As boas intenções, a própria moralidade do médium nem sempre são suficientes para o preservarem da ingerência dos Espíritos levianos, mentirosos ou pseudo-sábios, nas comunicações. Além dos defeitos de seu próprio Espírito, pode dar-lhes guarida por outras causas, das quais a principal é a fraqueza de caráter e uma confiança excessiva na invariável superioridade dos Espíritos que com ele se comunicam. Essa confiança cega liga-se a uma causa que a seguir explicaremos. Se não quisermos ser vítimas de Espíritos levianos é preciso saber julgá-los; para isso dispomos de um critério infalível: o bom-senso e a razão. Sabemos das qualidades de linguagem que entre nós caracterizam os homens verdadeiramente bons e superiores, e essas qualidades são as mesmas para os Espíritos; nós os devemos julgar por sua linguagem. Nunca seria demais repetir o que caracteriza a dos Espíritos superiores: é constantemente digna, nobre, sem bazófia nem contradição, isenta de trivialidade e assinalada por inalterável benevolência. Os Espíritos bons aconselham, não ordenam; não se impõem; calam-se naquilo que ignoram. Os Espíritos levianos falam com a mesma segurança do que sabem e do que não sabem, a tudo respondendo sem se preocuparem com a verdade. Vimos alguns, em mensagem supostamente séria, com imperturbável audácia, colocar César no tempo de Alexandre; outros, afirmando que não é a Terra que gira em torno do Sol. Em resumo, toda expressão grosseira ou simplesmente inconveniente, toda marca de orgulho e de presunção, toda máxima contrária à sã moral, toda notória heresia científica, nos Espíritos como nos homens, é sinal incontestável de natureza má, de ignorância ou, pelo menos, de leviandade, donde se conclui que é necessário pesar tudo o que eles dizem e submeter todas as coisas ao crivo da lógica e do bom-senso. Eis uma recomendação que incessantemente nos fazem os Espíritos bons: “Deus – dizem eles – não vos deu o raciocínio sem propósito; servi-vos dele para saber o que estais fazendo.” Os Espíritos maus temem o exame e dizem: “Aceitai nossas palavras e não as julgueis.” Se tivessem consciência de estar com a verdade, não temeriam a luz.
O hábito de perscrutar as menores palavras dos Espíritos, de pesar-lhes o valor – do ponto de vista do conteúdo e não da forma gramatical, com a qual eles pouco se importam – afasta necessariamente os Espíritos mal-intencionados que, então, não virão perder seu tempo inutilmente, desde que rejeitamos tudo quanto é mau ou de origem suspeita. Mas, quando aceitamos cegamente tudo quanto dizem, quando, por assim dizer, nos ajoelhamos ante sua pretensa sabedoria, eles fazem o que fariam os homens, enganando-nos.
Se o médium é senhor de si, se não se deixa dominar por um entusiasmo irrefletido, poderá fazer o que aconselhamos.
Acontece, porém, que o Espírito muitas vezes o subjuga a ponto de fasciná-lo, levando-o a considerar admiráveis as coisas mais ridículas; então ele se abandona cada vez mais a essa perniciosa confiança e, acreditando em suas boas intenções e em seus bons sentimentos, julga que isso é suficiente para afastar os Espíritos maus. Não, isso não basta, porque esses Espíritos, aproveitando-se de sua fraqueza e de sua credulidade, ficam muito satisfeitos por fazê-lo cair na cilada. Que fazer, então? Relatar o caso a uma terceira pessoa desinteressada que, julgando com critério e sem prevenção, possa ver um argueiro onde o médium não via uma trave.
A ciência espírita exige uma grande experiência que, como em todas as ciências, filosóficas ou não, só é adquirida por um estudo assíduo, longo e perseverante, e por meio de numerosas observações. Ela não abrange apenas o estudo dos fenômenos propriamente ditos, mas, também e sobretudo, os costumes do mundo oculto, se assim nos podemos exprimir, desde o mais inferior ao mais alto grau da escala. Seria muita presunção julgar-se suficientemente esclarecido e passar a mestre depois de alguns ensaios. Tal pretensão não partiria de um homem sério, pois quem quer que lance um golpe de vista indagador sobre esses estranhos mistérios, vê desdobrar-se, diante de si, um horizonte tão vasto que uma multidão de anos não bastaria para o abranger. E pensar que certas pessoas querem fazê-lo em alguns dias!
De todas as imperfeições morais, a que oferece maior vulnerabilidade aos Espíritos imperfeitos é o orgulho. Para os médiuns, o orgulho é um escolho tanto mais perigoso quanto menos o confessam. É o orgulho que lhes dá essa crença cega na superioridade dos Espíritos que a eles se vinculam, porque se sentem lisonjeados com certos nomes que eles lhes impõem. Desde que um Espírito lhes diz: “Eu sou fulano”, inclinam-se e não admitem dúvidas, porque seu amor-próprio sofreria se encontrasse, sob essa máscara, um Espírito de condição inferior ou um malvado desprezível. O Espírito, que vê o lado fraco, aproveita-se dele, lisonjeia o pretenso protegido, fala-lhe de origens ilustres, que o enchem de orgulho e vaidade, promete-lhe um futuro brilhante, honra e fortuna, dos quais parece ser o dispensador. Caso necessário, simula por ele uma ternura hipócrita. Como resistir a tanta generosidade? Numa palavra, zomba do médium, fazendo dele o que bem entendem, como se diz vulgarmente. Sua felicidade é ter alguém sob sua dependência. Já interrogamos vários deles sobre os motivos de sua obsessão; um nos respondeu isto: Quero ter um homem que me faça a vontade; é o meu prazer. Quando lhe dissemos que íamos fazer tudo para frustrar as suas artimanhas e abrir os olhos de seu oprimido, disse: Lutarei contra vós e não o conseguireis, porque farei tantas coisas que ele não vos acreditará. É, com efeito, uma das táticas desses Espíritos malfazejos; inspiram a desconfiança e o afastamento das pessoas que os podem desmascarar e dar bons conselhos. Da parte dos Espíritos bons jamais acontece coisa semelhante. Todo Espírito que insufla a discórdia, que excita a animosidade, que alimenta as dissensões, por isso mesmo revela a sua natureza má. Seria preciso ser cego para não o compreender e para crer que um Espírito bom pudesse estimular a desinteligência.
Muitas vezes o orgulho se desenvolve no médium à medida que cresce a sua faculdade; ela lhe dá importância.
Procuram-no e ele acaba por julgar-se indispensável; daí, muitas vezes, um tom de jactância e de pretensão, ou ares de auto-suficiência e de desdém, incompatíveis com a influência exercida por um Espírito bom. Aquele que cai em semelhante extravagância está perdido, pois Deus lhe deu sua faculdade para o bem e não para satisfazer a vaidade ou servir de trampolim para a sua ambição. Esquece que esse poder, do qual se orgulha, pode ser retirado e freqüentemente não lhe é dado senão como prova, assim como a fortuna o é para certas pessoas. Se dele abusa, os Espíritos bons o abandonam pouco a pouco, tornando-se joguete dos Espíritos levianos que o embalam com suas ilusões, satisfeitos por haverem vencido aquele que se julgava forte. Foi assim que vimos aniquilarem-se e perderem-se as mais preciosas faculdades que, sem isso, se teriam tornado os mais poderosos e úteis auxiliares.
Isso se aplica a todos os gêneros de médiuns, seja de manifestações físicas, seja de comunicações inteligentes. Infeliz-mente o orgulho é um dos defeitos que estamos menos dispostos a confessar a nós mesmos e menos ainda aos outros, porque eles não acreditariam. Ide, pois, dizer a um desses médiuns que se deixa levar como uma criança, que logo ele vos virará as costas, dizendo que sabe conduzir-se muito bem e que não enxergais as coisas claramente. Podeis dizer a um homem que ele é bêbado, debochado, preguiçoso, incapaz, imbecil e ele rirá ou concordará; dizei-lhe que é orgulhoso e ficará zangado, prova evidente de que tereis dito a verdade. Neste caso, os conselhos são tanto mais difíceis quanto mais o médium evita as pessoas que os possam dar, fugindo de uma intimidade que teme. Os Espíritos, sentindo que os conselhos são golpes desferidos contra seu poder, impelem o médium ao contrário, para aqueles que o entretêm em suas ilusões.
Preparam-se, assim, muitas decepções, com o que o amor-próprio do médium terá muito a sofrer. Feliz ainda se não lhe resultar coisa mais grave.
Se insistimos longamente sobre este ponto é porque em muitas ocasiões a experiência nos tem demonstrado estar aí uma das grandes pedras de tropeço para a pureza e a sinceridade das comunicações mediúnicas. É quase inútil, depois disso, falar das outras imperfeições morais, tais como o egoísmo, a inveja, o ciúme, a ambição, a cupidez, a dureza de coração, a ingratidão, a sensualidade, etc. Cada um haverá de compreender que são outras tantas portas abertas aos Espíritos imperfeitos ou, pelo menos, causas de fraqueza. Para repelir esses últimos não basta dizer-lhes que se vão; nem mesmo basta querer e ainda menos conjurá-los: é preciso fechar-lhes a porta e os ouvidos, provar-lhes que somos mais fortes do que eles, o que incontestavelmente seremos um dia, pelo amor do bem, pela caridade, pela doçura, pela simplicidade, pela modéstia e pelo desinteresse, qualidades que nos atraem a benevolência dos Espíritos bons. É o apoio destes que nos dá força e, se algumas vezes nos deixam à mercê dos maus, é para testarem a nossa fé e o nosso caráter.