Quando arquitetavam projetos de casamento, depois da mais íntima ligação afetiva, a família estrangeira, animada com os sucessos de Napoleão, na Europa, deliberou o retorno à pátria. O moço pareceu desolado, mas não desacatou a ordem paterna. Despediu-se da noiva e lhe implorou guardasse a peça como lembrança, até que pudesse voltar, e serem então felizes para sempre… Contudo, distraído na França pelos encantos de outra mulher, não mais regressou… Depressa esqueceu responsabilidades e compromissos, tornando-se diferente. A pobrezinha, no entanto, fixou-se na promessa ouvida e continua a esperá-lo. O espelho é o penhor de sua felicidade. Imagino a longa viagem que terá feito no tempo, vigiando-o como sendo propriedade sua, até que a lembrança viesse por fim repousar no museu.
— O assunto, — aventei, preocupado, — compele-nos a refletir sobre as antigas histórias de joias enfeitiçadas… — Sim, sim, — ponderou o Assistente, — a influência não procede das joias, mas sim das forças que as acompanham. Hilário, que meditava a lição maduramente, considerou:
— Se alguém pudesse adquirir a peça e conduzi-la consigo… — Decerto, — atalhou o instrutor, — arcaria também com a presença da moça desencarnada.
— E isso seria justo? Áulus esboçou leve sorriso e obtemperou:
— Hilário, a vida nunca se engana. É provável que alguém apareça por aqui e se extasie à frente do objeto, disputando-lhe a posse.
— Quem?
— O moço que empenhou a palavra, provocando a fixação mental dessa pobre criatura, ou a mulher que o afastou dos compromissos assumidos. Reencarnados, hoje ou amanhã, possivelmente um dia virão até aqui, tomando-a por filha ou companheira, no resgate do débito contraído.
— Mas não podemos aceitar a hipótese de a jovem desencarnada ser atraída por algum círculo de cura, desembaraçando-se da perturbação de que é vítima?
— Sim, — concordou o orientador, — isso é também possível; entretanto, examinada a harmonia da Lei, o reencontro do trio é inevitável. Todos os problemas criados por nós não serão resolvidos senão por nós mesmos. A conversação era preciosa, contudo, a responsabilidade impelia-nos para diante. De saída, renteamos com o gabinete em que funcionava a direção da casa. Vendo duas cadeiras vagas, junto a pequena mesa de trabalho, meu colega consultou, com o evidente intuito de completar a lição:
— Creio que os móveis sob nossa vista são utilizados por auxiliares da administração do museu… Se nos sentarmos neles, poderemos entrar em relação com as pessoas que habitualmente os ocupam?
— Sim, se desejarmos esse tipo de experiência, — informou o orientador.
— E em nos referindo aos encarnados? Prosseguiu Hilário.
— Qualquer pessoa, em se servindo de objetos pertencentes a outros, tais como vestuários, leitos ou adornos, pode sentir os reflexos daqueles que os usaram?
— Perfeitamente. Contudo, para que os registrem devem ser portadores de aguçada sensibilidade psíquica. As marcas de nossa individualidade vibram onde vivemos e, por elas, provocamos o bem ou o mal naqueles que entram em contato conosco.
— E tudo o que observamos é mediunidade?!… — Sim, apesar de os fatos dessa ordem serem arrolados, por experimentadores do mundo científico, sob denominações diversas, entre elas a “criptestesia pragmática”, a “metagnomia tátil”, a “telestesia”. E, tomando-nos a dianteira para o retorno à via pública, rematou:
— Em tudo, vemos integração, afinidade, sintonia… E de uma coisa não tenhamos dúvida: através do pensamento, comungamos uns com os outros, em plena vida universal.