Dois Espíritos cegos (estudo moral)
se ainda há seres que me possam ouvir, que me possam escutar, vinde em meu auxílio, eu vo-lo suplico! “Onde estou?... Vou ao cemitério; encontro o corpo daquele que me chamou para a eternidade... Mas, nada de consolação... Volto à minha casa... ainda nada! E, contudo, falo, pelo que pude compreender, por uma voz desconhecida, que me é simpática... Mas, a quem falo? e por que exprimir minhas queixas e dar palavras a meus lamentos, desde que ninguém me ouve nem pode compreender-me? “Oh! meu Deus! como esta noite é horrível!... Quantos tormentos! é o inferno; oh! certamente é o inferno!... Acreditava que se queimava no inferno... Mas queimar não deve ser nada em comparação com o que sofro... Estou sentada num local isolado e obscuro... Sinto um frio glacial e daqui faço duas corridas: vou ao cemitério, e do cemitério à minha casa, e volto sempre esmagada de fadiga, a morte na alma!... Nada de sono para entorpecer minhas pálpebras! nada de trégua, nem de repouso... nada de calma para minha alma agitada! “O vazio me envolve!... Vou recomeçar minha corrida rude e penosa... Talvez o veja; mas, se não o vir, ao menos irei escutar os estalos de seu chicote e seus passos barulhentos!...” IV – Depois de uma pausa de alguns instantes, os traços do médium tomam uma expressão doce e calma; o Espírito Brunat retorna e, com voz simpática, dirige-se a esse pobre Espírito e lhe fala assim: “Escuta-me, pobre alma sofredora: Acreditas estar só e abandonada; escutas uma voz amiga, conquanto invisível para ti. Dizias há pouco que nem mesmo o eco respondia aos teus lamentos; mas, lembra-te de que destruíste tua vida, voluntariamente, violentamente, vida esta que não te pertencia, que devias dedicar aos teus irmãos infelizes. Sabias que agias mal! Deixa de procuras inúteis! Estais separados por um abismo de trevas. Ora; substitui teus vãos lamentos por um pesar ardente e sincero e por boas resoluções, únicos que podem levar-te um raio de luz. “Coragem!... Implora o Deus de bondade e de misericórdia, e ele te ajudará a sair um dia desta horrível situação. “Lembra-te bem, em tuas mais dolorosas crises, de que tens em mim um amigo e um irmão.” Brunat – Observação do presidente do grupo: “Nem o médium, nem nenhuma das pessoas presentes conheciam esses dois Espíritos sofredores.” “Tendo tido ocasião de falar do caso, foi-nos dito que, com efeito, o marido morreu em meio a um banquete há alguns meses, e que sua mulher enforcara-se poucos dias atrás. “A pessoa que deu estas informações acrescentou, a propósito da mulher, que o seu suicídio não surpreendeu a ninguém no quarteirão, e que a Sra. Mouraille, depois da morte do marido, muitas vezes dizia que o ouvia dar chicotadas no ar (ele era negociante de gado), andar na escada, e que desejava ardentemente morrer para ir ao encontro dele o mais depressa.” Bibliografia
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Mês Novembro
Ano 1869