De onde vem essa diferença na proporção entre os ricos e os que não o são? A razão é muito simples: os aflitos encontram no Espiritismo um imenso consolo, que os ajuda a suportar o fardo das misérias da vida; dá-lhes a razão dessas misérias e a certeza de uma compensação. Não é, pois, surpreendente que, gozando mais benefício, o apreciem mais e o tomem mais a peito que os felizes do mundo.
Admiram-se de que, quando semelhantes projetos vieram à tona, não nos tivéssemos apressado em os apoiar e patrocinar. É que, antes de tudo, nos apegamos a idéias positivas e práticas; para nós o Espiritismo é uma coisa muito séria, para o comprometer prematuramente em caminhos onde pudesse encontrar decepções. De nossa parte, não há nisso nem indiferença, nem pusilanimidade, mas prudência, e sempre que estiver maduro para ir à frente, não ficaremos na retaguarda. Não que nos atribuamos mais perspicácia do que aos outros; mas como a nossa posição nos permite a visão de conjunto, podemos julgar o forte e o fraco talvez melhor do que os que se acham num círculo restrito.
Aliás, damos a nossa opinião e não pretendemos impô-la a ninguém.
O que acaba de ser dito a respeito da criação de uma caixa geral e central de socorro, aplica-se naturalmente aos projetos de fundação de estabelecimentos hospitalares e outros. Ora, aqui a utopia é ainda mais evidente. Se é fácil lançar um projeto sobre o papel, o mesmo não se dá quando se chega às vias e meios de execução. Construir um edifício ad hoc já é muito; e quando estivesse pronto, seria preciso provê-lo de pessoal suficiente e capaz, e depois assegurar a sua manutenção, porque tais estabelecimentos custam muito e nada rendem. Não são apenas grandes capitais que se exigem, mas grandes rendimentos. Admitindo-se, contudo, que à força de perseverança e de sacrifícios se chegasse a criar um pequeno modelo, quão mínimas não seriam as necessidades a que poderia satisfazer, em relação à massa e à disseminação dos necessitados em um vasto território! Seria uma gota d’água no oceano; e, se há tantas dificuldades para um só, mesmo em pequena escala, seria muito pior se se tratasse de os multiplicar. Na realidade, o dinheiro assim empregado não adiantaria, pois, senão a alguns indivíduos, ao passo que, judiciosamente repartido, ajudaria a viver um grande número de infelizes.
Seria um modelo, um exemplo; seja. Mas, por que se esforçar por criar quimeras, quando as coisas existem prontas, montadas, organizadas, com meios mais poderosos do que jamais disporão os particulares? Esses estabelecimentos deixam a desejar; há abusos, não correspondem a todas as necessidades, isto é evidente e, contudo, se os comparamos ao que eram há menos de um século, constatamos uma imensa diferença e um progresso constante; cada dia vemos a introdução de um melhoramento. Não se poderia, pois, duvidar que com o tempo novos progressos fossem realizados pela força das coisas. As idéias espíritas devem, infalivelmente, apressar a reforma de todos os abusos, porque, melhor que outras, penetram os homens com o sentimento de seus deveres. Por toda parte onde se introduzem, os abusos caem e o progresso se realiza. Devemos, pois, nos empenhar em as espalhar: aí está a coisa possível e prática, a verdadeira alavanca, alavanca irresistível, quando tiver adquirido a força suficiente pelo desenvolvimento completo dos princípios e pelo número dos aderentes sérios.
A julgar do futuro pelo presente, pode-se afirmar que o Espiritismo terá levado à reforma de muitas coisas muito antes que os espíritas tenham podido acabar o primeiro estabelecimento do gênero desse de que falamos, se algum dia o empreendessem, mesmo que tivessem de dar um centavo por semana. Por que, então, consumir energias em esforços supérfluos, em vez de concentrá-las num ponto acessível e que seguramente deve conduzir ao objetivo? Mil adeptos ganhos à causa e espalhados em mil locais diferentes apressarão mais a marcha do progresso do que um edifício.
O Espiritismo, diz o Espírito que ditou a comunicação acima, deve firmar-se e mostrar o que é por um monumento durável, erguido à caridade. Mas de que serviria um monumento à caridade, se a caridade não estiver no coração? Ele ergue um mais durável que um monumento de pedra: é a doutrina e suas conseqüências para o bem da Humanidade. É nisto que cada um deve trabalhar com todas as suas forças, porque durará mais que as pirâmides do Egito.
Pelo fato de esse Espírito se enganar, segundo nós, sobre tal ponto, isto nada lhe retira de suas qualidades; incontestavelmente está animado de excelentes sentimentos. Mas um Espírito pode ser muito bom, sem ser um apreciador infalível de todas as coisas. Nem todo bom soldado é, necessariamente, um bom general.
Um projeto de realização menos quimérica é o da formação de sociedades de socorros mútuos entre os espíritas de uma mesma localidade. Mas, ainda aqui, não se pode escapar a algumas das dificuldades que assinalamos: a falta de aglomeração e a cifra ainda restrita daqueles com os quais se pode contar para um concurso efetivo. Outra dificuldade vem da falsa assimilação que fazem dos espíritas e de certas classes de indivíduos. Cada profissão apresenta uma delimitação claramente marcada. Pode-se facilmente estabelecer uma sociedade de socorros mútuos entre gente de uma mesma profissão, entre os de um mesmo culto, porque se distinguem por algo de característico, e por uma posição de certo modo oficial e reconhecida. Assim não se dá com os espíritas que, como tais, não são registrados em parte alguma e cuja crença não é constatada por nenhum diploma. Há-os em todas as classes da sociedade, em todas as profissões, em todos os cultos, e em parte alguma constituem uma classe distinta. Sendo o Espiritismo uma crença fundada numa convicção íntima, da qual não se devem contas a ninguém, quase que só se conhecem os que se põem em evidência ou freqüentam os grupos, e não o número muito mais considerável dos que, sem se ocultar, não participam de nenhuma reunião regular. Eis, por que, apesar da certeza de que os adeptos são numerosos, muitas vezes é difícil chegar a uma cifra bastante, quando se trata de uma operação coletiva.
Com respeito às sociedades de socorros mútuos, apresenta-se uma outra consideração. O Espiritismo não forma, nem deve formar classe distinta, já que se dirige a todos; por seu princípio mesmo deve estender sua caridade indistintamente, sem inquirir da crença, porque todos os homens são irmãos; se fundar instituições de caridade exclusivas para os seus adeptos, será forçado a perguntar a quem reclama assistência: “Sois dos nossos?
Que provas nos dais? Se não, nada podemos fazer por vós.” Assim, mereceria a censura de intolerância, que dirige aos outros. Não; para fazer o bem, o espírita não deve sondar a consciência e a opinião e, ainda que tivesse à sua frente um inimigo de sua fé, mas infeliz, deve vir em seu auxílio nos limites de suas faculdades. É agindo assim que o Espiritismo mostrará o que é e provará que vale mais do que o que lhe opõem.
As sociedades de socorros mútuos multiplicam-se por todos os lados e em todas as classes de trabalhadores. É uma excelente instituição, prelúdio do reino da fraternidade e da solidariedade, de que se sente necessidade; aproveitam aos espíritas que delas fazem parte, como a todo o mundo. Por que, então, fundá-las só para eles e excluir os outros? Que ajudem a propagá-las, porque são úteis; que, para as tornar melhores, nelas façam penetrar o elemento espírita, nelas penetrando eles próprios, pois isso seria mais proveitoso para eles e para a doutrina. Em nome da caridade evangélica, inscrita em sua bandeira, em nome dos interesses do Espiritismo, nós os intimamos a evitar tudo quanto pudesse estabelecer uma barreira entre eles e a sociedade.
Enquanto o progresso moral tende a diminuir as que dividem os povos, o Espiritismo não as deve erguer; é de sua essência penetrar em toda parte; sua missão, melhorar tudo o que existe. O Espiritismo falharia se se isolasse.
Deve a beneficência ficar individual e, neste caso, sua ação não será mais limitada do que se for coletiva? A beneficência coletiva tem vantagens incontestáveis e, bem longe de desestimulá-la, nós a encorajamos. Nada mais fácil do que praticá-la em grupos, recolhendo por meio de cotizações regulares ou de donativos facultativos os elementos de um fundo de socorro. Mas, então, agindo num círculo restrito, o controle das verdadeiras necessidades é fácil; o conhecimento que delas se pode ter permite uma distribuição mais justa e mais proveitosa; com uma soma módica, bem distribuída e dada de propósito, pode-se prestar mais serviços reais que com uma grande soma dada sem conhecimento de causa e, a bem dizer, ao acaso. É, pois, necessário dar-se conta de certos detalhes se não se quiser gastar inutilmente seus recursos.
Ora, compreende-se que tais cuidados seriam impossíveis se se operasse em vasta escala. Aqui, nada de complicação administrativa, nada de pessoal burocrático; algumas pessoas de boa vontade, e eis tudo.
Por conseguinte, não podemos senão encorajar com todas as nossas forças a beneficência coletiva nos grupos espíritas.