Conhecendo o assunto somente através do relato da senhorita Clairon, só podemos julgá-lo por indução. Eis o nosso raciocínio: Esse fato, descrito em seus mínimos detalhes pela própria senhorita Clairon, tem mais autenticidade do que se tivesse sido narrado por terceiros. Acrescentemos que ao escrever a carta onde o fato está relatado, contava cerca de sessenta anos, já passada a idade da credulidade de que fala o autor da nota. Esse autor não põe em dúvida a boa-fé da senhorita Clairon a propósito de sua aventura, mas admite que ela tenha sido vítima de uma ilusão. Que o fosse uma vez, nada haveria de extraordinário; porém, que o tivesse sido durante dois anos e meio, já se nos afiguraria bem mais difícil, como mais difícil ainda é supor que essa ilusão houvesse sido compartilhada por tantas pessoas, testemunhas oculares e auriculares dos fatos, e pela própria polícia. Para nós, que conhecemos o que se passa nas manifestações espíritas, a aventura nada contém de surpreendente e a temos como provável. Nesta hipótese, não vacilamos em pensar que o autor de todos esses malefícios não seja outro senão a alma ou o Espírito do Sr. de S..., se, sobretudo, atentarmos para a coincidência de suas últimas palavras com a duração dos fenômenos. Havia ele dito: Persegui-la-ei depois de morto tanto quanto a persegui em vida. Ora, suas relações com a senhorita Clairon haviam durado dois anos e meio, ou seja, tanto tempo quanto o das manifestações que se seguiram à sua morte.
Algumas palavras ainda sobre a natureza desse Espírito.
Não era mau, e é com razão que a senhorita Clairon o qualifica como um pobre diabo; mas também não se pode dizer que fosse a própria bondade. A paixão violenta, sob a qual sucumbiu como homem, prova que nele as idéias terrestres eram dominantes. Os traços profundos dessa paixão, que sobreviveu à destruição do corpo, provam que, como Espírito, ainda se achava sob a influência da matéria. Por mais inofensiva fosse sua vingança, denota sentimentos pouco elevados.
Se, pois, quisermos reportar-nos ao nosso quadro da classificação dos Espíritos, não será difícil assinalar-lhe a classe; a ausência de maldade real naturalmente o afasta da última classe, a dos Espíritos impuros; mas, evidentemente, mantinha-se ligado a outras classes da mesma ordem; nada nele poderia justificar uma posição superior.
Uma coisa digna de nota é a sucessão dos diferentes modos pelos quais manifestava sua presença. Foi no mesmo dia e no momento exato de sua morte que ele se fez ouvir pela primeira vez, e isso em meio a um alegre jantar. Quando vivo, via a senhorita Clairon, pelo pensamento, envolvida por essa auréola que a imaginação empresta ao objeto de uma paixão ardente; mas, uma vez desembaraçada a alma de seu véu material, a ilusão cedeu à realidade. Lá está ele, a seu lado, e a vê cercada de amigos, tudo lhe excitando o ciúme; por sua jovialidade e encanto, ela parece insultar o seu desespero, que se traduz por um grito de raiva repetido todo dia à mesma hora, como se a censurasse por se haver recusado de o consolar em seus últimos momentos. Aos gritos se sucedem os tiros, inofensivos, é verdade, mas que no mínimo denotam uma raiva impotente e a intenção de perturbar seu repouso. Mais tarde, seu desespero toma um caráter mais sereno; retorna, sem dúvida, a idéias mais sadias, parecendo haver readquirido o domínio de si; restava-lhe a lembrança dos aplausos de que ela era objeto, e ele os repete.
Finalmente, diz-lhe adeus por meio de sons que lembravam o eco dessa voz melodiosa que em vida tanto o fascinara.