Certamente, as entidades em súplica permaneciam jungidas ao mesmo lugar, mas figuras animalescas e rastejantes, lembrando sáurios de descomunais proporções, avançaram para a nossa caravana, ausentando-se da zona mais funda dos charcos. Eram em grande número e davam para estarrecer o ânimo mais intrépido. Experimentei o instinto de utilizar a volitação e fugir à pressa. Entretanto, a serenidade dos companheiros contagiava e esperei firme. Quase imperceptível estalido partiu da destra da Irmã Zenóbia, e dez auxiliares, aproximadamente, utilizaram minúsculos aparelhos, emitindo raios elétricos de choque, através de insignificantes explosões. Não obstante ser fraca a detonação, a descarga de energia revelava vigoroso poder, tanto que os atacantes monstruosos recuavam, precipitados, recolhendo-se ao pântano, em queda espetacular sobre a lama grossa. Multiplicavam-se as lamentações dos prisioneiros invisíveis da substância viscosa.
— Libertai-nos! Libertai-nos!… — Socorro! Socorro!… Cortavam-me a sensibilidade aquelas imprecações pungentes e dolorosas, mas ninguém parou. Seguia a expedição, diligente e muda. Compreendi que estavam em jogo maiores interesses de trabalho e não insisti. Minha posição era a do subalterno chamado a cooperar. Mais alguns minutos e havíamos varado a região dos charcos. Penetrando terreno de configuração diferente, aliviou-se-me, de algum modo, o coração condoído. Entretanto, agora, vultos negros de entidades humanas esgueiravam-se junto de nós. Aproximavam-se com a visível disposição de atacar, recuando, porém, inesperadamente. Supus, por minha vez, que o movimento de recuo ocorria logo que eles observavam a extensão do nosso grupo de vinte e cinco pessoas. Temiam-nos a expressão numérica e fugiam, pressurosos. Prosseguindo a marcha, penetramos escarpada região e, atendendo ao sinal da Irmã Zenóbia, os vinte auxiliares que nos seguiam postaram-se em determinado ponto, com a recomendação de nos aguardarem a volta. A diretora da Casa Transitória, então, conduziu-nos os quatro, caminho a dentro, acentuando que encetaríamos isoladamente a primeira parte do programa de serviço. Em semelhante paragem, a atmosfera rarefazia-se de maneira sensível. A Lua pareceu menos rubra, a relva mais doce, o ar mais tranquilo.
— Estamos em reduzido oásis de paz, em meio de extenso deserto de sofrimentos, — esclareceu Zenóbia quebrando o longo silêncio.
— Agora podemos falar e atender aos objetivos de nossa vinda. Logo após, evidenciando preocupação em sossegar-nos o íntimo, referentemente aos sofredores anônimos que encontráramos no caminho, explicou-nos delicadamente:
— Não somos impermeáveis às rogativas dos nossos irmãos que ainda gemem no charco de dor a que se atiraram voluntariamente. Dilaceram-nos o espírito as imprecações dos infelizes. No entanto, a Casa Transitória de Fabiano tem-lhes prestado o socorro possível, ajuda essa que, até hoje, vem sendo repelida pelos nossos irmãos infortunados. Debalde libertamo-los, periodicamente, dos monstros que os escravizam, organizando-lhes refúgio salutar. Fogem de nossa influenciação retificadora e tornam espontaneamente ao charco. É imprescindível que o sofrimento lhes solidifique a vontade, para as abençoadas lutas do porvir. Estabelecida a ressalva, que percebi especialmente formulada de modo indireto para mim, Zenóbia continuou, bastante emocionada:
— Compete-me, agora, alguns esclarecimentos. Neste instante, deve esperar-nos, na orla do abismo, o irmão a que aludi, devotado amigo para mim, noutro tempo, e pelo qual devo trabalhar, na atualidade, através de todos os recursos legítimos, ao meu alcance. Infelizmente, o pobrezinho mantém-se em padrão vibratório dos mais inferiores. Creio precisas estas explicações preliminares, facilitando-lhes a obsequiosa colaboração desta noite. Muitas vezes, a surpresa dolorosa compele-nos à solução de continuidade no serviço a fazer. Daí minha preocupação justa em prestar-lhes os informes devidos. Trata-se do padre Domênico, entidade a quem muito devo. Foi ele clérigo menos feliz, incapaz de manter-se fiel ao Senhor até ao fim de seus dias. Iniciou-se nas lutas humanas, tocado de sublimes esperanças, na primeira mocidade; entretanto, porque os desígnios do Pai eram diversos dos caprichos que alimentava no coração de homem apaixonado e voluntarioso, em breve caía em despenhadeiros que lhe valem os amargosos padecimentos, depois do túmulo. Aproveitou-se das casas consagradas à fé viva para concretizar propósitos menos dignos, conspurcando a paz de corações sensíveis e amorosos. Recebeu todas as advertências e avisos salutares tendentes a modificar-lhe a conduta criminosa e desvairada. Todavia, internou-se fundamente no lamaçal escuro dos erros voluntários, desprezando toda espécie de assistência salvadora. Colaborei durante anos consecutivos nos serviços de orientação que lhe eram ministrados, mas, pela expressão intensa de fragilidade humana que ainda conservava em minha alma, abandonei-o, também, à própria sorte, absorvida por sentimentos de horror. Minha deliberação estabeleceu comprida pausa de tempo em nossas relações diretas. Mais de quarenta anos rolaram, entre nós. De tempos a esta parte, porém, seus sofrimentos acentuaram-se de maneira terrível, obrigando-me a mobilizar minhas humildes possibilidades em seu favor. Desencarnado, desde muito, voltou da Crosta em angustiosas circunstâncias. Ocasionou desastres morais de reparação muito difícil. E ainda permanece insensível às nossas exortações de amor e paz, conservando-se em posição psíquica negativa. Precipitou-se em temível aridez do coração, envolvendo-se em forças que o aniquilam e entorpecem cada vez mais. Para que males maiores não lhe ocorram fui, a meu pedido, autorizada a incluí-lo entre os tutelados externos de nossa instituição. Consegui, desse modo, que alguns de nossos cooperadores lhe atenuassem o movimento fácil, sem que pudesse ele dar conta de nossas operações fluídico-magnéticas, nesse sentido. Tem sofrido muito. No entanto, apesar da prostração, ainda não modificou a mente, mantendo-se em pesadas trevas interiores e subtraindo-se, sistematicamente, a qualquer esforço de autoexame, que lhe facilitaria, sem dúvida, algum repouso espiritual. Além desse alívio, que lhe é sumamente indispensável, o padre Domênico necessita regressar à experiência construtiva na Crosta Planetária, recapitulando o pretérito em serviço expiatório. Entretanto, a situação mental em que se demora cria-lhe empecilhos de vulto, dificultando-nos a ação intercessória. Urge, porém, que regresse à reencarnação. Amigos nossos, devotados e solícitos, amparam-me o pedido em benefício dele e Domênico voltará a unir-se, como filho sofredor de uma das suas vítimas de outro tempo, vítima e verdugo, porque, num gesto de vingança cruel, o ofendido eliminou o ofensor com a morte. Para reintegrar-se nas correntes carnais, preciosas e purificadoras, deve o infortunado adquirir, pelo menos, a virtude da resignação, de modo a não aniquilar o organismo daquela que, desempenhando sublime tarefa de mãe, lhe conferirá, carinhosamente, a nova personalidade. Pela obtenção desse resultado, é imprescindível que melhore interiormente. Se conseguirmos que um raio de luz lhe penetre o íntimo, se possibilitarmos a eclosão de algumas lágrimas que lhe desabafem o coração, dilatando-lhe o entendimento, experimentará novas percepções visuais e, provavelmente, conseguirá enxergar aquela que lhe foi desvelada genitora, na derradeira romagem dos Círculos carnais. Conseguida essa providência, creio será ele conduzido facilmente à indispensável conformação e às medidas iniciais da recapitulação terrestre. Estabeleceu-se natural intervalo nas considerações de Zenóbia. Nenhum de nós ousou formular qualquer interrogativa. Ela, porém, prosseguiu, humilde:
— Desde alguns dias, ouve-nos Domênico a voz, tal como o cego que não consegue ver. Não posso identificar-me perante ele, a fim de não lhe prejudicar o trabalho de redenção, mas espero que, nesta noite, muito possamos fazer em seu favor, com os valores da prece, aguardando, ainda, que os informes, detalhados e instrutivos, a serem prestados pela clarividência de Luciana, lhe possam elevar o tônus vibratório, e, ocorrendo isso, como espero em Nosso Senhor, chamarei mentalmente a nossa irmã Ernestina, que lhe foi mãe dedicada e compassiva, com o fim de o recolher e conduzir à Crosta para as providências cabíveis. Estou convencida de que, podendo ver a genitora, Domênico se transformará em breves dias, preparando-se para a reencarnação próxima, com o valor desejado. Indicando determinado ponto da paisagem, informou:
— Em vista do serviço a realizar, recomendei que dois auxiliares o trouxessem a local adequado, onde possamos orar livremente e auxiliá-lo com as nossas palavras, sem interferências estranhas. Em seguida, rogou, comovidamente:
— E agora que iniciaremos o trabalho de tanta significação para minhalma, insisto para que me perdoem o caráter pessoal da tarefa. É que a oportunidade de nos reunirmos, cinco irmãos tão bem sintonizados, não é bastante comum e, em vista da providência assinalada para amanhã, sinto que não devo adiá-la, porquanto a desintegração de resíduos inferiores pelo fogo etérico se faz acompanhar de muita renovação nestes sítios. Poderíamos, desse modo, Ernestina, Domênico e eu perder sagrado ensejo, de repetição problemática. Calou-se, de súbito, a orientadora, conservando-se na atitude de quem medita, em silêncio, de coração voltado para o Todo-Poderoso.