Capítulo 7
Após a oração silenciosa, Jerônimo fez Luciana compreender que atingíramos o momento de ação. A enfermeira clarividente, evidenciando carinho fraterno, aproximou-se do infeliz e, depois de fitar-lhe a fronte demoradamente, começou: — Padre Domênico, vossa mente revela o passado distante e esse pretérito fala muito alto diante de Deus e dos irmãos em humanidade! Duvidais da Providência Divina, alegais que o vosso ministério não foi devidamente remunerado com a salvação e imprecais contra o Pai de Misericórdia Infinita… Vossa dor permanece repleta de blasfêmia e desespero, proclamais que as Forças Celestes vos abandonaram ao tenebroso fundo do abismo!… — E, porventura, não é assim? — Gritou o desventurado, interrompendo-a, — compelido pelas circunstâncias da vida humana a servir numa igreja que me enganou, negam-me o direito de reclamar? O Evangelho não tem palavras de mel para o ato de Judas. Deverei, por minha vez, louvar os que me traíram? — Não, Domênico. Vossos amigos não cogitam de criticar instituições. Desejam tão somente amparar-vos. Não concordais no vosso desvio da conduta cristã? Teríeis, de fato, agido como sacerdote fiel aos sagrados princípios esposados? Esperaríeis um paraíso de vantagens imediatas, para cá dos túmulos, tão só pelas insígnias exteriores que vos diferençaram dos outros homens? não ponderastes a extensão das responsabilidades desassumidas? — Oh! Que perguntas! — Exclamou o interpelado, com indisfarçável azedume, — a organização religiosa a que servi prometeu-me honras definitivas. Não era eu diretor de grande coletividade social? não ministrava o Santíssimo Sacramento? não fui recomendado ao Céu?… Apesar de tais protestos, o padre Domênico já acusava sinais de transformação íntima. Fizera-se-lhe a voz mais triste, denunciando capitulação próxima. O fato de ele nos sentir de mais perto, através da audição, facilitava-nos a atuação magnética de auxílio. Ao término de suas interrogações reticenciosas, Luciana observou: — As igrejas, meu amigo, são sempre elevadas e belas. Consubstanciam, invariavelmente, o roteiro de nosso encontro divino com o Pai de Infinito Amor. Ensinam a bondade universal, o perdão das faltas, a solidariedade comum. Mas, e os nossos crimes, fraquezas e defecções? Em geral, todos nós, filiados a correntes várias do pensamento religioso na Terra, exigimos que se nos faça justiça, esquecidos, contudo, de que as noções de justiça envolvem a existência da Lei. E como ludibriar a Lei, soberana e inalterável, embora compassiva em suas manifestações? Não concordais que é absurdo reclamar determinado procedimento dos outros, esperando para o nosso “eu” tirânico e desequilibrado as compensações somente devidas aos observadores das regras de purificação, das quais não passamos de meros expositores no campo do ensinamento? — Oh! Oh! E a confissão? — Tornou Domênico, visivelmente impressionado com as palavras ouvidas, — Monsenhor Pardíni ouviu-me, antes da morte, e absolveu-me… — E confiastes em semelhante medida? Vosso colega de sacerdócio poderia induzir-vos ao bom ânimo e à coragem necessária ao serviço de reparação futura, mas não conseguiria subtrair-vos à consciência os negros resíduos mentais dos atos praticados. Vosso coração, padre, é um livro aberto aos nossos olhos. Envolvido nas trevas, injuriais o nome de Deus e sua justiça; no entanto, a viva descrição de vossas reminiscências são bastante expressivas… Porque, Domênico se calasse humilhado, sob a vigorosa influenciação magnética de Zenóbia, que o mantinha nos braços, a clarividente prosseguiu: — Vejo-vos a derradeira noite na existência carnal. Acompanho-vos em noite fria, sob fortes rajadas do vento de céu sem lua. Desviastes o passo de centro populoso e enveredais por estrada sombria de recanto suburbano. Não somente vos observo a forma física. Sinto-vos igualmente o estado emocional. Empolgado pela visão embriagante dos sentidos, penetrais um lar honesto, cego por sentimento menos respeitoso para com alguém que vos ouviu, inadvertidamente, as palavras finas de sedução e malícia. Alijastes a batina escura, como quem despe incômoda capa. Envergais agora, na intimidade de pequeno salão verde, perfumado costume de casimira cinza-claro. Absorvida por vossas referências gentis, que apenas traduzem propósitos de sensação, distantes de qualquer sentimento edificante, certa mulher cede às vossas promessas. Alguém, todavia, demora-se espreitando-vos. É um homem que se certifica da ocorrência e afasta-se, alucinado, sem que lhe identificásseis a presença. Trata-se do esposo ofendido, em dolorosa crise passional. Distancia-se, a caminho da pequena cidade próxima, tomado de dor selvagem. Penetra grande empório de bebidas e adquire um litro de vinho antigo, por alto preço. Afasta-se, angustiado, e, oculto à sombra de árvores acolhedoras, adiciona ao conteúdo do frasco pequena porção de substância venenosa, fulminante. Em seguida, espera-vos, de longe, acariciando a ideia do assassínio. Noite alta, regressais ao presbitério; e o adversário, como quem volta de ligeira viagem, saúda-vos, agradavelmente, com dissimuladas demonstrações de estima e confiança. Paira o convite ao vinho reconfortante na madrugada gélida e abris a porta da residência paroquial. Entrais calmo. Na tepidez do interior doméstico, à frente de vasta mesa bem servida, experimentais, honrado, o vinho velho misturado a veneno destruidor. Não tivestes tempo para explicações. Ante vossos gemidos furiosos e roucos, entre esgares de sofrimento, o assassino ri-se e pronuncia aos vossos ouvidos feias palavras de maldição. Quando a respiração se fez mais opressa, o homicida pediu socorro às dependências da casa, depois de inutilizar a prova do crime, ante vossos olhos assombrados. Precipitam-se, em vão, os servidores. Velho eclesiástico aproxima-se, no intuito de ouvir-vos. Deve ser o Monsenhor Pardíni, de vossas referências. Compreendendo-vos a dificuldade para manter qualquer conversação, interroga o criminoso, que se declara vosso amigo íntimo e esclarece, fingidamente, que regressava em vossa companhia do próprio lar, onde havíeis entretido confortadora e longa palestra, junto a ele e à esposa, demorando-se aí por insistência dos dois. O criminoso, revelando piedade irônica, assegura que vos acompanhara à casa paroquial, em vista da noite alta e que demandara o interior a vosso convite, para reconfortar-se e que, em plena palestra amistosa, caístes fulminado por síncope singular. Debalde, intentais esclarecimento. Vossa destra levanta-se e o indicador aponta o criminoso. Monsenhor Pardíni aproxima-se. O homicida toma-vos a mão quase inerte e exclama: — “É preciso salvar o padre Domênico! Minha esposa e eu não nos conformaríamos com semelhante perda!” O eclesiástico que vos assiste permanece sob forte emoção. Supõe ser o vingador o companheiro desvelado da vítima e inicia o serviço dos moribundos. Endereçais supremo olhar de impassível desespero ao adversário e compreendeis o próximo fim do corpo. Esfriam-se-vos os membros. Viscoso suor vos corre, abundante, do rosto, e, num esforço tremendo, pronunciais, de maneira quase ininteligível, uma frase: — “Eu, pecador, me… confesso…” O religioso que vos acompanha, porém, fecha-vos os lábios, no intuito de poupar-vos e assevera: — “Domênico, descansa em paz! Ao sacerdote reto, não se faz necessária a confissão, no alento derradeiro; ainda hoje, ministraste a sagrada partícula! Pede a Deus por nós, no Céu!” Em seguida, concede-vos plena absolvição de todos os pecados da existência humana, tratando-vos a personalidade espiritual cheio de santa confiança. A palavra do colega, porém, perturba-vos a consciência. No fundo, sabeis que a morte vos surpreende em doloroso abismo. Em vão, tentais receber a paz que Monsenhor Pardíni vos deseja; debalde procurais desviar o olhar do envenenador que vos segue, mordaz. Vossas mãos tombam inertes. O religioso amigo segura o crucifixo que não sentis. Vossos olhos param na contemplação da última cena. Abre-se a porta da alcova espaçosa e alguns servos ajoelham-se, em pranto. Não distante, um sino toca fúnebre aviso. Amanhece. Entretanto, semi-inconsciente, fustigado pela dor e pela desesperação, não vos vejo desfrutando as claridades do novo dia que surge. Cá fora, há círios acesos e atitudes respeitosas dos paroquianos que se multiplicam, visitando-vos os despojos, após o laudo médico de bondoso facultativo que, intimamente, vos crê suicida, fornecendo, porém, explicações da “causa mortis”, como sendo fulminante ataque de angina, a fim de evitar escândalos e perturbações no círculo sempre venerável da religião. Há pessoas que choram sinceramente e ouço comentários elogiosos ao vosso pastoreio sacerdotal. Dentro de vós, todavia, prevalece imensa noite. Gritais como o cego, ao abandono, no primeiro instante de cegueira inesperada. Porém, ninguém vos ouve. Relacionais o crime de que fostes vítima, rogais providências contra o matador, mas os ouvidos humanos, agora, permanecem noutras dimensões. Buscais o recurso de fugir, mas invencíveis grilhões vos ligam ao cadáver. Ao crepúsculo, processa-se o enterramento. Abre-se o templo suntuosamente ornamentado com flores roxas. Cânticos tristes evolam-se do coro e toda a nave cheira a incenso. Com grande pompa em todas as minudências das exéquias, vosso corpo desce ao último abrigo. Entretanto, permaneceis ligado às vísceras decompostas… A descrição da enfermeira impressionava-me, profundamente.
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