“Entre nossos doentes, o que mais atrai minha atenção neste momento é um tal Bigot, operário em Saint-Caradec, acometido há dois anos e meio por um câncer do lábio inferior. O câncer chegou ao último grau; o lábio inferior está parcialmente destruído; as gengivas, as glândulas sublinguais e submaxilares estão canceromatosas; o próprio osso maxilar inferior está afetado pela moléstia. Quando se apresentou em minha casa seu estado era desesperador; suas dores eram atrozes; não dormia há seis meses; qualquer operação era impraticável, pois o mal estava muito avançado; a cura me parecia impossível e o declarei com toda franqueza à Srta. Godu, a fim de premuni-la contra uma derrota inevitável. Minha opinião não variou quanto ao prognóstico; não posso acreditar na cura de um câncer tão avançado. Entretanto, devo declarar que, desde o primeiro curativo, o doente experimenta alívio e, a partir de 25 de fevereiro, dorme bem e se alimenta; voltou-lhe a confiança; a ferida mudou de aspecto de modo visível e, se isso continuar, a despeito de minha opinião tão formal, serei obrigado a esperar uma cura. Se realizar-se será o maior fenômeno de cura que se possa constatar. É preciso esperar e ter paciência com o doente. A Srta. Godu tem com ele um cuidado todo especial; por vezes tem feito curativos de meia em meia hora. Esse indigente é o seu favorito.
“Quanto a outras coisas, nada tenho a dizer. Poderia edificar-vos sobre os boatos, mexericos e alusões à feitiçaria; mas como a tolice é inerente à Humanidade, não me dou ao trabalho de tentar erradicá-la.
“Aceitai, etc.
Morhéry” Observação – Como se pode ficar convencido pelas duas cartas acima, o Dr. Morhéry não se deixa fascinar pelo entusiasmo; observa as coisas friamente, como homem esclarecido que não se permite ilusões; demonstra inteira boa-fé e, pondo de lado o amor-próprio do médico, não teme confessar que a Natureza pode prescindir dele, inspirando a uma jovem sem instrução os meios de curar que ele não encontrou sequer em sua Faculdade, nem em seu próprio cérebro, não se julgando humilhado por isso. Seus conhecimentos de Espiritismo mostram-lhe que a coisa é possível, sem que, por isso, haja derrogação das leis da Natureza; ele a compreende, desde que essa notável faculdade é para ele um simples fenômeno, mais desenvolvido na Srta. Godu que em outros. Pode-se dizer que essa jovem representa, para a arte de curar, o que Joana d’Arc representava para a arte militar. O Dr. Morhéry, esclarecido sobre os dois pontos essenciais – o Espiritismo como fonte e a Medicina ordinária como controle – pondo de lado o amor-próprio e qualquer sentimento pessoal, encontra-se na melhor posição para julgar imparcialmente, e nós cumprimentamos a Srta. Godu pela resolução tomada, de colocar-se sob seu patrocínio. Sem dúvida os leitores nos serão gratos por mantê-los ao corrente das observações que serão feitas ulteriormente.
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