Confissão de Voltaire
Como viajava incessantemente, sem me conceder nenhum repouso, a fim de me convencer de que o mundo em que me encontrava bem podia ser um mundo material, minha alma lutou contra a verdade que me esmagava! Não pude realizar-me como Espírito que acabava de deixar o seu domicílio mortal! Não houve ninguém com quem pudesse estabelecer relações, porque a todos eu havia recusado a imortalidade. Para mim não existia repouso: estava sempre errante e desconfiado. Em mim o Espírito, tenebroso e amargo, comportava-se como um maníaco, incapaz de ser detido ou de perseguir um objetivo. Como já disse, eu debochava de tudo, e foi lançando um desafio que abordei o mundo espírita. Inicialmente fui levado para longe das moradas dos Espíritos e percorri o espaço incomensurável. Em seguida foi-me permitido lançar os olhos sobre as maravilhosas construções que serviam de habitação aos Espíritos e, com efeito, pareceram-me surpreendentes. Fui empurrado, aqui e ali, por uma força irresistível; era obrigado a ver, até que minha alma fosse saciada pelos esplendores e esmagada ante o poder que controlava tais maravilhas. Finalmente, vi-me obrigado a esconder-me e a refugiar-me nas concavidades das rochas, mas não o conseguia. Foi nesse momento que o meu coração começou a sentir a necessidade de expandir-se; uma associação qualquer se tornava urgente, porque me sentia queimar pelo desejo de confessar o quanto tinha sido induzido em erro, não pelos outros, mas por meus próprios sonhos. Já não me restavam ilusões sobre a minha importância pessoal, porque percebia a minha insignificância neste grande mundo dos Espíritos. Enfim, de tal forma me deixara cair na lassidão e na humilhação, que me foi permitido reunir-me a alguns habitantes. Só então pude contemplar a posição em que me havia colocado na Terra e o que disso resultava no mundo espírita. Julgai se esta apreciação poderia favorecer-me. Uma revolução completa, uma transformação de alto a baixo ocorreu na minha organização espírita e, de mestre que era, tornei-me o mais ardente dos discípulos. Quantos progressos realizei com a expansão intelectual que em mim se encontrava! Minha alma se sentia iluminada e aquecida pelo amor divino; suas aspirações à imortalidade, de reprimidas que eram, tomaram gigantesco impulso. Via quão grandes tinham sido os meus erros e quão grande devia ser a reparação para expiar tudo quanto havia feito ou dito, que tivesse podido seduzir e enganar a Humanidade. Como são magníficas essas lições da sabedoria e da beleza celestes! Ultrapassam tudo aquilo que na Terra teria podido imaginar. Em suma, vivi bastante para reconhecer, em minha existência terrestre, uma guerra implacável entre o mundo e a minha natureza espiritual. Lamentei profundamente as opiniões que emiti e que desviaram muita gente; mas, ao mesmo tempo, é penetrado de gratidão ao Criador, o infinitamente sábio, que sinto ter sido um dos instrumentos de que se serviram os Espíritos dos homens para impulsionar o seu progresso. Observação – Não adicionaremos nenhum comentário a esta comunicação, cuja profundidade e elevado alcance todos apreciarão, e na qual se encontra toda a superioridade do gênio. Um quadro tão grandioso e impressionante do mundo espírita, assim como a influência das idéias terrenas sobre as idéias de além-túmulo, talvez jamais tenha sido dado. Na conversa que publicamos em nosso número anterior encontra-se a mesma essência de idéias, embora menos desenvolvidas e, sobretudo, expressas menos poeticamente. Aqueles que apenas se ligam à forma sem dúvida dirão que não reconhecem o mesmo Espírito nessas duas comunicações e que principalmente a última não lhes parece à altura de Voltaire, concluindo que uma delas não é dele. Certamente, quando o chamamos, ele não nos trouxe sua certidão de nascimento; entretanto, quem quer que veja menos superficialmente ficará surpreendido pela identidade de pontos de vista e de princípios existentes entre essas duas comunicações, obtidas em épocas diversas, a uma enorme distância e em línguas diferentes. Se o estilo não é o mesmo, não há contradição de pensamento, e isso é o essencial. Mas se foi o mesmo Espírito que falou nas duas comunicações, por que é tão explícito e tão poético em uma delas, enquanto é lacônico e vulgar na outra? É preciso não ter estudado os fenômenos espíritas para não o compreender. Isso resulta da mesma causa que leva o mesmo Espírito a dar encantadoras poesias por um médium e não poder ditar um único verso por outro. Conhecemos médiuns que absolutamente não são poetas e que obtêm versos admiráveis, assim como há outros que jamais aprenderam a desenhar mas desenham coisas maravilhosas. É necessário, pois, reconhecer, abstração feita das qualidades intelectuais, que entre os médiuns há aptidões especiais que os tornam, para certos Espíritos, instrumentos mais ou menos flexíveis, mais ou menos cômodos. Dizemos para certos Espíritos porque também os Espíritos têm a sua preferência, fundada em razões que nem sempre conhecemos. Desse modo, o mesmo Espírito será mais ou menos explícito, conforme o médium que lhe sirva de intérprete e, sobretudo, conforme o hábito que tenha de servir-se dele. Por outro lado, um Espírito que se comunica freqüentemente pela mesma pessoa o faz com mais facilidade do que outro que venha pela primeira vez. A emissão do pensamento pode, pois, ser entravada por uma multidão de causas; quando, porém, se trata do mesmo Espírito, o fundo do pensamento é o mesmo, embora a forma seja diferente, o que faz com que um observador atento o reconheça facilmente, mediante certos traços característicos. A propósito, relataremos o seguinte fato: O Espírito de um soberano, que no mundo representou um papel preponderante, foi evocado em uma de nossas reuniões, manifestando-se inicialmente por um ato de cólera, ao rasgar o papel e quebrar o lápis. Sua linguagem estava longe de ser benevolente, porque se sentia humilhado de comparecer entre nós, perguntando se julgávamos que devesse rebaixar-se para nos responder. Confessava, entretanto, que, se o fazia, era como que constrangido e obrigado por uma força superior à sua, mas se isso dependesse dele jamais o faria. Um dos nossos correspondentes da África, que não tinha nenhum conhecimento do fato, escreveu-nos que, numa reunião de que participara, quiseram evocar o mesmo Espírito. Sua linguagem foi idêntica em todos os pontos. Disse ele: “Acreditais que eu viria voluntariamente a esta casa de mercadores, onde talvez um dos meus criados não quisesse morar? Não vos respondo; isto me lembra meu reino, onde eu era tão feliz; tinha autoridade sobre todo o meu povo, e agora é preciso que me submeta.” O Espírito de uma rainha, que em vida não se distinguira pela bondade, respondeu no mesmo centro: “Não me interrogueis mais; aborreceis-me; se ainda tivesse o poder que detinha na Terra, eu vos faria arrepender bastante; agora, porém, zombais de mim e da minha miséria, pois já não tenho nenhum poder sobre vós. Sou muito infeliz.” Não estará aqui um curioso estudo dos costumes espíritas? Conversas Familiares de Além-Túmulo
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Mês Setembro
Ano 1859