Capítulo 6
Durante o vosso longo insulamento, e quase podemos dizer cativeiro, experimentastes algum remorso? – R. Nenhum, e por isso sofri tão longamente. Só quando o senti foi que ele provocou, sem que disso me desse conta, as circunstâncias determinantes da vossa evocação, à qual devo o começo da minha libertação. Obrigado, pois, a vós, que tivestes piedade de mim e me esclarecestes. Realmente, temos visto avaros sofrerem à vista do ouro, que para eles não passava de verdadeira quimera; orgulhosos, atormentados pelo ciúme das honrarias prestadas a outros que não a eles; homens que dominavam na Terra, humilhados pela potência invisível, constrangidos à obediência, em presença de subordinados, que não mais se curvavam diante deles; ateus atônitos pela dúvida, em face da imensidade, no mais absoluto insulamento, sem um ser que os esclareça. No mundo dos Espíritos há compensações para todas as virtudes, mas há também penalidades para todas as faltas, de modo que os que escaparam às leis dos homens são atingidos pela Lei de Deus. Devemos ainda notar que as mesmas faltas, embora cometidas em circunstâncias idênticas, são diversamente punidas, conforme o grau de adiantamento intelectual do Espírito que as cometeu. Aos Espíritos mais atrasados, de natureza mais grosseira, tal como este de que acabamos de tratar, são infligidos castigos de alguma sorte mais materiais que morais, ao passo que se dá exatamente o contrário para com aqueles cuja inteligência e sensibilidade estejam mais desenvolvidas. Aos primeiros impõe-se o castigo apropriado à rudeza do seu discernimento, para compreenderem o erro e dele se libertarem. É assim que a vergonha, por exemplo, causando pouca ou nenhuma impressão sobre eles, será intolerável para os outros. Neste código penal divino, a sabedoria, a bondade e a previdência de Deus para com as suas criaturas revelam-se até nas mínimas particularidades; tudo é proporcionado e combinado com admirável solicitude para facilitar aos culpados os meios de reabilitação. São levadas em consideração as mínimas aspirações da alma. Pelos dogmas das penas eternas, ao contrário, no inferno são confundidos os grandes e os pequenos criminosos, os culpados de momento e os reincidentes obstinados, os endurecidos e os arrependidos. Tudo é calculado para os manter no fundo do abismo. Não se lhes oferece nenhuma tábua de salvação; uma única falta pode precipitar-lhes para sempre nesse abismo, não lhes sendo de nenhum proveito qualquer benefício que hajam feito. De que lado, pois, se encontra a verdadeira justiça, a verdadeira bondade? Esta evocação nada tem de casual; e como deveria ser útil a esse infeliz, visto que ele já começava a compreender a enormidade do seu crime, os Espíritos que velavam por ele julgaram oportuno que chegara o momento de dar-lhe esse socorro eficaz, facilitando-lhe então as circunstâncias propícias. É um fato que temos visto reproduzir-se com muita frequência. Perguntar-se-á que seria deste Espírito se não fosse evocado, bem como de todos os sofredores que não o podem ser, assim como daqueles em que não se pensa. Poderíamos responder que os meios de que Deus dispõe para salvar as criaturas são inumeráveis, sendo a evocação um dentre esses meios, porém, não o único, certamente, visto que Ele não esquece nenhuma de suas criaturas. Além disso, as preces coletivas devem exercer a sua cota de influência sobre os Espíritos acessíveis ao arrependimento. Deus não poderia subordinar a sorte dos Espíritos sofredores à boa vontade e aos conhecimentos dos homens. Desde que estes conseguiram estabelecer relações regulares com o mundo invisível, uma das primeiras consequências do Espiritismo foi o ensino dos serviços que por meio dessas relações podem prestar aos seus irmãos desencarnados. Quis Deus, por esse meio, provar a solidariedade existente entre todos os seres do universo e dar uma Lei da natureza como base ao princípio da fraternidade. Ao abrir esse novo campo ao exercício da caridade, Deus mostra aos homens o lado verdadeiramente útil e sério das evocações, até então desvirtuadas do seu fim providencial pela ignorância e pela superstição. Aos Espíritos sofredores jamais faltaram socorros em qualquer época, e se as evocações lhes proporcionam uma nova via de salvação, talvez aproveitem mais ainda aos encarnados, por lhes proporcionar novos meios de fazer o bem, instruindo-se ao mesmo tempo sobre as verdadeiras condições da vida futura.
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Parte Segunda
Nome do Capítulo Criminosos arrependidos
Tema O Espírito de Castelnaudary
Item 19