Com o materialismo, que é a crença de que morremos como animais, que depois de nós será o nada, o bem não terá nenhuma razão de ser, os laços sociais nenhuma consistência: é a sanção do egoísmo. A lei penal será o único freio a impedir o homem de viver à custa de outrem. Se fosse assim, com que direito puniríamos o homem que mata o semelhante para apoderar-se de seus bens?
Porque é um mal, diríeis vós. Mas por que esse mal? Ele vos responderá: Depois de mim não há nada; tudo se acaba; nada tenho a temer; quero viver aqui o melhor possível e, para isso, tomarei dos que têm. Quem mo proíbe? Vossa lei? Vossa lei terá razão se for mais forte, isto é, se me pegar. Mas se eu for mais astucioso, se lhe escapar, a razão estará comigo.
Qual a sociedade, pergunto, que poderá subsistir com semelhantes princípios? Isto me lembra o seguinte fato: Um senhor que, como se diz vulgarmente, não acreditava em Deus, nem no diabo, e não o negava, notou que desde algum tempo vinha sendo roubado por seu criado. Um dia surpreendeu-o em flagrante e lhe disse: Como ousas, infeliz, tomar o que te não pertence? O doméstico pôs-se a rir e respondeu: Por que deveria crer, se também não credes? Por que tendes mais do que eu? Se eu fosse rico e vós pobre, quem vos impediria de fazer o que faço? Dei azar desta vez – eis tudo. De outra, cuidarei de agir melhor.
Aquele senhor teria ficado mais contente se o doméstico não tivesse tomado a crença em Deus como uma futilidade. É a essa crença e às que dela decorrem que deve o homem a sua verdadeira segurança social, muito mais que à severidade da lei, porque a lei não pode tudo alcançar. Se a crença se arraigasse no coração de todos, nada teriam a temer uns dos outros. Assestar as baterias contra ela é soltar a rédea a todas as paixões, é aniquilar todos os escrúpulos. Foi isso que levou recentemente um sacerdote, quando lhe pediram opinasse sobre o Espiritismo, a dizer estas sensatas palavras: O Espiritismo conduz à crença em alguma coisa. Ora, eu prefiro aqueles que acreditam em alguma coisa aos que em nada crêem, pois estes não acreditam nem mesmo na necessidade do bem.
Com efeito, o Espiritismo é a destruição do materialismo. É a prova patente, irrecusável, daquilo que certas pessoas chamam futilidades, a saber: Deus, a alma, a vida futura, feliz ou infeliz. Este flagelo, como o chamais, tem outras conseqüências práticas. Se soubésseis, como eu, quantas vezes fez ele voltar a calma aos corações ulcerados pela mágoa; que doce consolação tem espalhado sobre as misérias da vida; quanto ódio tem acalmado, quantos suicídios tem impedido, não zombaríeis tanto. Suponde que um de vossos amigos venha dizer-vos “Eu estava desesperado; ia estourar os miolos; mas hoje, graças ao Espiritismo, sei quanto isto me custa e desisto totalmente.” Se outro indivíduo vos disser: “Eu invejava o vosso mérito, a vossa superioridade; vosso sucesso impedia-me de dormir; queria vingar-me, derrotar-vos, arruinar-vos, até mesmo matar-vos. Confesso que correstes grandes perigos. Hoje, porém, que sou espírita, compreendo tudo quanto esses sentimentos têm de ignóbil e os abjuro. E, em vez de vos fazer mal, venho prestar-vos um serviço.”
Provavelmente direis: “Ótimo! Ainda bem que existe algo de bom nessa loucura.”
O que estou dizendo, senhor, não visa convencer-vos nem vos induzir às minhas idéias. Tendes convicções que vos satisfazem e que, para vós, resolvem todas as questões do futuro: é, pois, muito natural que as conserveis. Mas me apresentais aos vossos leitores como o propagador de um flagelo; eu tinha que lhes mostrar que seria desejável que todos os flagelos não fizessem maior mal, a começar pelo materialismo, de modo que conto com a vossa imparcialidade para lhes transmitir minha resposta.
“Mas, direis, não sou materialista. Pode-se muito bem não ser materialista e, mesmo assim, não acreditar na manifestação dos Espíritos.” – De acordo: então sois espiritualista e não espírita.
Se me equivoquei quanto à vossa maneira de ver, é porque tomei ao pé da letra a profissão de fé colocada no fim do vosso artigo.
Dizeis: “Creio em duas coisas: no amor dos homens por tudo quanto é maravilhoso, ainda que esse maravilhoso seja absurdo, e no editor que me vendeu o fragmento da sonata ditada pelo Espírito Mozart, ao preço de 2 francos.” Se toda vossa crença se resume nisso, tudo bem: a mim parece a prima irmã do cepticismo.
Mas aposto que credes em algo mais do que no Sr. Ledoyen, que vos vendeu por 2 francos um fragmento de sonata: acreditais no produto de vossos artigos, pois presumo que, salvo engano, não os ofereceis pelo amor de Deus, como o Sr. Ledoyen não oferece os seus livros. Cada um tem o seu ofício: o Sr. Ledoyen vende livros, o literato vende prosa e verso. Nosso pobre mundo não se encontra ainda bastante adiantado para que possamos morar, comer e vestir-nos de graça. Talvez um dia os proprietários, os alfaiates, os açougueiros e os padeiros estejam suficientemente esclarecidos para compreenderem que é ignóbil para eles pedir dinheiro; então os livreiros e os literatos serão arrastados pelo exemplo.
“Com tudo isto não me destes o conselho que me oferecem os Espíritos.” – Ei-lo: É prudente não nos pronunciarmos muito levianamente sobre aquilo que não conhecemos; imitemos a sábia reserva do sábio Arago, a propósito do magnetismo animal: “Eu não poderia aprovar o mistério com que se envolvem os cientistas sérios que hoje vão assistir às experiências de sonambulismo. A dúvida é uma prova de modéstia e raramente prejudica o progresso das ciências. Já não diríamos o mesmo da incredulidade. Aquele que, fora das matemáticas puras, pronuncia a palavra IMPOSSÍVEL, falta com a prudência. A reserva é um dever, sobretudo quando se trata da organização animal.”
(Notícia sobre Bailly).
Aceitai, etc.
Allan Kardec