Capítulo 11
Guarda contigo a certeza de que estamos sendo instruídos todos os dias e em todos os acontecimentos… Aprende a procurar, antes de tudo… a vontade de Deus… A pobre viúva desejou prolongar a palestra; adivinhava-se-lhe, através dos olhos aflitos, o intenso propósito de continuar bebendo as sublimes consolações do momento, mas Alexandre tomou-lhe o braço e recomendou-lhe a necessidade de despedir-se. A esposa chorosa não relutou. Concentrando toda a sua capacidade afetiva nas palavras, disse adeus ao suicida e beijou-lhe as mãos com infinito carinho. Algo distante da organização hospitalar de emergência, confiou-a o instrutor aos cuidados de Romualda e regressou em minha companhia. Não conseguia ocultar minha enorme admiração por semelhante serviço de assistência. Alexandre percebeu-me o estado dalma e falou comovidamente: — Segundo observa, o trabalho de socorro pede muito esforço e devotamento fraterno. Não podemos esquecer que Raul e Ester são dois enfermos espirituais e, nessa condição, requerem muita compreensão de nossa parte. Felizmente, a viúva regressa cheia de novo ânimo e o nosso amigo, sentindo a extensão dos cuidados de que está sendo objeto, e notando por si mesmo quanto pode auxiliar a companheira encarnada, dar-se-á pressa em criar novas expressões de estímulo e energia no próprio coração. Impressionado, contudo, em vista do dilaceramento havido em seu organismo espiritual, indaguei: — E a região ferida? Raul experimentará semelhantes padecimentos até quando? — Talvez por muitos anos, — respondeu o instrutor, em tom grave. — Isso, porém, não o impedirá de trabalhar intensamente no campo da consciência, esforçando-se pela reaproximação da bendita oportunidade regeneradora. Outros problemas afloravam-me à ideia. No entanto, o instrutor precisava ausentar-se, em demanda de incumbências difíceis, nas quais não poderia eu acompanhá-lo. Pedi-lhe permissão para seguir, de perto o trabalho de assistência levado a efeito por Romualda, recebendo-lhe a generosa aprovação. Desejava saber até que ponto se confortara a viúva aflita e observar-lhe o proveito daquele reencontro, que traduzia elevada concessão. No dia seguinte, voltei ao lar modesto, justamente por ocasião do almoço familiar. Romualda andava ativa. O ambiente interno adquirira novo aspecto. As entidades viciadas não haviam desaparecido totalmente, mas o seu número fora consideravelmente reduzido. Amparando a sua protegida, a irmã auxiliadora recebeu-me com amabilidade. Notificou-me que a viúva amanhecera muito melhor e que ela, Romualda, fizera o possível por manter-lhe a recordação plena do sonho. Como era natural, a pobrezinha não poderia lembrar-se de todas as minúcias; entretanto, fixara as impressões culminantes, suscetíveis de acordar-lhe a divina esperança e restaurar-lhe o bom ânimo. Recomendou-me a verificar, por mim mesmo, o efeito maravilhoso da providência. De fato, o semblante da viúva ganhara nova expressão. De olhos límpidos e brilhantes, narrava aos tios e aos filhinhos o sublime sonho da noite. Todos a escutavam sob forte interesse, mormente as crianças, que pareciam participar de seu júbilo interior. Ester terminara a narrativa, emocionada. Observei, então, que a velha tia esboçava um gesto de incredulidade, perguntando-lhe: — E você acredita ter visitado Raul no outro mundo? — Como não? — Redarguiu a viúva, sem pestanejar, — tenho ainda a impressão de suas mãos sobre as minhas e sei que Deus me concedeu semelhante graça para que eu readquira minhas forças para o trabalho. Despertei hoje profundamente reanimada e feliz! Enfrentarei o caminho com novas esperanças! Esforçar-me-ei e vencerei. — Ó mamãe, como nos consolam as suas palavras! — Murmurou um dos pequenos, de olhos muito vivos, — como desejaria estar com a senhora para ouvir o papai nesse sonho maravilhoso!… Nesse instante, o velhinho, que se alimentava em silêncio, ponderou, na qualidade de excelente representante da descrença humana: — É interessante notar que tendo Raul consolado tanto o seu coração de mulher, nada tenha elucidado sobre o crime que o atirou no sepulcro. Ester, que sentiu a ironia da observação, influenciada pela benfeitora que ali se mantinha, respondeu prontamente: — Muitas vezes, meu tio, não sabemos ser gratos às bênçãos divinas. Recordo-me desta verdade, ao lhe ouvir semelhante raciocínio. Envergonho-me, quando me lembro haver feito interrogação desta natureza ao pobre Raul, abatido e pálido no leito. Basta-me a felicidade de tê-lo visto e ouvido num mundo que eu não posso compreender agora. Tenho a certeza de que o visitei em algum lugar. Que nos interessa descobrir criminosos, quando não podemos levantar-lhe o corpo físico? Em nossa preocupação de punir culpados, sem dar conta de nossas próprias culpas, iremos ao absurdo de desejar ser mais justos que o próprio Deus? Calou-se o tio, pensativo, e observei que as crianças sentiam imensa alegria pela resposta maternal. O coração de Ester penetrara a zona lúcida e sublime da fé viva, absorvendo paz, alegria e esperança, a caminho de uma vida nova. Ao me despedir, felicitei Romualda pelo seu nobre trabalho. A generosa servidora pôs-me a par de seu projeto de serviço. Permaneceria mais estreitamente ao lado da viúva, insuflando-lhe coragem e bom ânimo e, na semana próxima, contava com a possibilidade de cooperar no sentido de organizar-lhe serviço bem remunerado. Admirei-me, ouvindo o programa, principalmente no que tocava ao auxílio material; entretanto, Romualda aduziu muito calma: — Quando os companheiros terrestres se fazem merecedores, podemos colaborar em benefício deles, com todos os recursos ao nosso alcance, desde que a nossa cooperação não lhes tolha a liberdade de consciência. Roguei-lhe, então, o obséquio de admitir-me o concurso, no dia aprazado para os serviços finais. Romualda aquiesceu bondosamente, e, passada uma semana, fui por ela avisado, quanto à medida de conclusão dos trabalhos de assistência. Voltei ao lar da viúva, em companhia da digna servidora espiritual, que me recomendou: — Faça o favor de assistir nossa amiga, enquanto vou buscar a pessoa indicada para auxiliá-la. Já movimentei todas as providências cabíveis na situação e não temos tempo a perder. Mantive-me ali, em profunda curiosidade, e decorridas três horas, aproximadamente, alguém bateu à porta, chamando-me a atenção. Seguida de Romualda, uma dama distinta vinha ao encontro de Ester, oferecendo-lhe trabalho honesto em sua oficina de costura. A viúva chorou de emoção e de alegria, e, enquanto combinavam determinadas medidas de serviço, num quadro confortador de júbilo geral, a irmã auxiliadora falou-me, contente: — Agora, irmão André, podemos voltar tranquilamente. O serviço que nos foi confiado está concluído, graças ao Senhor.
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