Tendo pregado em Marmande durante o mês de maio último, o dominicano padre F..., em seu último sermão, resolveu atirar algumas pedras contra o Espiritismo. O Sr. Dombre desejaria uma discussão mais aprofundada sobre o assunto, e que o padre F..., em vez de limitar-se a ataques banais, abordasse resolutamente certas questões de detalhes; mas, temendo que seu nome não tivesse bastante mérito para o decidir, escreveu-lhe a carta a seguir, sob o pseudônimo de Um católico: “Sr. Pregador, “Acompanho com assiduidade vossas instruções dogmáticas de todas as noites. Por uma fatalidade deplorável, cheguei sexta-feira um pouco mais tarde que de costume e soube, ao sair da igreja, que havíeis iniciado, sob a forma de escaramuça, um ataque contra o Espiritismo. Alegro-me por isso, em nome dos católicos fervorosos.
“Se bem me informaram, eis as questões abordadas: 1o – O Espiritismo é uma religião nova, do século dezenove; 2o – Há, incontestavelmente, comunicação com os Espíritos; 3o – Nas comunicações com os Espíritos, bem constatadas, bem reconhecidas, vós vos encarregais de provar, depois de longos e sérios estudos que fizestes do Espiritismo, que os Espíritos que se comunicam não passam do demônio; 4o – Finalmente, seria perigoso, do ponto de vista da salvação da alma, cuidar do Espiritismo antes que a Igreja se tenha pronunciado a respeito.
Apreciei bastante este quarto artigo, mas, se se reconhece previamente que é o demônio, a Igreja nada mais tem a fazer42.
Eis quatro questões importantes que estou ansioso por ver resolvidas, a fim de confundir, num mesmo golpe, os espíritas e os católicos de nome, que nem crêem no demônio nem nas penas eternas, mas admitem um Deus e a imortalidade da alma, e os materialistas, que em nada acreditam.
À primeira questão – o Espiritismo é uma religião – respondem os espíritas: Não; o Espiritismo não é uma religião, nem pretende ser uma religião. O Espiritismo se baseia na existência de um mundo invisível, formado por seres incorpóreos que povoam o espaço e que são apenas as almas dos que viveram na Terra ou em outros globos. Esses seres, que nos rodeiam incessantemente, exercem sobre os homens, mau grado seu, uma grande influência; representam um papel muito ativo no mundo moral e, até certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo está na Natureza e pode dizer-se que, numa certa ordem de coisas, é uma força, como, sob outro ponto de vista, o é a eletricidade e a gravitação. O Espiritismo desvenda-nos o mundo invisível; não é novidade, já que é mencionado pela história de todos os povos. Repousa sobre princípios gerais, independentes de toda questão dogmática. Tem conseqüências morais, é verdade, no sentido do Cristianismo, embora não tenha culto, nem templos, nem ministros; cada um pode fazer de suas opiniões uma religião, mas daí para a constituição de uma nova Igreja a distância é grande. Portanto, o Espiritismo não é uma nova religião. Eis, senhor pregador, o que dizem os espíritas quanto à primeira questão.
“A esta mesma questão riem os falsos católicos e os materialistas. Os primeiros, os felizes deste mundo, riem contrafeitos, pois a doutrina que comporta a pluralidade das existências ou reencarnações lhes fere os prazeres e o orgulho.
Voltar numa condição talvez inferior – coisa horrível! – nem pensar. Os espíritas lhes dizem: ‘Eis a justiça, a verdadeira igualdade.’ Mas essa igualdade não lhes convém. Os materialistas, espíritos fortes e compostos de pretensos sábios, riem à vontade porque não acreditam no futuro: a sua sorte e a do cãozinho que os acompanha são absolutamente as mesmas, e eles preferem que seja assim.
“À segunda questão – há comunicação com os Espíritos – os espíritas e nós, católicos fervorosos, estamos de acordo; os falsos católicos e os materialistas estampam o riso da incredulidade.
“À terceira questão – só o demônio se comunica – os espíritas riem por sua vez; os materialistas também riem, zombando dos que acreditam nas comunicações e dos que, nelas crendo, as atribuem aos demônios. Os falsos católicos silenciam, como se dissessem: Isto é lá convosco.
“À quarta questão – é preciso esperar o pronunciamento da Igreja – dizem os espíritas: ‘Dia virá em que a crença no Espiritismo se tornará tão comum, tão espalhada que a Igreja, a menos que queira ficar só, será forçada a seguir a corrente. Então o Espiritismo se fundirá no catolicismo e o catolicismo no Espiritismo.’ A esta questão o materialista ri ainda e diz: ‘Que me importa!’, e o falso católico sente uma espécie de despeito. Como disse acima, não poderá acomodar-se a esta doutrina; seu egoísmo e seu orgulho ficam chocados; repele a eventualidade dessa fusão.
‘É impossível, diz ele, o Espiritismo não passa de uma utopia, que não dará quatro passos no mundo’43.
“Aceitai, etc.
Um católico fervoroso.”
Sobre o assunto, assim se expressa o Sr. Dombre, numa carta dirigida a Bordeaux: “O abade F... procurou saber quem era o espírita e não o católico fervoroso que lhe havia escrito aquela carta. Seus emissários vieram a mim e me disseram: O abade F... precisaria de sete ou oito sermões para lhe responder, mas não dispõe de tempo; mesmo assim queria saber o nome de quem se trata. Respondi: Garanto-lhes que o autor da carta dar-se-á a conhecer, caso o abade lhe responda do púlpito. Parece que aqui sabem, por experiência, que quanto mais se fala contra o Espiritismo, mais prosélitos se fazem; assim, acharam melhor guardar silêncio, pois o abade F...
partiu sem voltar ao assunto.
“Dir-me-eis que talvez haja um pouco de temeridade em querer entrar na liça; conheço as necessidades de nossa localidade; é preciso barulho. Os inimigos sistemáticos ou interesseiros do Espiritismo apenas querem o mutismo e eu os quero ensurdecer com discussões. Em torno dos incrédulos que discutem sempre há indiferentes ou predispostos a crer, que tiram proveito da luta, relativamente à instrução espírita. – Mas, pensareis e talvez digais, saireis honrosamente dessas polêmicas? – Ah! meu Deus! Quando se é assinante da Revista Espírita e se leu todos os livros da doutrina; quando se está mergulhado de corpo inteiro nos argumentos em que ela se apóia e nos que são dados pelos Espíritos que se comunicam, a gente sai como Minerva, armado dos pés à cabeça, sem nada temer.”
Observação – Dizem: “Credes na reencarnação, mas a pluralidade das existências é contrária aos dogmas, que admitem apenas uma. Por isto mesmo estais fora da Igreja.”
A isto repetiremos o que temos dito inúmeras vezes: “Outrora expulsastes da Igreja, anatematizastes, excomungastes e condenastes como heréticos os que acreditavam no movimento da Terra.” Respondereis: “Isto foi num tempo de ignorância.” – Seja. Mas se a Igreja é infalível, deveria sê-lo outrora como hoje, não podendo a sua infalibilidade ser submetida às flutuações da ciência mundana. Mas ultimamente, e apenas há um quarto de século, neste século de luz, não tem ela igualmente condenado as descobertas científicas que dizem respeito à formação do globo? O que aconteceu agora? E o que teria acontecido se ela persistisse em repelir de seu seio todos os que acreditam nessas coisas? Não mais haveria católicos, nem mesmo o papa. Por que, então, teve a Igreja de ceder? É porque o movimento dos astros e sua formação repousam nas leis da Natureza e porque, contra essas leis, não há opinião que possa prevalecer.
Quanto à reencarnação, de duas, uma: ou existe, ou não existe; não há meio-termo. Se existe, é porque está nas leis da Natureza. Se um dogma diz o contrário, trata-se de saber quem tem razão, se o dogma ou a Natureza, que é obra de Deus. A reencarnação não é, pois, uma opinião, um sistema, como uma opinião política ou social, que pode ser adotada ou recusada: é um fato ou não é.
Se é um fato, e por mais que não agrade a todo o mundo, nada do que disserem a impedirá de ser um fato.
Acreditamos firmemente – falamos por conta própria – que a reencarnação, longe de ser contrária aos dogmas, dá uma explicação lógica de vários deles, fazendo com que sejam aceitos pela maioria dos que os repeliam, porque não os compreendiam. A prova disto está no grande número de pessoas trazidas às crenças religiosas pelo Espiritismo.
Mas admitamos essa incompatibilidade, se quiserdes. Neste caso, apresentaremos a questão sem rodeios: “Quando a pluralidade das existências for reconhecida como uma lei natural – o que não tardará muito – e quando todos reconhecerem esta lei como a única compatível com a justiça de Deus, e como a única que pode explicar o que, sem ela, é inexplicável, que fareis?” – Fareis o que fizestes com o movimento da Terra e os seis dias da Criação; e não será difícil conciliar o dogma com esta lei.
A.K.