Conversas Familiares de Além-Túmulo – Pierre Legay
“Meus amigos, sou eu que venho responder, pois o anjo-da-guarda deste pobre Espírito não está com ele; só virá quando ele próprio o chamar e rogar ao Senhor que lhe conceda a luz. Posto ainda estivesse sob o império da matéria e não quisesse escutar a voz de seu anjo-da-guarda, este se afastou dele, já que teimava em ficar estacionário. Com efeito, não era ele que te fazia escrever; falava como de hábito, persuadido de que o escutáveis; mas era seu Espírito familiar que te conduzia a mão. Para ele, conversava com teu marido; tu escrevias e tudo isto lhe parecia muito natural. Mas as vossas últimas perguntas e vossos pensamentos o levaram a Tréveray; está perturbado; orai por ele e mais tarde o chamareis; ele voltará depressa. Orai por ele; nós oraremos convosco.” Já vimos alguns exemplos de Espíritos que se julgavam ainda vivos. Pierre Legay nos mostra essa fase da vida dos Espíritos da mais característica maneira. Os que se acham neste caso parecem ser mais numerosos do que se pensa; em vez de constituírem exceção, de oferecerem uma variedade no castigo, seria quase uma regra, um estado normal para os Espíritos de certa categoria. Assim, teríamos à nossa volta não só os Espíritos que têm consciência da vida espiritual, mas uma multidão de outros que, a bem dizer, vivem uma vida semimaterial, se julgam ainda neste mundo, continuam a vagar ou pensam consagrar-se às suas ocupações terrenas. Entretanto, seria um equívoco assimilá-los em tudo aos encarnados, porque se nota em suas atitudes e em suas idéias algo de vago e de incerto, que não é peculiar à vida corporal; é um estado intermediário, que nos dá a explicação de certos efeitos nas manifestações espontâneas e de certas crenças antigas e modernas. Um fenômeno que pode parecer mais bizarro e não deixa de fazer sorrir os incrédulos é o dos objetos materiais que o Espírito julga possuir. Compreende-se que Pierre Legay se imagine subindo no trem, porque a estrada de ferro é uma coisa real, existe; mas compreende-se menos que ele creia ter dinheiro e pago a sua passagem. Esse fenômeno encontra sua solução nas propriedades do fluido perispiritual e na teoria das criações fluídicas, princípio importante que dá a chave de muitos mistérios do mundo invisível. Seja pela vontade, seja pelo pensamento, o Espírito opera no fluido perispiritual, que não passa de uma concentração do fluido cósmico ou elemento universal, uma transformação parcial que produz o objeto que deseja. Tal objeto é para nós uma aparência, mas para o Espírito é uma realidade. É assim que um Espírito, desencarnado recentemente, um dia apresentou-se numa reunião espírita a um médium vidente, com um cachimbo na boca, fumando. À observação que lhe fizeram, de que aquilo não era conveniente, respondeu: “Que quereis! tenho de tal modo o hábito de fumar que não posso dispensar meu cachimbo.” O que era mais singular é que o cachimbo soltava fumaça; não, naturalmente, para os assistentes, mas para o vidente. Tudo deve estar em harmonia no mundo espiritual, como no mundo material; aos homens corporais, são precisos objetos materiais; aos Espíritos, cujo corpo é fluídico, são necessários objetos fluídicos; os objetos materiais não lhes serviriam, assim como os objetos fluídicos não serviriam aos homens corporais. Querendo fumar, o Espírito fumador criaria um cachimbo que, para ele, tinha a realidade de um cachimbo de barro. Legay queria dinheiro para pagar a passagem: seu pensamento criou a soma necessária. Para ele há realmente dinheiro, mas os homens não poderiam contentar-se com a moeda dos Espíritos. Assim se explicam as vestimentas com que se cobrem à vontade, as insígnias que usam, as diferentes aparências que podem assumir, etc. As propriedades curativas dadas ao fluído pela vontade também se explicam por esta transformação. O fluido modificado age sobre o perispírito que lhe é similar e esse perispírito, intermediário entre o princípio material e o princípio espiritual, reage sobre a economia, na qual representa importante papel, embora ainda desconhecido pela Ciência. Há, pois, o mundo corporal visível com os objetos materiais, e o mundo fluídico, invisível para nós, com os objetos fluídicos. É de notar que os Espíritos de ordem inferior e pouco esclarecidos operam essas criações sem se darem conta da maneira por que neles se produz tais efeitos; eles não o podem explicar, como um ignorante da Terra é incapaz de explicar o mecanismo da visão, nem um camponês dizer como cresce o trigo. As formações fluídicas ligam-se a um princípio geral, que será ulteriormente objeto de um desenvolvimento completo, quando tiver sido suficientemente elaborado. O estado dos Espíritos na situação de Pierre Legay levanta várias questões. A que categoria pertencem precisamente os Espíritos que ainda se julgam vivos? A que se deve esta particularidade? A uma falta de desenvolvimento intelectual e moral? Muitos que são inferiores dão-se conta perfeitamente de seu estado e a maior parte dos que temos visto nesta situação não é dos mais atrasados. É uma punição? Talvez o seja para alguns, como para Simon Louvet, do Havre, o suicida da torre de Francisco I que, durante cinco anos, estava na apreensão da queda (Revista Espírita do mês de março de 1863); mas muitos outros não são infelizes e não sofrem, como testemunha Pierre Legay. (Vide como resposta a dissertação que se segue).
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Mês Novembro
Ano 1864