Livre-Pensamento e Livre-Consciência
Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.” Crer em Deus e na vida espiritual não é, pois, uma crença puramente gratuita, mas o resultado de observações, tão positivas quanto as que fizeram crer na força da gravitação. Depois, em falta de provas materiais, ou concorrentes a estas, não admite a filosofia as provas morais que, por vezes, têm tanto ou mais valor que as outras? Vós, que não tomais por verdade senão o que está provado materialmente, que diríeis se, sendo injustamente acusado de um crime, cujas aparências fossem todas contra vós, como se vê com freqüência na justiça, os juízes não levassem em nenhuma conta as provas morais que vos fossem favoráveis? Não seríeis os primeiros a invocá-las? a fazer valer sua preponderância sobre efeitos puramente materiais, que podem criar uma ilusão? a provar que os sentidos podem iludir o mais clarividente? Se, pois, admitis que as provas morais devem pesar na balança de um julgamento, não seríeis conseqüentes convosco mesmo negando seu valor quando se trata de formar uma opinião sobre as coisas que, por sua natureza, escapam à materialidade. Que de mais livre, de mais independente, de menos perceptível por sua própria essência, do que o pensamento? E, contudo, eis uma escola que pretende emancipá-lo, subjugando-o à matéria; que avança, em nome da razão, que o pensamento circunscrito sobre as coisas terrenas é mais livre que a que se atira no infinito e quer ver além do horizonte material! Tanto valeria dizer que o prisioneiro, que só pode dar alguns passos em sua cela, é mais livre que o que corre os campos. Se não sois livre para crer nas coisas do mundo espiritual, que é infinito, o sois cem vezes menos, vós que vos circunscreveis no estreito limite do tangível, que dizeis ao pensamento: Não sairás do círculo que te traçamos; e se dele saíres, declaramos que não és mais pensamento são, mas a loucura, a tolice, o contra-senso, porque só a nós cabe discernir o falso do verdadeiro. A isto responde o espiritualismo: Nós formamos a imensa maioria dos homens, dos quais sois apenas a milionésima parte. Com que direito vos atribuís o monopólio da razão? Dizeis que quereis emancipar nossas idéias impondo-nos as vossas? Mas não nos ensinais nada; sabemos o que sabeis; cremos sem restrição em tudo que credes: na matéria e no valor das provas tangíveis, e mais que vós: em algo fora da matéria; numa força inteligente, superior à Humanidade; em causas inapreciáveis pelos sentidos, mas perceptíveis pelo pensamento; na perpetuidade da vida espiritual, que limitais à duração da vida do corpo. Nossas idéias são, pois, infinitamente mais largas que as vossas; enquanto circunscreveis vosso ponto de vista, o nosso abarca horizontes sem limites. Como aquele que concentra o pensamento sobre uma determinada ordem de fatos, que põe um ponto de parada em seus movimentos intelectuais, em suas investigações, pode pretender emancipar aquele que se move sem entraves, e cujo pensamento sonda as profundezas do infinito? Restringir o campo de exploração do pensamento é restringir a liberdade, e é o que fazeis. Dizeis ainda que quereis arrancar o mundo ao jugo das crenças dogmáticas. Fazeis, ao menos, uma distinção entre suas crenças? Não, porque confundis na mesma reprovação tudo quanto não é do domínio exclusivo da Ciência, tudo quanto não se vê pelos olhos do corpo, numa palavra, tudo que é de essência espiritual, por conseguinte Deus, a alma e a vida futura. Mas se toda crença espiritual é um entrave à liberdade de pensar, dá-se o mesmo com toda crença material; aquele que crê que uma coisa é vermelha, porque a vê vermelha, não é livre de a julgar verde. Desde que o pensamento é detido por uma convicção qualquer, já não é livre. Para ser conseqüente com a vossa teoria, a liberdade absoluta consistiria em nada crer, nem mesmo em sua própria existência, porque isto seria ainda uma restrição. Mas, então, em que se tornaria o pensamento? Encarado deste ponto de vista, o livre-pensamento seria um contra-senso. Ele deve ser entendido num sentido mais largo e mais verdadeiro, isto é, do livre uso que se faz da faculdade de pensar, e não de sua aplicação a uma ordem qualquer de idéias. Consiste não em crer numa coisa, em vez de outra, nem em excluir tal ou qual crença, mas na liberdade absoluta da escolha das crenças. É, pois, abusivamente que alguns deles fazem aplicação exclusiva às idéias antiespiritualistas. Toda opinião racional, que não é imposta nem subjugada cegamente à de outrem, mas que é voluntariamente adotada em virtude do exercício do raciocínio pessoal, é um pensamento livre, quer seja religioso, político ou filosófico. Em sua acepção mais vasta, o livre-pensamento significa: livre-exame, liberdade de consciência, fé raciocinada; simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física; não quer mais escravos do pensamento, pois o que caracteriza o livre-pensador é que este pensa por si mesmo, e não pelos outros; em outros termos, sua opinião lhe é própria. Assim, pode haver livres-pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre-pensamento eleva a dignidade do homem, dele fazendo um ser ativo, inteligente, em vez de uma máquina de crer. No sentido exclusivo que alguns lhe dão, em vez de emancipar o espírito, restringe a sua atividade, fazendo-o escravo da matéria. Os fanáticos da incredulidade fazem num sentido o que os fanáticos da fé cega fazem em outro. Então estes dizem: Para ser segundo Deus é preciso crer em tudo o que cremos; fora de nossa fé não há salvação. Os outros dizem: Para ser segundo a razão, é preciso pensar como nós, não crer senão no que cremos; fora dos limites que traçamos à crença, não há liberdade, nem bom-senso, doutrina que se formula por este paradoxo: Vosso espírito só é livre com a condição de não crer no que quer, o que significa para o indivíduo: Tu és o mais livre de todos os homens, desde que não vás mais longe do que a ponta da corda à qual te amarramos. Certamente não contestamos aos incrédulos o direito de não crer em coisa alguma além da matéria; mas hão de convir que há singulares contradições na sua pretensão em se atribuir o monopólio da liberdade de pensar. Dissemos que pela qualidade do livre-pensador, certas pessoas procuram atenuar o que a incredulidade absoluta tem de repulsivo para a opinião das massas. Com efeito, suponhamos que um jornal se intitule abertamente: O Ateu, O Incrédulo, O Materialista; pode-se julgar da impressão que este título deixaria no público. Mas se abrigar as mesmas doutrinas sob a capa de Livre-pensador, dirão a esta insígnia: É a bandeira da emancipação moral; deve ser a da liberdade de consciência e, sobretudo, da tolerância. Vejamos. Vê-se que nem sempre é preciso reportar-se à etiqueta. Aliás, seria erro aterrorizar-se além da medida com as conseqüências de certas doutrinas; momentaneamente podem seduzir certos indivíduos, mas jamais seduzirão as massas, que a elas se opõem por instinto e por necessidade. É útil que todos os sistemas venham à luz, a fim de que cada um possa julgar o lado forte e o fraco e, em virtude do direito de livre-exame, possa adotá-los ou rejeitá-los com conhecimento de causa. Quando as utopias tiverem sido vistas em ação e quando tiverem provado a sua impotência, cairão para não mais se erguer. Por seu próprio exagero, agitam a sociedade e preparam a renovação. Ainda nisto está o sinal dos tempos. O Espiritismo é, como pensam alguns, uma nova fé cega, que substituiu outra fé cega? Em outras palavras, uma nova escravidão do pensamento sob nova forma? Para o crer, é preciso ignorar os seus primeiros elementos. Com efeito, o Espiritismo estabelece como princípio que antes de crer é preciso compreender. Ora, para compreender é necessário que se faça uso do raciocínio; eis por que ele procura dar-se conta de tudo antes de admitir alguma coisa, a saber, o porquê e o como de cada coisa. É por isso que os espíritas são mais cépticos do que muitos outros, em relação aos fenômenos que escapam do círculo das observações habituais. Não se baseia em nenhuma teoria preconcebida ou hipotética, mas na experiência e na observação dos fatos; em vez de dizer: “Crede primeiro, e depois compreendereis, se puderdes”, diz: “Compreendei primeiro, e depois acreditareis, se quiserdes.” Não se impõe a ninguém; diz a todos: “Vede, observai, comparai e vinde a nós livremente, se isto vos convém.” Falando assim, ele entra com grande chance no número dos concorrentes. Se muitos vão a ele, é porque satisfaz a muitos, mas ninguém o aceita de olhos fechados. Aos que não o aceitam, ele diz: “Sois livres e não vos quero; tudo o que vos peço é que me deixeis minha liberdade, como vos deixo a vossa. Se procurais me excluir, temendo que vos suplante, é que não estais muito seguros de vós.” Não procurando o Espiritismo afastar nenhum dos concorrentes na liça aberta às idéias que devem prevalecer no mundo regenerado, está nas condições do verdadeiro livre-pensamento; não admitindo nenhuma teoria que não seja fundada na observação, está, ao mesmo tempo, nas do mais rigoroso positivismo; enfim, tem sobre seus adversários das duas extremadas opiniões contrárias, a vantagem da tolerância.
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Mês Fevereiro
Ano 1867