Da Perfeição dos Seres Criados
Assim, quantas vimos, desde a origem do Espiritismo que, entregues prematuramente à publicidade, só tiveram uma existência efêmera! Assim será com todas as que apenas tiverem caráter individual e não houverem passado pelo controle da concordância. Em nossa posição, recebendo comunicações de perto de mil centros espíritas sérios, disseminados em diversos pontos do globo, estamos em condições de ver os princípios sobre os quais houve concordância. Foi esta observação que nos guiou até hoje e nos guiará igualmente nos novos campos que o Espiritismo é chamado a explorar. É assim que, desde algum tempo, notamos nas comunicações, vindas de vários lados, tanto da França quanto do estrangeiro, uma tendência para entrarem numa via nova, por meio de revelações de uma natureza toda especial. Essas revelações, dadas muitas vezes em palavras veladas, passaram despercebidas por muitos dos que as obtiveram; muitos outros se acreditaram os únicos a recebê-las; tomadas isoladamente, para nós não teriam valor, mas a sua coincidência lhes dá alto prestígio, devendo ser julgadas mais tarde, quando chegar o momento de serem entregues à luz da publicidade. Sem essa concordância, quem poderia estar seguro de ter a verdade? A razão, a lógica, o raciocínio, sem dúvida são os primeiros meios de controle que devem ser usados; em muitos casos isto basta. Mas quando se trata de um princípio importante, da emissão de uma idéia nova, haveria presunção em crer-se infalível na apreciação das coisas. É, aliás, um dos caracteres distintivos da revelação nova o ser feita em toda parte e ao mesmo tempo; assim ocorreu com as diversas partes da doutrina. Aí está a experiência para provar que todas as teorias audaciosas, dadas por Espíritos sistemáticos e pseudo-sábios, sempre foram isoladas e localizadas; nenhuma se tornou geral nem pôde suportar o controle da concordância; várias, até, caíram no ridículo, prova evidente de que não estavam com a verdade. O controle universal é uma garantia para a futura unidade da doutrina. Esta digressão afastou-nos um pouco do assunto, mas era útil para dar a conhecer de que maneira procedemos, no que respeita a teorias novas concernentes ao Espiritismo, que está longe de haver dado a última palavra sobre todas as coisas. Não as emitimos senão depois de terem recebido a sanção de que acabamos de falar, razão por que algumas pessoas, um tanto impacientes, surpreendem-se com o nosso silêncio em certos casos. Como sabemos que cada coisa virá a seu tempo, não cedemos a nenhuma pressão, venha de onde vier, pois conhecemos a sorte dos que querem ir muito depressa e têm em si mesmos e em suas próprias luzes uma excessiva confiança; não queremos colher um fruto antes que amadureça, mas – tenham certeza – quando estiver maduro, não o deixaremos cair. Estabelecido este ponto, pouco nos resta dizer sobre a questão proposta, pois o ponto capital ainda não pôde ser resolvido. Está provado que os animais sofrem. Mas é racional imputar esses sofrimentos à imprevidência do Criador ou a uma falta de bondade de sua parte porque a causa escapa à nossa inteligência, como a utilidade dos deveres e da disciplina escapa ao escolar? Ao lado desse mal aparente não se vê brilhar a sua solicitude pelas mais ínfimas criaturas? Não são os animais providos de meios de conservação apropriados ao ambiente em que devem viver? Não se vê sua pelagem desenvolver-se mais ou menos, conforme o clima? Seus órgãos de nutrição, suas armas ofensivas e defensivas proporcionadas aos obstáculos a vencer e aos inimigos a combater? Em presença de fatos tão multiplicados, cujas conseqüências só escapam ao olho do materialista, há fundamento em dizer que não existe Providência para eles? Não, certamente, embora nossa visão seja muito limitada para julgar a lei do conjunto. Nosso ponto de vista, restrito ao pequeno círculo que nos rodeia, só nos deixa ver irregularidades aparentes; mas, quando nos elevarmos, pelo pensamento, acima do horizonte terreno, tais irregularidades se apagarão diante da harmonia geral. O que mais choca nesta observação localizada é a destruição de uns seres pelos outros. Já que Deus prova a sua sabedoria e a sua bondade em tudo o que podemos compreender, forçoso é admitir que a mesma sabedoria presida ao que não compreendemos. Aliás, só exageramos a importância dessa destruição porque sempre a ligamos à matéria, conseqüência do estreito ponto de vista em que se coloca o homem. Em definitivo, só se destrói o envoltório; o princípio inteligente não é aniquilado; e o Espírito é tão indiferente à perda de seu corpo, quanto o homem à de sua roupa. Esta destruição dos invólucros temporários é necessária à formação e manutenção de novos envoltórios, que se constituem com os mesmos elementos, sem que o princípio inteligente seja atingido, quer nos animais, quer no homem. Resta o sofrimento, que por vezes leva à destruição desse envoltório. O Espiritismo nos ensina e prova que o sofrimento no homem é útil ao seu avanço moral. Quem nos diz que o dos animais também não tenha utilidade? que não seja, na sua esfera e conforme certa ordem de coisas, uma causa de progresso? É verdade que isto não passa de hipótese, mas ao menos se apóia nos atributos de Deus: a justiça e a bondade, enquanto as outras são a sua negação. Tendo a questão da criação dos seres perfeitos sido debatida em sessão da Sociedade Espírita de Paris, o Espírito Erasto ditou, a respeito, a seguinte comunicação: SOBRE A NÃO-PERFEIÇÃO DOS SERES CRIADOS (Sociedade Espírita de Paris, 5 de fevereiro de 1864 – Médium: Sr. d’Ambel) Por que Deus não criou perfeitos todos os seres? Em virtude mesmo da lei do progresso. É fácil compreender a economia desta lei. Aquele que marcha está no movimento, isto é, na lei da atividade humana; aquele que não progride, que por essência se acha estacionário, incontestavelmente não pertence à gradação ou à hierarquia humanitária. Explico-me, e me compreendereis facilmente. O homem que nasce numa posição mais ou menos elevada, acha em sua situação nativa um dado estado de ser. Pois bem! ele está certo de que se sua vida inteira se passasse nessa condição de ser, sem que lhe tivesse trazido modificações por sua ação ou pela de outrem, declararia que sua existência é monótona, enfadonha, fatigante, numa palavra, insuportável. Acrescento que ele teria perfeita razão, considerando-se que o bem só é bem relativamente ao que lhe é inferior. Isto é tão certo que se puserdes o homem num paraíso terrestre, num paraíso onde não se progrida mais, em dado tempo ele achará sua existência insustentável e aquela morada um impiedoso inferno. Daí resulta, de maneira absoluta, que a lei imutável dos mundos é o progresso ou o movimento para frente, isto é, todo Espírito que é criado está inevitavelmente submetido a essa grande e sublime lei da vida; conseqüentemente, tal é a própria lei humana. Só existe um ser perfeito e não pode existir senão um: Deus! Ora, pedir ao Ser Supremo a criação de Espíritos perfeitos, seria pedir-lhe que criasse algo semelhante e igual a Ele. Formular semelhante proposição não será condená-la previamente? Ó homens! por que perguntar sempre a razão de ser de certas questões insolúveis ou acima do entendimento humano? Lembrai-vos sempre de que só Deus pode ficar e viver na sua imobilidade gigantesca. Ele é o supra-sumo de todas as coisas, o alfa e o ômega de toda a vida. Ah! crede, meus filhos, jamais busqueis erguer o véu que cobre esse grandioso mistério, que os maiores Espíritos da Criação não abordam sem estremecer. Quanto a mim, humilde pioneiro da iniciação, tudo quanto vos posso afirmar é que a imobilidade é um dos atributos de Deus, ou do Criador, e que o homem e tudo que é criado têm, como atributo, a mobilidade. Compreendei, se puderdes compreender, ou então esperai que chegue a hora de uma explicação mais inteligível, isto é, mais ao alcance do vosso entendimento. Não trato senão desta parte da questão, pois apenas quis provar que não tinha ficado estranho à vossa discussão. Sobre todo o resto, reporto-me ao que foi dito, já que todos me pareceram da mesma opinião. Daqui a pouco falarei de outros casos que foram assinalados (os casos de Poitiers). Erasto
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Mês Março
Ano 1864