“O deserto profundo e avermelhado se estende qual mar longínquo ao pé das colinas, donde mergulho a vista nessas extensões misteriosas e sem vida. O Sol se esconde, a noite cai e ao tórrido calor do dia vai suceder a sombra glacial. O deserto adormece, a viração caiu. Aqui, ali, mal se destacam alguns espinhosos e raquíticos arbustos. São manchas pardas nessa toalha luminosa e informe, que as últimas claridades do Sol fazem brilhar ainda. Morrem as horas ao Sol do deserto; parece já não existir o tempo na face dessa terra árida e triste. A alma também fica absorta e não vê passar diante de si mais que os grupos de estrelas no sombrio fundo azul. Envolvi os ombros no Albornoz que mal me protegera do frio, e talvez esse gesto revele também minha inquietação e susto em presença desse horizonte imenso que guarda o segredo de tantos mortos!... Recolho-me também; quero esquivar-me a esse mistério, ao enigma dessas terras desoladas. Escuto: nenhum rumor de vida; apenas alguns murmúrios do vento, algumas longínquas sonoridades que dificilmente o ouvido apreende. A sombria e silenciosa majestade do deserto me comove e oprime.
“Procuro dar um pouco de vida àquela solidão; volto-me para o meu árabe e lhe pergunto onde faremos a sesta. Sei bem que não compreenderei senão a meio sua resposta; mas ao menos ouvirei uma voz humana. Esforço inútil; o murmúrio de minhas palavras parece o grito do inseto. Somos ridiculamente humildes em presença do deserto. Não é a voz de um homem que o pode comover; é preciso a do vento e da tempestade. A extensão não vibrou de humanos sons; desprezou meu esforço, do mesmo modo que o próximo vento apagará os vestígios de meus passos.
“Os cimos das colinas se abaixam no horizonte, semelhantes a leões que talvez durmam nos seus antros. Dir-se-iam esfinges agachadas, cochilando. Elas guardam os mistérios do deserto. Escuto; o silêncio é sempre o deus do espaço, e só a noite indica que há um poder do tempo. Mas, a Humanidade não respeita essa grandeza. Vamos violar a poderosa e formidável solidão, e nossos filhos buscarão nela instalar os seus ódios.
“O deserto é poderoso; lutará contra a invasão e por muito tempo as suas estradas de rutilante esplendor conservarão o reflexo do sangue dos audaciosos viajores que lhe quiseram arrancar o segredo.”
UM DESCONHECIDO *
A Reencarnação
Médium, J. D.
“A grande idéia da reencarnação é a única, meus irmãos, capaz de restaurar a nossa decadente sociedade. Somente ela pode reprimir esse egoísmo avassalador que desagrega família, pátria, sociedade, e que substitui a generosa idéia do dever por essa feroz concepção de uma individualidade que se deve afirmar a todo custo.
“O materialismo, que destroçou a crença na vida futura, e os dogmas incompletos, que desnaturam o princípio sublime das religiões, fizeram murchar na alma humana essas admiráveis flores de um ideal superior às subalternas contingências da vida material e à brutalidade impulsiva dos instintos.
“É preciso, meus irmãos, que alguma coisa venha despertar nas almas o sentido da vida espiritual.
“Por mais que a Ciência multiplique as suas maravilhas, por mais que o homem despenda as admiráveis faculdades da sua inteligência e do seu gênio, permanecem estéreis todos os seus esforços, se em si mesmo não possui as fontes vivas da vida espiritual; se não sente palpitar em si essa vida imperecível, que lhe assegura a imortalidade e torna-o consciente desse Universo eterno, de que é uma das vivas e eternas partículas.
“Não, não, irmãos, o homem não é esse efêmero e anônimo ser; poeira transitória de vida, que dura apenas um instante para sofrer e morrer. O homem é a vida, a vida eterna, individualizada na substância para adquirir consciência de si mesmo e constituir a plenitude da felicidade pela plenitude do conhecimento.
“Sim, o homem é grande: grande porque é o artífice da sua própria grandeza; grande porque, com o próprio esforço, cria sua futura personalidade; porque todas as aquisições da sua inteligência, da sua razão e do seu coração, as deve ele ao seu trabalho e experiência.
“Ó divina reencarnação! Por ti, o bruto inconsciente se converte em gênio; por ti, o mau adquire a bondade suprema e o ignorante o conhecimento de todas as coisas. Por ti, o homem toma gradualmente consciência de si mesmo; cada vida lhe traz uma experiência, cada existência uma força e um poder novos; por ti, não há dor nem prova que não tenha objetivo; toda alegria é uma recompensa. Por ti, a mais íntima solidariedade vincula todas as criaturas, e o progresso, a formação de uma sociedade melhor, é a obra comum e secular.
“Quando a idéia da reencarnação se houver novamente senhoreado da mentalidade humana, o progresso social dará um passo imenso. As misérias e provações do homem lhe parecerão menos dolorosas, porque terão para ele um sentido positivo. Com mais segurança há de ele saborear as suas alegrias, porque sentirá que a vida se lhe tornou estável com a imortalidade.
“O Universo já se lhe não figurará implacável máquina, cujas engrenagens trituravam desapiedadamente as criaturas, sem se preocupar com os seus gritos e estertores.
“O homem compreenderá, então, que existe um foco imenso, pelo qual é chamado a se tornar uma centelha consciente e fecunda, depois de haver aprendido, na série de suas vidas sucessivas, o segredo da eterna vida, isto é: a inteligência que sabe, a consciência que age, e o amor que ama.”
PASTOR B. *
A Natureza
Médium, Srta. M L.
“Visitei muitas vezes os vossos belos pais, quando meu marido residia às margens do Loire, e conheço todo o encanto da Primavera entre vós. Vi o pássaro responder à sua ninhada, quando o seu primeiro pipilar reclamava imperiosamente mais abundante nutrição. Não tendes os cálidos ardores meridionais, mas o vosso céu é mais suave: a luz de vossos sóis no ocaso se diversifica e multiplica de nuvem em nuvem, e prolonga o crepúsculo.
“Muitas vezes escutei, como o podereis fazer por vossa parte, a queda abafada dos brancos e veludosos flocos de neve. Os ninhos balouçam, esquecidos e vazios, nas extremidades dos galhos despojados da folhagem. A Natureza parece morta, mas, como toda verdadeira obra de Deus, encerra a esperança das vindouras primaveras. Minha alma é irmã do Inverno: nela dorme as suas recordações. Sei, porém, que minha vontade pode ressuscitar esse passado de ontem e dar-me, com a permissão de Deus, a ilusão das vidas transcorridas e a certeza de um melhoramento sempre desejado. A Natureza é a nossa grande educadora; com ela aprendemos a balbuciar o nome divino e é ele que canta, às noites, o hino universal que a Humanidade escuta emocionada; transfunde a alegria em nossos corações e nos faz ver a verdade, porque é a grande mediadora. Se soubéssemos escutar a sua voz, seríamos mais que homens: teríamos adivinhado a palavra divina.”
MME. MICHEILET. *
Invocações
Médium, Srta. B. R.
“Ó Deus, tu que infundes, ao mesmo tempo, nobre terror e soberana admiração aos que teu nome pronunciam, digna-te inundar com tua luz resplandecente os fracos que a ti se dirigem num grito de angústia e de amor!
“A ti, meu Deus, se eleva lentamente meu pensamento. Em ti, foco de amor, procura minha alma se abrasar. Faze baixar à tua humana criatura teu ardente sopro; faze cair o véu de cegueira que me cobre os olhos e me oculta os teus imensos horizontes; revela a meu ser teus infinitos esplendores; murmura ao meu coração palavras de vida; fala-me, ó tu, que em todo o meu ser sinto vibrar!
“Deus! Ser majestoso de grandeza e de simplicidade, foco sempre ardente de vida, amor e luz! Tu que numa eternidade sabes conter o infinito! Tu, receptor ao mesmo tempo de meus queixumes e de minhas jubilosas expansões, tu, ainda, que me guias com teus radiosos meteoros, cuja rápida passagem ilumina meu sombrio asilo, ampara-me, consola-me! Tu finalmente, cujo sopro abrasador me reanima a expirante chama, pousa um instante sobre mim tua piedade; faze renascer em mim a centelha desprendida do teu braseiro de amor. Ouve minha prece! Envia, como resposta, um raio da tua pura claridade e faze que, ao teu nome, todo o meu ser, num sublime transporte, a ti se arroje.”
IRIAC. *
Imaginaram recentemente os sábios experimentadores ingleses, sob o nome de cross-correspondence, um novo processo de comunicação com o invisível, que seria bem próprio a atestar a identidade dos Espíritos cujas manifestações se produzem mediante a escrita mediúnica. Oliver Lodge o descreveu numa reunião efetuada em 30 de janeiro de 1908, pela Sociedade de Investigações Psíquicas, de Londres.
“A cross-correspondence – diz ele – isto é, o recebimento por um médium, de uma parte de comunicação, e de outra parte por outro médium, não podendo cada uma dessas partes ser compreendida sem a adjunção da outra, é boa prova de que uma única Inteligência opera sobre os dois automatistas.
“Se, além disso, a mensagem apresenta os característicos de um finado e é recebida a esse título por pessoas que o não conheciam intimamente, pode-se ver nisso a prova da persistência da atividade intelectual do desaparecido. E se do mesmo modo obtemos um trecho de crítica literária, inteiramente conforme ao seu modo de pensar e que não poderia ser imaginado por terceira pessoa, digo que a prova é convincente. Tais as espécies de provas que a Sociedade pode comunicar sobre esse ponto.”
Depois de referir-se aos esforços em tal sentido empregados pelos Espíritos de Gurney, Hodgson e Myers em particular, acrescenta o orador:
“Achamos que suas respostas a perguntas especiais são formuladas de um modo que caracteriza sua personalidade e revela conhecimentos que eram de sua competência.”
“A parede que separa os encarnados dos desencarnados – diz ele ao terminar – ainda se mantém de pé, mas acha-se adelgaçada em muitos lugares. À semelhança dos escavadores de um túnel, ouvimos, em meio do ruído das águas e dos outros rumores, as pancadas de picareta dos nossos camaradas do outro lado.”