No estado normal, a alma percebe por intermédio dos sentidos. Aqui a jovem percebe o que está fora do alcance da vista e do ouvido; vê no interior das coisas, penetra os corpos opacos, descreve o que se passa longe; portanto, vê de outro modo que não pelos olhos e ouve de outra forma que não pelo ouvido, e isto num estado em que o organismo é acometido de insensibilidade. Se se tratasse de um fato único, excepcional, poder-se-ia atribui-lo a um capricho da Natureza, a uma espécie de monstruosidade; mas é muito comum. Mostra-se de maneira independente, embora em graus diferentes, na maior parte dos casos de catalepsia, na letargia, no sonambulismo natural e artificial, e mesmo em numerosos indivíduos que têm todas as aparências de estado normal. Produz-se, pois, em virtude de uma lei. Como a Ciência, que leva suas investigações ao movimento de atração do mais insignificante grão de poeira, tenha negligenciado um fato tão capital?
O desenvolvimento das faculdades intelectuais é ainda mais extraordinário. Eis uma jovem, uma camponesa analfabeta, que não só se exprime com elegância, com poesia, mas em quem se revelam conhecimentos científicos sobre coisas que não aprendeu e – circunstância não menos singular – isto ocorre num estado particular, ao sair do qual tudo é esquecido: volta a ser tão ignorante quanto antes. Entrando no estado extático, a lembrança lhe volta com as mesmas faculdades e os mesmos conhecimentos; para ela são duas existências distintas.
Se, conforme a escola materialista, são produto direto dos órgãos; se, para nos servirmos da expressão desta escola, “o cérebro secreta o pensamento, como o fígado secreta a bile”, então também secreta conhecimentos acabados, sem o concurso de um professor. É uma propriedade que ainda não se conhecia nesse órgão. Nessa mesma hipótese, como explicar esse desenvolvimento intelectual extraordinário, essas faculdades transcendentes, alternadamente possuídas, perdidas e recobradas quase instantaneamente, enquanto o cérebro é sempre o mesmo? Não está aí a prova patente da dualidade do homem, da separação do princípio material e do princípio espiritual?
Aí, nada ainda de excepcional: esse fenômeno é tão comum quanto o da extensão da visão e da audição. Como este último, depende, pois, de uma lei. São essas leis que o Espiritismo procurou e a observação lhe deu a conhecer.
A alma é o ser inteligente; nela está a sede de todas as percepções e de todas as sensações; ela sente e pensa por si mesma; é individual, distinta, perfectível, preexistente e sobrevivente ao corpo. O corpo é o seu invólucro material: é o instrumento de suas relações com o mundo visível. Durante sua união com o corpo, ela percebe por meio dos sentidos, transmite seu pensamento com a ajuda do cérebro; separada do corpo, percebe diretamente e pensa mais livremente. Tendo os sentidos um alcance circunscrito, as percepções recebidas por seu intermédio são limitadas e, de certo modo, amortecidas; recebidas sem intermediário, são indefinidas e de uma sutileza surpreendente, porque ultrapassa, não a força humana, mas todos os produtos de nossos meios materiais. Pela mesma razão, o pensamento transmitido pelo cérebro se peneira, a bem dizer, através desse órgão. A grosseria e os defeitos do instrumento a paralisam e em parte a abafam, como certos corpos transparentes absorvem uma parte da luz que os atravessa.
Obrigada a servir-se do cérebro, a alma é como um músico muito bom, diante de um instrumento imperfeito. Livre desse incômodo auxiliar, desdobra todas as suas faculdades.
Tal é a alma durante a vida e depois da morte. Para ela há, portanto, dois estados: o de encarnação ou de constrangimento, e o de desencarnação ou de liberdade; em outras palavras: o da vida corporal e o da vida espiritual. A vida espiritual é a vida normal, permanente da alma; a vida corporal é transitória e passageira.
Durante a vida corporal, a alma não sofre constantemente o constrangimento do corpo, e aí está a chave dos fenômenos físicos, que só nos parecem estranhos porque nos transportam para fora da esfera habitual de nossas observações.
Qualificaram-nos de sobrenaturais, embora, na realidade, estejam submetidos a leis perfeitamente naturais, porque essas leis nos eram desconhecidas. Hoje, graças ao Espiritismo, que deu a conhecer essas leis, desapareceu o maravilhoso.
Durante a vida exterior de relação, o corpo necessita de sua alma ou Espírito por guia, a fim de o dirigir no mundo; mas nos momentos de inatividade do corpo, a presença da alma não é mais necessária; dele se desprende, sem, contudo, deixar de a ele se prender por um laço fluídico, que a ele o chama, tão logo se fizer necessária a sua presença. Nesses momentos recobra parcialmente a liberdade de agir e de pensar, da qual só desfrutará completamente depois da morte do corpo, quando deste estará completamente separada. Esta situação foi espiritualmente e muito veridicamente descrita pelo Espírito de uma pessoa viva, que se comparava a um balão cativo, e por um outro, o Espírito de um idiota vivo, que dizia ser como um pássaro, amarrado pela pata.
(Revista Espírita, junho de 1860).
Esse estado, que chamamos emancipação da alma, ocorre normalmente e periodicamente durante o sono. Só o corpo repousa para recuperar as perdas materiais; mas o Espírito, que nada perdeu, aproveita essa pequena trégua para se transportar para onde queira. Além disso, tal estado também ocorre toda vez que uma causa patológica, ou simplesmente fisiológica, produz a inatividade total ou parcial dos órgãos da sensação e da locomoção.
É o que se passa na catalepsia, na letargia, no sonambulismo. O desprendimento ou, se se quiser, a liberdade da alma, é tanto maior quanto mais absoluta a inércia do corpo. É por essa razão que o fenômeno adquire seu maior desenvolvimento na catalepsia e na letargia. Nesse estado, a alma não percebe mais pelos sentidos materiais, mas, se assim nos podemos exprimir, pelo sentido psíquico; é por isso que suas percepções ultrapassam os limites ordinários; seu pensamento age sem a intercessão do cérebro, razão por que desdobra faculdades mais transcendentes que no estado normal.
Tal é a situação da jovem B...; também ela diz, e com razão, que “quando passa da vida ordinária a esse modo de vida superior, parece-lhe que um espesso véu cai de seus olhos.” Tal é, também, a causa do fenômeno da segunda vista, que não é senão a visão direta pela alma; da visão a distância, que resulta do transporte da alma ao lugar que ela descreve; da lucidez sonambúlica, etc.
“Quando Louise B... vê pessoas vivas, os sinais de envelhecimento desaparecem, e se alguém perdeu algum membro, para ela é como se ainda subsistisse; a forma corporal continua integralmente reproduzida pelo fluido nervoso.” Se ela visse simplesmente o corpo, vê-lo-ia tal qual é; o que ela vê é o envoltório fluídico; o corpo material pode ser amputado: o perispírito não o é; o que aqui se designa por fluido nervoso não é senão o fluido perispiritual.
Ela vê também os que estão mortos; então lhes resta alguma coisa. Que vê ela? Não pode ser o corpo, que não mais existe; no entanto, os vê com uma forma humana, a que possuíam em vida. O que ela vê é a alma, revestida de seu corpo fluídico ou perispírito. Portanto, as almas sobrevivem ao corpo e, assim, não são seres abstratos, centelhas, chamas, sopros perdidos na imensidade do reservatório comum, mas seres reais, distintos, circunscritos, individuais. Se tanto vê os mortos como os vivos, é porque os vivos têm, como os mortos, o mesmo corpo fluídico imperecível, ao passo que o grosseiro envoltório material se dissolve com a morte. Ela não vê almas perdidas nas profundezas infinitas do espaço, mas em meio a nós, o que prova a existência do mundo invisível que nos rodeia, e em cujo meio vivemos sem o suspeitar.
Tais revelações não levam a refletir seriamente? Quem pôde dar tais idéias a essa moça? A leitura de obras espíritas? Mas ela não sabe ler. A convivência com os espíritas? Ela nunca ouviu falar deles. É, pois, espontaneamente que ela descreve todas essas coisas. É produto de sua imaginação? Mas ela não é a única: milhares de videntes disseram e dizem a mesma coisa todos os dias, o que a Ciência nem desconfia. Ora, é desse concurso universal de observações que o Espiritismo deduziu a teoria.
Em vão a Ciência buscará a solução desses fenômenos, enquanto fizer abstração do elemento espiritual, pois aqui está a chave de todos esses pretensos mistérios. Que ela admita, ainda que a título de hipótese, e tudo se explicará sem dificuldade.
Observações desta natureza, sobre pacientes como Louise B..., exigem muito tato e prudência. Não se deve perder de vista que, nesse estado de excessiva susceptibilidade, a menor comoção pode ser funesta; a alma, feliz por estar desprendida do corpo, a este se prende apenas por um fio, que um nada pode romper para sempre. Em casos semelhantes, experiências feitas sem cautela podem matar.