Questões de Espiritismo Legal
Quanto ao processo atualmente pendente, acreditamos que o melhor meio de fazer boa justiça seria proceder às constatações que acabamos de falar. Se elas conduzirem à prova da anterioridade das manifestações, e se esse fato foi dissimulado pelo vendedor, trata-se de mais um caso em que o comprador foi enganado quanto à qualidade da coisa vendida. Ora, manter o contrato em semelhante condição talvez seja prejudicar o adquirente pela depreciação do imóvel; é, pelo menos, causar-lhe um prejuízo notável, constrangendo-o a guardar uma coisa de que não poderá mais fazer uso. É como se houvesse adquirido um cavalo cego, que fizeram passar por sadio. Seja como for, o julgamento em questão deve ter conseqüências graves; quer seja o contrato rescindido, ou mantido por falta de provas suficientes, é igualmente reconhecer a existência do fato das manifestações. Repelir a proposta do adquirente, sob argumento de que se baseia numa idéia ridícula, é expor-se a receber, cedo ou tarde, um desmentido da experiência, como já ocorreu com os homens mais esclarecidos, por se haverem apressado a negar as coisas que não compreendiam. Se podemos censurar nossos ancestrais por excessiva credulidade, sem dúvida nossos descendentes nos reprovarão por havermos pecado pelo excesso contrário. Enquanto aguardamos, eis o que acaba de se passar sob nossos olhos, cuja realidade chegamos mesmo a constatar. Vejamos a crônica da Patrie, de 4 de setembro de 1858: “A Rua du Bac está em grande confusão. Ocorrem ainda por ali algumas diabruras! “A casa, que leva o número 65, compõe-se de dois prédios; o que dá para a rua tem duas escadas que se defrontam. “Há uma semana, a qualquer hora do dia ou da noite, e nos dois pavimentos dessa casa as campainhas agitam-se e tilintam com violência; quando vão abrir a porta não há ninguém à entrada. “Primeiramente acreditou-se numa brincadeira de mau gosto, e cada um se pôs a observar para descobrir o autor. Um dos locatários teve o cuidado de despolir um vidro de sua cozinha para espiar. Enquanto vigiava com mais atenção, sua campainha foi sacudida; pôs o olho no postigo: ninguém! Correu à escadaria: ninguém! “Voltou para casa e tirou o cordão da campainha. Uma hora depois, quando pensava haver triunfado, a campainha pôs-se a repicar de forma mais bela ainda. Mirou-a, permanecendo mudo e consternado. “Em outras portas, os cordões das campainhas estavam torcidos e amarrados como serpentes feridas; Procuraram uma explicação e chamaram a polícia. Que mistério era esse? Ainda o ignoram.”
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Mês Outubro
Ano 1858