Perguntam em que milagre nos apoiamos para julgarmos boa a Doutrina Espírita. Julgamo-la boa, não só porque é nossa opinião, mas também a de milhões de outros, que pensam como nós; porque leva a crença àqueles que não acreditavam; porque torna boas as pessoas que eram más; porque dá coragem nas misérias da vida. O milagre? é a rapidez de sua propagação, inaudita nos fastos das doutrinas filosóficas; é ter feito em poucos anos a volta ao mundo e se haver implantado em todos os países e em todas as classes da sociedade; é ter progredido, a despeito de tudo quanto foi feito para detê-la; é ter derrubado as barreiras que lhe opõem e encontrar um acréscimo de força nessas mesmas barreiras. É isto o caráter de uma utopia? Uma idéia falsa pode encontrar alguns partidários, mas não terá senão uma existência efêmera e circunscrita; perde terreno em vez de o conquistar, ao passo que o Espiritismo ganha, em vez de perder. Quando o vemos germinar em toda parte, acolhido como um benefício da Providência, é porque lá está o dedo da Providência. Eis o verdadeiro milagre, e o julgamos suficiente para garantir o seu futuro. Direis que aos vossos olhos ele não tem um caráter providencial, mas um caráter diabólico. Sois livres de ter essa opinião; o essencial é que ele marche. Apenas diremos que se uma coisa se estabelecesse universalmente pelo poder do demônio, e malgrado os esforços dos que dizem agir em nome de Deus, isto poderia levar certas pessoas a crer que o demônio é mais poderoso que a Providência. Pedis milagres! Eis um que nos envia um dos nossos correspondentes da Argélia: “O Sr. P..., antigo oficial, era um dos mais rudes incrédulos; tinha o fanatismo da falta de religião e, antes de Proudhon, já dizia: Deus é o mal; em outras palavras, não admitia nenhum Deus e só reconhecia o nada. Quando o vi em busca do vosso O Livro dos Espíritos, imaginei que ele fosse coroar a sua leitura com alguma elucubração satírica, como era costume seu fazer contra os padres e, até, contra o Cristo. Não me parecia possível que um ateísmo tão inveterado pudesse ser curado algum dia e, no entanto, O Livro dos Espíritos fez esse milagre. Se conhecêsseis aquele homem como eu conheço, ficaríeis orgulhoso de vossa obra e encararíeis o fato como o vosso maior sucesso.
Aqui todos se admiram. Entretanto, quando se é iniciado na palavra da verdade, não há de que se surpreender, naturalmente após a reflexão.”
Não faz mal acrescentar que o nosso correspondente é um jornalista que, ele também, professava opiniões muito pouco espiritualistas e, menos ainda, espíritas. Teriam ido pegá-lo à força para lhe impor a crença em Deus e na alma? Não; não é provável que ele se prestasse a isso. Fascinaram-no à vista de alguns fenômenos prodigiosos? Também não, porquanto ele nada viu como manifestações; apenas leu, compreendeu, encontrou raciocínios lógicos e acreditou. Direis que esta e tantas outras obras sejam obra do diabo? Se assim é, o diabo tem uma estranha política de dar armas contra si mesmo e é muito inábil deixando escapar os que ele mantinha em suas garras. Por que não fizestes esse milagre?
Sereis, então, menos fortes que o diabo para fazer crer em Deus?
Outra questão, por favor. Enquanto era ateu e blasfemador, aquele senhor estava danado para a eternidade? – Sem nenhuma dúvida. – Agora que, em vossa opinião, ele foi convertido a Deus por intermédio do demônio, ainda é danado? Suponhamos que, crendo em Deus, em sua alma e na vida futura feliz ou infeliz ele se torne, em virtude dessa crença, melhor do que era e não adote inteiramente ao pé da letra a interpretação de todos os dogmas; que, até mesmo, repila alguns deles: ainda é danado? Se disserdes: “sim”, a crença em Deus para nada lhe serve; se disserdes “não”, em que se torna a máxima “Fora da Igreja não há salvação?” Diz o Espiritismo: “Fora da caridade não há salvação”. Credes que aquele senhor vacilará entre as duas? Uma o queima, a outra o salva; a escolha não parece duvidosa.
Tais idéias, como toda idéia nova, contrariam certas pessoas, certos hábitos e, mesmo, certos interesses, como as estradas de ferro contrariaram os alugadores de cavalos de posta e os que tinham medo; como uma revolução contraria certas opiniões; como a imprensa contrariou os copistas; como o Cristianismo contrariou os sacerdotes pagãos. Mas, que fazer quando uma coisa se estabelece, queiramos ou não, por sua própria força e é aceita pela generalidade? Forçoso é tomar seu partido e, como Maomé, dizer que o que é deve ser. Que faríeis se o Espiritismo se tornasse crença universal? Repeliríeis todos os que o admitem? Direis que isto não acontecerá, que tal fato é impossível.
Mas... o que faríeis se isto acontecesse?
Pode-se deter esse impulso? Para isso seria preciso deter não um homem, mas os Espíritos, e impedi-los de falar; queimar não um livro, mas as idéias; impedir que os médiuns escrevam e se multipliquem.
Um dos nossos correspondentes nos escreveu, de uma cidade do Departamento do Tarn: “Nosso cura faz a propaganda por nós; do púlpito lança impropérios contra o Espiritismo que, diz ele, não passa de obra do demônio. Quase que me apontou como o sumo-sacerdote da doutrina em nossa cidade, o que agradeço do fundo do coração, pois assim ele me fornece ocasião para falar do assunto com aqueles que ainda não o conhecem e que me abordam para saber o que é. Hoje os médiuns abundam entre nós.” O resultado é idêntico em toda parte onde quiseram gritar contra.
Atualmente a idéia espírita está lançada; é acolhida porque agrada; vai do palácio à choupana e se pode julgar do efeito das tentativas futuras pelas que têm sido feitas para o sufocar.
Em resumo, para se estabelecer, o Espiritismo não reivindica a ação de nenhum milagre; não quer mudar em nada a ordem das coisas; procurou e encontrou a causa de certos fenômenos, indevidamente reputados de sobrenaturais; em vez de apoiar-se no sobrenatural, o repudia por conta própria; dirige-se ao coração e à razão. A lógica lhe abriu o caminho; a lógica o conduzirá a porto seguro.
Isto é uma antecipação da resposta que devemos à brochura do cura Marouzeau.
Deixemos agora que falem os Espíritos. Apresentada a questão acima, eis algumas das respostas obtidas, por meio de diferentes médiuns: “Venho falar-vos da realidade da Doutrina Espírita e contrapô-la aos milagres, cuja ausência parece servir de arma aos seus detratores. Necessários nos primeiros tempos da Humanidade, com vistas a chocar os Espíritos que importava submeter, quase todos os milagres são hoje explicados pelas descobertas das ciências físicas e de outras ciências, tornando-se inúteis agora e até perigosos, pois suas manifestações só despertarão a incredulidade ou a zombaria. Enfim chegou o reino da inteligência, não ainda na sua expressão triunfante, mas nas suas tendências. Que quereis? Ver novamente as varinhas transformadas em serpentes, os enfermos se erguerem e os pães se multiplicarem? Não; não vereis isto. Mas vereis os incrédulos se enternecerem e dobrarem os joelhos enrijecidos diante do altar. Este milagre vale bem o da água a brotar do rochedo. Vereis o homem desolado, vergando ao peso da desgraça, deixar de lado a pistola carregada, exclamar: ‘Meu Deus, sede bendito, porque a vossa vontade eleva minhas provas ao nível do amor que vos devo.’ Enfim, por toda parte, vós que bateis os fatos com os textos e o espírito com a letra, vereis a luminosa verdade estabelecer-se sobre as ruínas dos vossos mistérios apodrecidos.”
Lázaro (Médium: Sra. Costel) “Numa de minhas últimas meditações, se não me engano lida aqui, demonstrei que a Humanidade está progredindo atualmente. Até o Cristo ela tinha um corpo; era por certo esplêndida; tinha tido esforços heróicos e virtudes sublimes; Mas, onde estava a sua ternura, a sua mansuetude? Haveria a respeito muitos exemplos na Antigüidade. Abri um poema antigo: onde a mansidão? Onde a ternura? Encontrareis a sua expansão no poema, já quase inteiramente cristão, da Dido de Vergílio, espécie de heroína melancólica que Tasso ou Ariosto teriam tornado interessante nos seus cantos cheios de alegria cristã.
“Cristo veio, pois, falar ao coração da Humanidade.
Mas, como sabeis, o próprio Cristo disse que tinha vindo em carne no meio do paganismo e prometeu vir no meio do Cristianismo.
Há no indivíduo a educação do coração, como há a da inteligência.
O mesmo se dá com a Humanidade. Assim, o Cristo é o grande educador. Sua ressurreição é o símbolo de sua fusão espiritual em todos; e esta fusão, esta expansão dele mesmo, apenas começais a sentir. O Cristo não vem mais fazer milagres; vem falar ao coração diretamente, em vez de falar aos sentidos. Passava adiante dos que pediam um milagre no céu e alguns passos à frente improvisava o seu magnífico sermão da montanha. Aos que ainda pedem milagres, o Cristo responde por todos os Espíritos sábios e esclarecidos: Credes mais nos vossos olhos, nos vossos ouvidos, nas vossas mãos que no vosso coração? Minhas chagas atualmente estão fechadas; o Cordeiro foi sacrificado; a carne arruinada; o materialismo viu; agora é a vez do Espírito. Deixo os falsos profetas; não me apresento ante os poderosos da Terra, como Simão, o mágico, mas vou aos que realmente têm sede, fome e sofrem no coração, e não aos que são espiritualistas apenas como verdadeiros e puros materialistas.”
Lamennais (Médium: Sr. A. Didier) “Perguntam-nos quais os milagres que fazemos.