organismo, pensando estudar nele a própria vida em ação.
Isso não quer dizer que não devamos analisar e avaliar cuidadosamente os programas de tevê ou rádio que estão entrando em nosso lar. Sim, é preciso fazê-lo e é até possível que nos vejamos ante a contingência de desligar o aparelho para sempre, se chegarmos à conclusão de que todos os programas que chegam à nossa casa são indesejáveis; mas para que saibamos se são ou não indesejáveis é preciso deixá-los vir. Como na comunicação mediúnica, a crítica é a posteriori e não apriorística.
Em suma: o exercício da mediunidade responsável e eficiente deve resultar de um equilíbrio entre crítica vigilante, de um lado, e confiança, não menos vigilante, do outro.
Como em tantas outras situações na vida, aqui também o radicalismo das posições é igualmente desastroso, tanto num extremo como no outro. Nem confiança exagerada, nem autocrítica obsessiva.
20. O TRABALHO MEDIÚNICO NO CENTRO ESPÍRITA
Não há dúvida, portanto, de que o médium iniciante está sujeito a sérias dificuldades de adaptação ao procurar integrar-se num grupo onde possa desenvolver adequadamente suas faculdades ou promover os ajustes de 'acabamento' ou afinação delas, se as leva em fase mais avançada de operação.
Convicto de que não pode e não deve exercer isoladamente sua mediunidade, vê-se na contingência de selecionar um bom grupo que possa freqüentar com regularidade e no qual encontre apoio, orientação e espaço para trabalhar, bem como pessoas não apenas dispostas a esse tipo de colaboração mas também dotadas de outras condições, como conhecimento da teoria, e experimentadas na prática dos fenômenos, dotadas de coração generoso, prontas a corrigir possíveis deficiências e desvios na prática mediúnica, mas razoáveis, serenas, compreensivas, que proporcionem estímulo, mas se abstenham do elogio inconseqüente.
É difícil reunir tantas condições em um só grupo, especialmente quando são muito amplos e ambiciosos seus planos. Não que os grupamentos espíritas sejam condenáveis porque são grandes. Cresceram impelidos por sua própria dinâmica e devido às carências de seus freqüentadores para poderem atender com certa continuidade à multidão que aflui às suas salas de passes, aos auditórios onde ouvem palestras, aos departamentos de assistência social. Para tudo isso é preciso ter um mínimo de estrutura administrativa, uma hierarquia, manipular recursos de vulto, montando e sustentando, enfim, toda uma organização, digamos, burocrática. Tudo bem, mesmo porque é praticamente impossível evitar a expansão dos centros que alcançam certo êxito nas suas tarefas, precisamente porque estão dando o melhor de si no atendimento de crescente número de pessoas que os procuram para suas aflições emocionais, seus problemas espirituais e suas carências materiais.
É desejável, contudo, que em grupos mais amplos o trabalho mediúnico não seja afetado pelo gigantismo, que resulta em complexidades perfeitamente evitáveis.
A solução não está, a meu ver, nem em deixar crescer indefinidamente o mediúnico, nem em extingui-lo sumariamente para cuidar apenas dos aspectos sociais, administrativos e de divulgação.
O trabalho mediúnico é da essência das tarefas coletivas que se promovem em qualquer centro espírita. É por seu intermédio que se mantém o intercâmbio com os seres desencarnados, tanto aqueles que nos trazem a palavra de orientação, de aconselhamento, de sabedoria, como os que vêm em busca de socorro, esclarecimento e ajuda, exatamente por se encontrarem mergulhados em conflitos seculares, dos quais não sabem como sair sozinhos ou relutam em assumir suas responsabilidades cármicas por saberem da carga de dor que os espera. O trabalho mediúnico complementa, amplia e sustenta o trabalho material que se realiza no grupo.
O espiritismo é dualista, isto é, está sempre atento aos dois aspectos distintos e integrados sob os quais se manifesta o ser encarnado - o físico (material, orgânico) e o espiritual. Ao cuidar de um aspecto, temos de estar atentos ao outro. Muitos dos que procuram os centros espíritas estão necessitados de ajuda material, tanto quanto de assistência espiritual. Seria incongruente cuidar apenas de uma de tais condições, em total desatenção à outra.
Quando, portanto, intensifica-se a atividade mediúnica a ponto de tornar-se o grupo grande demais, é preciso desdobrá-la em unidades menores, de forma que, dentro das tarefas normais e sem prejuízo do trabalho global, sejam encontrados espaço e tempo adequados para que continuem a desenvolver-se, harmonicamente, as duas faces do trabalho, ou seja, a material e a espiritual, sem prejuízo de nenhuma delas. O que deve ser evitado é o gigantismo da unidade mediúnica pelas dificuldades de relacionamento que cria e que acabam, fatalmente, por afetar a qualidade do trabalho que ali se pretende realizar.
Tarefas que se desenvolvem em perfeita harmonia e com excelentes resultados em grupos mediúnicos reduzidos, perdem-se muitas vezes em complicações e inesperadas dificuldades à medida que o grupo cresça desordenadamente.
Escreve Kardec, em O livro dos médiuns: A dificuldade ainda grande de reunir crescido número de elementos homogêneos deste ponto de vista nos leva a dizer que, no interesse dos estudos e por bem da causa mesma, as reuniões espíritas devem tender antes à multiplicação de pequenos grupos do que à constituição de grandes aglomerações. (Kardec, Allan, 1975) E explica suas razões, a seguir: Já vimos de quanta importância é a uniformidade de sentimentos para a obtenção de bons resultados. Necessariamente, tanto mais difícil é obter-se essa uniformidade quanto maior for o número. Nos agregados pouco numerosos, todos se conhecem melhor e há mais segurança quanto à eficácia dos elementos que para eles entram. O silêncio e o recolhimento são mais fáceis e tudo se passa como em família. As grandes assembléias excluem a intimidade, pela variedade dos elementos de que se compõem; exigem sedes especiais, recursos pecuniários e um aparelho administrativo desnecessário nos pequenos grupos. As divergências dos caracteres, das idéias aí se desenham melhor e oferecem aos espíritos perturbadores mais facilidade para semearem discórdias. Quanto mais numerosa é a reunião, tanto mais difícil conterem- se todos os presentes. (Allan kardec, 1975).
León Denis também recomenda a prática mediúnica em grupamentos pequenos, de não mais que dez/doze pessoas, quando muito. O número ideal, para ele, ficava entre seis e oito pessoas.