O Espiritismo Diante da História e da Igreja
Esta obra é uma refutação do Espiritismo do ponto de vista religioso. É, sem contradita, uma das mais completas e mais bem-feitas que conhecemos. É escrita com moderação e conveniência, e não se denigre pelos epítetos a que nos habituaram a maior parte das controvérsias do mesmo partido. Aí, nada de declarações furibundas, nada de personalismos ultrajantes; é o princípio mesmo que é discutido. Pode-se não estar de acordo com o autor, achar que as conclusões que ele tira de suas premissas são de uma lógica contestável; dizer que depois de haver demonstrado, por exemplo, com as peças na mão, que o Sol brilha ao meio-dia, erra ao concluir que deve ser noite, mas não se lhe reprochará a falta de urbanidade na forma. A primeira parte da obra é consagrada à história do Espiritismo na antiguidade e na Idade Média. Esta parte é rica em documentos tirados dos autores sacros e profanos, que atestam laboriosas pesquisas e um estudo sério. É um trabalho que nos proporíamos fazer um dia, e felizes estamos por nos ter o Sr. abade Poussin poupado desse trabalho. Na segunda parte, intitulada Parte doutrinária, o autor, discutindo os fatos que acaba de citar, inclusive os fatos atuais, conclui, segundo a infalibilidade da Igreja e seus próprios argumentos, que todos os fenômenos magnéticos e espíritas são obra do demônio. É uma opinião como outra qualquer, e respeitável quando sincera. Ora, nós cremos na sinceridade das convicções do Sr. Poussin, embora não tenhamos a honra de o conhecer. O que se lhe pode censurar é não invocar em favor de sua tese senão a opinião dos adversários conhecidos do Espiritismo, assim como as doutrinas e alegações que desaprova. Em vão se buscaria nesse livro a menção das obras fundamentais, assim como nenhuma refutação direta das respostas que foram dadas às alegações contraditórias. Numa palavra, ele não discute a doutrina propriamente dita; não toma os seus argumentos corpo-a-corpo, para os esmagar sob o peso de uma lógica mais rigorosa. Além disso, pode achar-se estranho que o Sr. abade Poussin se apóie, para combater o Espiritismo, na opinião de homens conhecidos por suas idéias materialistas, tais como os Srs. Littré e Figuier; sobretudo deste último, que mais brilhou por suas contradições do que por sua lógica, ele toma várias expressões. Esses senhores, combatendo o princípio do Espiritismo, denegando a causa dos fenômenos psíquicos, por isto mesmo negam o princípio da espiritualidade; assim, minam a base da religião, pela qual não professam, como se sabe, grande simpatia. Invocando sua opinião, a escolha não é feliz; poder-se-ia mesmo dizer que é desastrada, pois é excitar os fiéis a ler escritos que não são nada ortodoxos. Vendo-o beber em tais fontes, poder-se-ia crer que não julgou as outras bastante preponderantes. O abade Poussin não contesta nenhum dos fenômenos espíritas; virtualmente prova a sua existência pelos fatos autênticos que cita, e que colhe indiferentemente na história sagrada e na história pagã. Aproximando uns dos outros, não pode deixar de reconhecer a sua analogia. Ora, em boa lógica, da similitude dos efeitos deve-se concluir a similitude das causas. Entretanto, o Sr. Poussin conclui que os mesmos fatos são miraculosos, de fonte divina em certos casos, e diabólica, em outros. Os homens que professam as mesmas crenças que o Sr. Figuier também têm sobre esses mesmos fatos duas opiniões: negam-nos simplesmente e os atribuem à trapaça; quanto aos que são comprovados, esforçam-se por os ligar apenas às leis da matéria. Perguntai-lhes o que pensam dos milagres do Cristo: eles vos dirão que são fatos lendários, contos inventados para as necessidades da causa, ou produtos de imaginações superexcitadas e em delírio. É verdade que o Espiritismo não reconhece nos fenômenos psíquicos um caráter sobrenatural; ele os explica pelas faculdades e pelos atributos da alma; e como a alma está na Natureza, os considera como efeitos naturais, que se produzem em virtude de leis especiais, até então desconhecidas, e que o Espiritismo dá a conhecer. Realizando-se esses fenômenos aos nossos olhos, em condições idênticas, acompanhados das mesmas circunstâncias e por intermédio de indivíduos que nada têm de excepcional, daí conclui pela possibilidade dos que se passaram em tempos mais recuados, e isto pela mesma causa natural. O Espiritismo não se dirige às pessoas convictas da existência desses fenômenos, e que são perfeitamente livres para neles ver milagres, se tal é sua opinião, mas aos que os negam precisamente por causa do caráter miraculoso que lhes querem dar. Provando que esses fatos não têm de sobrenatural senão a aparência, ele os faz aceitar pelos mesmos que os repeliam. Os espíritas foram recrutados, em imensa maioria, entre os incrédulos e, contudo, hoje não há um só que negue os fatos realizados pelo Cristo. Ora, o que vale mais: crer na existência desses fatos, sem o sobrenatural, ou neles não crer absolutamente? Os que os admitem a um título qualquer não estão mais perto de vós do que os que os rejeitam completamente? Desde que o fato seja admitido, não resta senão provar a sua fonte miraculosa, o que deve ser mais fácil, se a fonte for real, do que quando o próprio fato é contestado. Para combater o Espiritismo, apoiando-se o Sr. Poussin na autoridade dos que repelem até o princípio espiritual, não seria ele um dos que pretendem que a incredulidade absoluta é preferível à fé adquirida pelo Espiritismo? Citamos integralmente o prefácio do livro do Sr. Poussin, que faremos seguir de algumas reflexões: “O Espiritismo, é preciso bem reconhecê-lo, envolve como numa imensa rede a sociedade inteira, e por seus profetas, por seus oráculos, por seus livros e por seu jornalismo, esforça-se por minar secretamente a Igreja católica. Se nos prestou o serviço de derrubar as teorias materialistas do século dezoito, dá-nos em troca uma revelação nova, que solapa pela base todo o edifício da revelação cristã. E, contudo, por um fenômeno singular, ou melhor, por força da ignorância e da fascinação que excita a curiosidade, quantos católicos brincam diariamente com o Espiritismo, sem se preocuparem absolutamente com os seus perigos! É bem verdade que os espíritas ainda estão divididos quanto à essência e mesmo quanto à realidade do Espiritismo, e é provavelmente devido a essas incertezas que o maior número julga poder se formar a consciência e usar o Espiritismo como um curioso divertimento. Todavia, no fundo dessas almas timoratas e delicadas se manifesta uma grande ansiedade. Quantas vezes não temos ouvido estas questões incessantes: ‘Dizei-nos bem a verdade. O que é o Espiritismo? Qual a sua origem? Credes nessa genealogia que queria ligar os fenômenos do Espiritismo à magia antiga? Admitis os fatos estranhos do magnetismo e das mesas girantes? Acreditais na intervenção dos Espíritos e na evocação das almas? no papel dos anjos e dos demônios? É permitido interrogar as mesas girantes e consultar os espiritistas? Que pensam sobre todas essas questões os teólogos, os bispos?... A Igreja romana deu algumas decisões? etc., etc.’
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Mês Janeiro
Ano 1868