Os fatos que noticiamos em nosso último número, sobre os quais havíamos deixado pendente a nossa opinião, parecem incluir-se definitivamente na esfera dos fenômenos espíritas. Um exame atento das circunstâncias de detalhes não os permite confundir com atos de malevolência ou de esperteza.
Parece difícil que pessoas mal-intencionadas pudessem escapar à atividade da vigilância exercida pela autoridade e, sobretudo, que possam agir no momento mesmo em que são espreitadas, sob os olhos daqueles que as buscam, aos quais, certamente, não falta boa vontade para as descobrir.
Tinham feito exorcismos, mas depois de alguns dias de suspensão, os barulhos recomeçaram com outro caráter. Eis o que a propósito disse o Journal de la Vienne, em seus números de 17 e 18 de fevereiro: “Recordam-se que no mês de janeiro último, fazendo a sua solene aparição em Poitiers, os Espíritos batedores foram acampar na Rua Saint-Paul, na casa situada perto da antiga igreja do mesmo nome; mas sua estada entre nós tinha sido de curta duração e tinha-se o direito de pensar que tudo estava acabado, quando, anteontem, os ruídos que tão fortemente haviam agitado a população se reproduziram com nova intensidade.
“Os diabos negros, pois, voltaram à casa da Srta. de O...; apenas não são mais Espíritos batedores, mas atiradores, agindo por meio de detonações formidáveis. Celebraremos sua festa no dia de Santa Bárbara, padroeira dos artilheiros. Sempre há os que se satisfazem com isto, as procissões de curiosos recomeçam e a polícia interroga todos os ecos para se guiar através do nevoeiro do outro mundo.
“Contudo, espera-se que desta vez se descubram os autores dessas mistificações de mau gosto e que a justiça saiba bem provar aos exploradores da credulidade humana que os melhores Espíritos não são os que fazem mais barulho, mas os que sabem calar e só falam o que convém.”
A. Piogeard “Voltamos sempre à Rua Saint-Paul, sem poder penetrar o mistério infernal.
“Quando interrogamos uma pessoa que passeia com um ar preocupado diante da casa da Srta. de O..., invariavelmente ela responde: ‘De minha parte nada ouvi, mas alguém me disse que as detonações eram muito fortes.’ O que não deixa de ser muito embaraçoso para a solução do problema.
“Entretanto, é certo que os Espíritos possuem algumas peças de artilharia, inclusive de grosso calibre, porque o barulho resultante tem uma certa violência e dizem que se assemelha ao produzido por pequenas bombas.
“Mas, de onde vêm? Impossível até agora determinar a sua direção. Não provêm do subsolo, já que tiros de pistola dados no porão não se ouvem no primeiro andar.
“É, pois, nas regiões superiores que devem ser apanhados e, contudo, todos os processos indicados pela Ciência ou pela experiência para atingir esse resultado foram impotentes.
“Dever-se-ia, então, concluir que os Espíritos possam impunemente atirar sua pólvora nos pardais e perturbar o repouso dos cidadãos sem que seja possível alcançá-los? Esta solução seria muito rigorosa; com efeito, por certos processos, ou em virtude de alguns acidentes de terreno, podem produzir-se efeitos que, à primeira vista, surpreendem, mas dos quais se admiram, mais tarde, por não haverem compreendido o mecanismo elementar. São sempre as coisas mais simples que escapam à apreciação do homem.
“Somos fortemente levados a crer que, se os atiradores do outro mundo neste momento têm ao seu lado os que riem, estão longe de ser inatingíveis. Que se convençam os mistificadores: os mistificados terão sua vez.”
A. Piogeard O Sr. Piogeard parece se debater singularmente contra a evidência. Dir-se-ia que, sem o saber, uma dúvida se insinua em seu pensamento; que teme uma solução contrária às suas idéias; numa palavra, dá-nos a impressão dessas pessoas que, recebendo uma má notícia, exclamam: “Não, isto não; isto é impossível; não posso acreditar!” e que tapam os olhos para não ver, a fim de poderem afirmar que nada viram. Por um dos parágrafos acima, parece lançar dúvida sobre a própria realidade dos ruídos, porque, em sua opinião, todos aqueles a quem interroga dizem nada ter ouvido. Se ninguém ouviu, não compreendemos por que tanto rumor, pois não haveria mal-intencionados nem Espíritos.
Num terceiro artigo sem assinatura e que o jornal diz ser o último, ele dá, enfim, a solução desse problema. Se os interessados não a julgarem categórica, será sua falta e não dele.
“Desde algum tempo temos recebido cartas, em cada correio, quer de nossos assinantes, quer de pessoas estranhas ao Departamento, nas quais nos pedem informações mais circunstanciadas sobre as cenas cujo teatro é a casa de O... Dissemos tudo quanto sabíamos; repetimos em nosso jornal tudo quanto se diz em Poitiers a esse respeito. Já que nossas explicações não pareceram completas, eis, pela última vez, nossa resposta às perguntas que nos são dirigidas: “É perfeitamente certo que ruídos singulares são ouvidos todas as noites, de seis horas à meia-noite, na Rua Saint-Paul, na casa de O... Esses ruídos assemelham-se aos produzidos por descargas sucessivas de uma espingarda de dois canos; abalam as portas, as janelas e os tabiques. Não se percebe luz nem fumaça; não se sente nenhum odor. Os fatos foram constatados pelas pessoas mais dignas de fé de nossa cidade e por inquéritos da polícia, a pedido da família do Sr. conde de O...
“Existe em Poitiers uma associação de espiritistas; mas, a despeito da opinião do Sr. D..., que nos escreve de Marselha, não veio ao pensamento de nenhum dos nossos concidadãos, muito espirituosos para isto, que os espíritas tivessem algo a ver com a aparição dos fenômenos. O Sr. H..., de Orange, acredita em causas físicas, em gases que se desprendem de um antigo cemitério, sobre o qual teria sido construída a casa de O... Mas a casa é construída sobre a rocha e não existe nenhum subterrâneo que com ela se comunique.
“Por nossa conta, pensamos que fatos estranhos e ainda inexplicados, há mais de um mês perturbando o repouso de uma família honrada, não ficarão sempre no estado de mistério.
Cremos numa fraude muito habilidosa e esperamos ver em breve os fantasmas da Rua Saint-Paul entrando na polícia correcional.”