Jean Reynaud e os Precursores do Espiritismo
Entre os precursores do Espiritismo deve-se ainda colocar uma porção de escritores contemporâneos, cujas obras estão semeadas, talvez sem que disso tenham consciência, de idéias espíritas. Volumes e mais volumes teriam de ser escritos, se se quisesse recolher as inúmeras passagens em que se faz alusão mais ou menos direta à preexistência e a sobrevivência da alma, à sua presença entre os vivos, às suas manifestações, às suas peregrinações através de mundos progressivos, à pluralidade das existências, etc. Admitindo que tudo isto não seja, da parte de certos autores, senão um jogo de imaginação, nem por isso deixa a idéia de infiltrar-se menos no espírito das massas, onde fica latente até o momento em que será demonstrada como verdade. Haverá um pensamento mais espírita que o que se encerra na carta do Sr. Victor Hugo, sobre a morte da Sra. Lamartine, aclamada com entusiasmo pela maioria dos jornais, mesmo os que mais criticam a crença nos Espíritos? Eis a carta, que diz muito em poucas linhas: “Hauteville-House, 23 de maio. “Caro Lamartine, “Uma grande desgraça vos atinge. Necessito pôr meu coração junto do vosso. Eu venerava aquela que amáveis. Vosso alto Espírito vê além do horizonte; percebeis distintamente a vida futura. “Não é a vós que se precisa dizer: Esperai. Sois daqueles que sabem e esperam. “Ela é sempre vossa companheira, invisível, mas presente. Perdestes a esposa, mas não a alma. Caro amigo, vivamos nos mortos.” Victor Hugo Não são apenas os escritores isolados que semeiam, aqui e ali, algumas idéias; é a própria Ciência que vem preparar os caminhos. O magnetismo foi o primeiro passo para o conhecimento da ação perispiritual, fonte de todos os fenômenos espíritas; o sonambulismo foi a primeira manifestação do isolamento da alma. A frenologia provou que o organismo cerebral é um teclado a serviço do princípio para a expressão de diversas faculdades; contrariamente à intenção de Gall, seu fundador, que era materialista, ela serviu para provar a independência do Espírito e da matéria. A homeopatia, provando o poder da ação da matéria espiritualizada, liga-se ao papel importante que representa o perispírito em certas afecções; ataca o mal em sua própria fonte, que está fora do organismo, cuja alteração é apenas consecutiva. Tal a razão pela qual a homeopatia triunfa numa imensidade de casos em que fracassa a medicina ordinária: mais que esta, ela leva em conta o elemento espiritualista, tão preponderante na economia, o que explica a facilidade com a qual os médicos homeopatas aceitam o Espiritismo e por que a maioria dos médicos espíritas pertence à escola de Hahnemann. Finalmente, até as recentes descobertas sobre as propriedades da eletricidade, não há quem não tenha vindo trazer seu contingente na questão que nos ocupa, lançando a sua quota de luz sobre o que se poderia chamar a fisiologia dos Espíritos. Não mais terminaríamos se quiséssemos analisar todas as circunstâncias, pequenas ou grandes, que de um século para cá vieram abrir a rota da filosofia nova. Veríamos as mais contraditórias doutrinas provocarem o desenvolvimento da idéia, os próprios acontecimentos políticos prepararem sua introdução na vida prática. Mas, de todas as causas, a mais preponderante é a Igreja, que parece predestinada fatalmente a impulsioná-lo. Tudo lhe vem em auxílio; e se se conhecesse a inumerável quantidade de documentos que nos chegam de toda parte; se, como nós, se pudesse acompanhar essa marcha providencial através do mundo, favorecida pelos acontecimentos menos esperados e que, à primeira vista, lhe pareceriam contrários, compreender-se-ia melhor ainda o quanto ela é irresistível e se surpreenderiam menos de nossa impassibilidade. É que vemos todos trabalhando para isso, por bem ou por mal, voluntária ou involuntariamente; é que vemos o objetivo e sabemos quando e como será alcançado; vemos o conjunto que avança, razão por que quase não nos inquietamos com algumas individualidades que marcham na contramão. Por seus escritos Jean Reynaud foi, pois, um precursor do Espiritismo; também tinha sua missão providencial e devia abrir um sulco. Ser-lhe-ia útil depois da morte. Um eminente Espírito assim apreciou o acontecimento: “Mais uma circunstância que vai redundar em benefício do Espiritismo. Jean Reynaud tinha feito o que devia fazer nesta última existência. Vão falar de sua morte, de sua vida e, mais que nunca, de suas obras. Ora, falar de suas obras é por o pé na rota do Espiritismo. Muitas inteligências aprenderão nossa crença estudando esse filósofo que conquistou autoridade. Farão comparações e verão que não sois tão loucos como pretendem os que riem de vós e da vossa fé. Crede-me que tudo quanto Deus faz é bem feito. Ele será louvado por vossos próprios detratores, e sabeis que são estes que, sem o querer, trabalham mais para vos conseguir adeptos. Deixai agir, deixai gritar: tudo será conforme a vontade de Deus. Mais um pouco de paciência e a elite dos homens de inteligência e de saber se unirá a vós; e, diante de certas adesões ostensivas, a crítica terá de baixar a voz.” Santo Agostinho Nota – Ver adiante, nas dissertações, algumas comunicações de Jean Reynaud.
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Mês Agosto
Ano 1863