Capítulo 1
Estávamos num campo substancialmente terrestre. A atmosfera, impregnada de aromas que o vento espargia em torno, recordava-me o lar na Terra, contornado de seu jardim, em noite cálida. Que teria eu realizado no mundo físico se recebesse, em outro tempo, aquela bendita oportunidade de iluminação? Aquele punhado de mortais, sob os raios da Lua, afigurou-se-me assembleia de privilegiados, favorecidos por celestes numes. Milhões de homens e mulheres a dormir em cidades próximas, algemados aos interesses imediatos e ansiando a permuta das mais vis sensações, nem de longe suspeitariam a existência daquela original aglomeração de candidatos à luz íntima, convocados à preparação intensiva para incursões mais longas e eficientes na espiritualidade superior. Teriam a noção do sublime ensejo que lhes aprazia? Aproveitariam a dádiva com suficiente compreensão dos valores eternos? Marchariam desassombrados para a frente, ou estacionariam ao contato dos primeiros óbices, no esforço iluminativo? Calderaro percebeu-me as silenciosas perquirições e acrescentou: — Nossa comunidade de trabalho se dedica, essencialmente, à manutenção do equilíbrio. Não ignoras que a modificação do plano mental das criaturas ninguém jamais a impõe: é fruto de tempo, de esforço, de evolução; e o edifício da sociedade humana, em o atual momento do mundo, vem sendo abalado nos próprios alicerces, compelindo imenso número de pessoas a imprevistas renovações. Certo, não te surpreenderás se eu disser que, em face do surto da inteligência moderna, que embate na paralisia do sentimento, periclita a razão. O progresso material atordoa a alma do homem desatento. Grandes massas, há séculos, permanecem distanciadas da luz espiritual. A civilização puramente científica é um Saturno devorador, e a humanidade de agora se defronta com implacáveis exigências de acelerado crescer mental. Daí o agravo de nossas obrigações no setor da assistência. As necessidades de preparação do espírito intensificam-se em ritmo assustador. Nesse instante, alcançamos a multidão pacífica. Meu interlocutor sorriu, frisando: — O acaso não opera prodígios. Qualquer realização há que planejar, atacar, pôr a termo. Para que o homem físico se converta em homem espiritual, o milagre exige muita colaboração de nossa parte. Lançou-me olhar significativo e concluiu: — As asas sublimes da alma eterna não se expandem nos acanhados escaninhos de uma chocadeira. Há que trabalhar, brunir, sofrer. Nesse momento, aproximou-se alguém dirigindo-nos a palavra: era um solícito companheiro, informando-nos que Eusébio penetrara o recinto. Efetivamente, em saliência próxima, comparecia o missionário, ladeado por seis assessores, todos envoltos em halos de intensa luz. O abnegado orientador não exibia os traços de venerável senectude com que em geral imaginamos os apóstolos das revelações divinas; mostrava-se-nos com a figura dos homens robustos, em plena madureza espiritual; os olhos escuros e tranquilos pareciam fontes de imenso poder magnético. Contemplava-nos sorridente, qual simples colega. A presença dele impusera, porém, respeitoso silêncio. Cessaram todas as conversações que aqui e ali se entretinham, e ante os fios de luz que os trabalhadores de nosso Plano teciam em derredor, isolando-nos de qualquer assédio eventual das forças inferiores, apenas o vento calmo erguia a voz, sussurrando algo de belo e misterioso à folhagem. Sentamo-nos todos, à escuta, enquanto o Instrutor se mantinha de pé; observando-o, quase frente a frente, eu podia agora apreciar-lhe a figura majestosa, respirando segurança e beleza. Do rosto imperturbável, a bondade e a compreensão, a tolerância e a doçura irradiavam simpatia inexcedível. A túnica ampla, de tom verde-claro, emitia esmeraldinas cintilações. Aquela vigorosa personalidade infundia veneração e carinho, confiança e paz. Consolidada a quietude no ambiente, elevou a destra para o Alto e orou com inflexão comovedora: Senhor da vida, Abençoa-nos o propósito De penetrar o caminho da Luz!… Somos Teus filhos, Ainda escravos de círculos restritos, Mas a sede do Infinito Dilacera-nos os véus do ser. Herdeiros da imortalidade, Buscamos-Te as fontes eternas, Esperando, confiantes, em Tua misericórdia. De nós mesmos, Senhor, nada podemos. Sem Ti, somos frondes decepadas Que o fogo da experiência Tortura ou transforma… Unidos, no entanto, ao Teu Amor, Somos continuadores gloriosos De Tua Criação Interminável. Somos alguns milhares Neste campo terrestre; E, antes de tudo, Louvamos-Te a grandeza Que não nos oprime a pequenez… Dilata-nos a percepção diante da vida, Abre-nos os olhos Enevoados pelo sono da ilusão, Para que divisemos Tua glória sem fim!… Desperta-nos docemente o ouvido, A fim de percebermos o cântico De tua sublime eternidade. Abençoa as sementes de sabedoria Que os teus mensageiros esparziram No campo de nossas almas; Fecunda-nos o solo interior, Para que os divinos germens não pereçam. Sabemos, Pai, Que o suor do trabalho E a lágrima da redenção Constituem adubo generoso À floração de nossas sementeiras; Todavia, Sem Tua bênção, O suor enlanguesce E a lágrima desespera… Sem Tua mão compassiva, Os vermes das paixões E as tempestades de nossos vícios Podem arruinar-nos a lavoura incipiente… Acorda-nos, Senhor da Vida, Para a luz da oportunidade presente; Fortalece-nos as mãos, Para que os atritos da luta não as inutilizem; Guia-nos os pés para o supremo bem; Reveste-nos o coração Com a Tua serenidade paternal, Robustecendo-nos a resistência! Poderoso Senhor, Ampara-nos a fragilidade, Corrige-nos os erros, Esclarece-nos a ignorância, Acolhe-nos em Teu amoroso regaço. Cumpram-se, Pai Amado, Os Teus desígnios soberanos, Agora e sempre. Assim seja. Finda a comovente rogativa, o orientador baixou os olhos nevoados de pranto, e então vi, dominado de júbilo, que da incognoscível altura uma claridade diferente caía sobre nós, em jorros cristalinos. Partículas semelhantes a prata eterizada choviam no recinto, infiltrando-se nas raízes das árvores mais próximas, lá fora. Ignoto encantamento fizera-se em minhalma. Ao contato dos eflúvios divinos, reparei que minhas forças gradualmente serenavam, em receptividade maravilhosa. Em torno, pairavam as mesmas notas de alegria e de beleza, pois a calma e a ventura transpareciam de todos os rostos, voltados, extáticos, para o Instrutor, em redor do qual se mostravam mais intensas as ondas de luz celeste. Sublime felicidade inundava-me todo o ser, mergulhara-me em indefinível banho de energias renovadoras. Meus olhos foram impotentes para conter as lágrimas felizes que as formosas cintilações me destilavam das fontes ocultas do espírito. E, antes que o nobre mentor retomasse a palavra, agradeci em silêncio a resposta do Céu, reconhecendo na prece, mais uma vez, não só a manifestação da reverência religiosa, senão também o recurso de acesso aos inesgotáveis mananciais do Divino Poder.
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Nome do Capítulo Entre dois Planos