Capítulo 5
[A São Luís] – Podereis dar-nos a vossa apreciação pessoal sobre esse suicídio? – R. Esse Espírito sofre justamente, pois lhe faltou a confiança em Deus, falta que é sempre punível. A punição seria terrível e mais duradoura, se não tivesse a atenuá-la o motivo louvável de evitar que o filho se expusesse à morte na guerra. Deus, que é justo e vê o fundo dos corações, não o pune senão de acordo com suas obras. Observação – À primeira vista, como ato de abnegação, poder-se-ia considerar desculpável esse suicídio. Efetivamente assim é, mas não de modo absoluto. Como disse o Espírito São Luís, faltou a esse homem confiança em Deus. A sua ação talvez haja impedido a realização dos destinos do filho; além disso, o pai não tinha certeza de que o filho sucumbiria na guerra e a carreira militar talvez lhe fornecesse ocasião de adiantar-se. Sua intenção, sem dúvida, era boa, e por isso lhe será levada em conta; a intenção atenua o mal e merece indulgência, mas o mal é sempre o mal. Se assim não fora, poder-se-ia, com base no raciocínio, desculpar todos os crimes e até matar a pretexto de prestar serviços. A mãe que mata o filho, crente de o enviar ao céu, seria menos culpada por tê-lo feito com boa intenção? Com tal sistema, estariam justificados todos os crimes cometidos pelo fanatismo cego das guerras de religião. Em princípio, o homem não tem o direito de dispor da vida, porque ela vos foi dada visando a deveres a cumprir na Terra, razão por que não deve abreviá-la voluntariamente, sob pretexto algum. Como, porém, o homem dispõe do livre-arbítrio, ninguém pode impedi-lo de cometer o suicídio, embora, se o fizer, terá de arcar com todas as consequências. O suicídio mais severamente punido é o resultante do desespero, com vistas a livrar-se o homem das misérias da vida, misérias que são ao mesmo tempo provas e expiações. Fugir delas é recuar ante a tarefa aceita e, às vezes, ante a missão que se deveria cumprir. O suicídio não consiste apenas no ato voluntário que produz a morte instantânea, mas em tudo quanto se faça conscientemente para apressar a extinção das forças vitais. Não se pode tachar de suicida o devotamento daquele que se expõe a uma morte iminente para salvar o semelhante; primeiro porque no caso não há intenção premeditada de se tirar a vida, e, segundo, porque não há perigo do qual a Providência não nos possa livrar se a hora de partir não houver chegado. A morte em tais circunstâncias é sacrifício meritório, por constituir-se em ato de abnegação em proveito de outrem. (O evangelho segundo o espiritismo, capítulo V, itens 53, 65, 66 e 67.)
TAG Valor
Parte Segunda
Nome do Capítulo Suicidas
Tema O pai e o conscrito
Item 10