Nenhum dos nossos leitores ignora que os Espíritos desencarnados têm a faculdade de mostrar-se, sob aparência material, em certas circunstâncias e, em particular, aos médiuns videntes. Contudo, em bom número de casos, tais como os das aparições visíveis e tangíveis para uma multidão, ou para umas tantas pessoas, evidente se faz que a percepção da aparição não é devida à faculdade mediúnica dos assistentes, mas à realidade da aparência corpórea do Espírito e, nessa circunstância, como nos casos de ubiquidade, essa aparência corpórea resulta da condensação do aparelho perispirítico. Ora, se, as mais das vezes, os Espíritos, para se tomarem reconhecíveis, se apresentam tais quais eram em vida, com as vestes que
habitualmente usavam, impossível não há de ser que se apresentem vestidos de
modo diferente, ou mesmo sob aspectos quaisquer, como, por exemplo, O louquinho de Bayonne, que aparecia ora sob a sua forma pessoal, ora com a figura de um
irmão seu, já igualmente morto, ora sob o aspecto de pessoas vivas e até presentes.
O Espírito tinha o cuidado de fazer lhe reconhecessem a identidade, sem embargo
das várias formas sob que se apresentava. Nada, porém, teria ele feito, se não fosse
evidente que as testemunhas da manifestação estavam persuadidas de que assistiam a um fenômeno de ubiquidade.
Se, considerando como um precedente esse fato, que absolutamente não é único,
procurarmos explicar os de nos 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9, talvez se nos torne possível
aceitar-lhes a realidade, ao passo que, admitida a ubiquidade, a incompatibilidade
das ideias, o antagonismo dos sentimentos e a atividade do organismo das duas
partes não nos permitem considerá-los possíveis.
No fato no 4 se, em vez de imaginarmos o professor Becker em presença do seu
sósia, admitirmos que ele tinha diante de si um Espírito que lhe aparecia com o
seu aspecto, deixa de haver qualquer antagonismo e o fenômeno entra no domínio
do possível. O mesmo se dá com o fato no 7. Não se compreende que Elisabeth
da Rússia haja mandado atirar sobre a sua própria imagem, mas admite-se perfeitamente que o haja feito contra um Espírito que tomara a sua aparência para
mistificá-la. Alguns Espíritos tomam às vezes nomes de empréstimo e adotam o
estilo e as formas de dizer de outro, para alcançarem a confiança dos médiuns e
conseguirem penetrar nos grupos. Que haveria de impossível que a um Espírito
orgulhoso aprouvesse tomar a forma da imperatriz Elisabeth e sentar-se no seu
trono, a fim de dar vã satisfação aos seus sonhos ambiciosos? O mesmo se pode
dizer com relação a outros fatos.
Esta explicação damo-la apenas pelo que possa valer. Não passa, para nós, de uma
suposição bastante plausível; não é a solução real do problema. Mas qual a apresentamos, ela nos parece de natureza a esclarecer a questão, de atrair para esta as
luzes da discussão e da refutação. A esse título é que a submetemos aos nossos leitores. Possam as reflexões que provoque, as meditações a que abra ensejo cooperar
para a elucidação de um problema que apenas esfloramos, deixando que outros
mais dignos de o fazerem dissipem a obscuridade que ainda a envolvem.
Nota da Redação