A segunda classe de materialistas, muito mais numerosa do que a primeira, porque o verdadeiro materialismo é um sentimento antinatural, compreende os que são materialistas por indiferença e, pode-se dizer, por falta de coisa melhor. Não o são deliberadamente e o que mais desejam é crer, pois a incerteza os atormenta. Há neles uma vaga aspiração pelo futuro, mas esse futuro lhes foi apresentado com cores tais, que a razão deles se recusa a aceitá-lo. Daí a dúvida e, como consequência da dúvida, a incredulidade. Para eles, portanto, a incredulidade não constitui um sistema. Logo que lhes apresentardes alguma coisa racional, eles a aceitarão com ardor. Esses podem nos compreender, porque estão mais perto de nós do que eles próprios imaginam. Aos primeiros — os materialistas por espírito de sistema — não faleis de revelação, nem de anjos, nem de paraíso: não vos compreenderiam. Colocai-vos, porém, no terreno em que eles se encontram e provai-lhes primeiramente que as leis da Fisiologia são impotentes para explicar tudo; o resto virá depois. A situação é totalmente diversa, quando a incredulidade não é preconcebida, porque então a crença não é de todo nula; há um gérmen latente, abafado pelas ervas más, e que uma centelha pode reavivar. É o cego a quem se restitui a vista e que se alegra por tornar a ver a luz; é o náufrago a quem se lança uma tábua de salvação.