Eis agora as reflexões do autor sobre a Criação: “Todos os geólogos, todos os naturalistas estão de acordo que os dias de Deus não eram como os nossos, que são regulados pelo Sol. Com efeito, os dias de Deus na Criação não podiam ser regulados pelo Sol, porque, segundo os textos das Escrituras Sagradas, o Sol ainda não tinha sido criado, ou não aparecia; daí a palavra que nas santas escrituras, na linguagem em que estas foram escritas, tanto significa dia quanto significa tempo. Assim, o erro bem pode ser dos tradutores, que deveriam ter dito em seis tempos, em vez de em seis dias; e, depois, por que quereríamos fazer os dias de Deus tão curtos quanto os nossos, ele que é eterno?
“Não que eu queira dizer que Deus não pudesse ter criado o mundo em seis dias, cada um de vinte e quatro horas, e que cada um desses anos valesse centenas de milhares de nossos anos. Se eu quisesse entendê-lo assim, estaria em contradição comigo mesmo, porque, em meu primeiro volume, eu disse que um minuto, cem mil anos ou cem mil séculos eram a mesma coisa para Deus.
“Embora Deus só tenha disposto de um dia para cada criação indicada no Gênesis, entre cada um desses dias talvez houvesse milhões de anos e, mesmo, de séculos.
“Quando se examinam as camadas da terra e como foram formadas, chamamos essas diferentes revoluções de épocas; as provas físicas lá estão, pois esses depósitos não ocorreram em vinte e quatro horas.
“Querem tomar muito ao pé da letra as Escrituras Santas; elas são verdadeiras, mas é preciso saber compreendê-las. Não se trata de fazer como esses israelitas que se deixaram degolar, não ousando defender-se porque era dia de sábado. Se quisessem matar-me num domingo, eu não aguardaria segunda-feira para me defender. Só há sete dias na semana para nós; Deus não tem senão um dia ao todo, e esse dia não tem começo nem fim; para o nosso bem ele quer que repousemos um dia por semana, mas jamais repousa, nunca dorme e sua ação é incessante.
“Nossos dias não passam do aparecimento e do desaparecimento do outro que nos alumia; quando o Sol se deita para nós, levanta-se para outros povos; em todas as horas do dia ou da noite ele se ergue, brilha no zênite ou se deita. E quando as neves, os gelos e as geadas nos fazem ficar ao pé do fogo, há outros povos que colhem flores e frutas. E, depois, só há um mundo, só há um Sol; todas as estrelas que vemos são sóis que iluminam os mundos como o nosso, e talvez mais perfeitos que o nosso. Deus é o autor de todos esses mundos e de muitos outros que não vemos; assim, os seis dias da Criação são seis épocas que duraram mais ou menos tempo, e que foram chamados dias para se porem ao alcance de nossa maneira de ver.”
Lemos com atenção as duas brochuras do pai Chevelle, e certamente deveríamos contradizê-lo em vários pontos. Mas as citações que acabamos de fazer não provam menos idéias de alto alcance filosófico e que não são desprovidas de certo caráter de originalidade. Sua obra é uma pequena enciclopédia, porque aí ele trata um pouco de tudo, mesmo das coisas usuais. Anuncia para mais tarde um Manual do Herborista Médico, ou Tratamento das doenças pelo emprego de plantas medicinais indígenas.
De onde lhe vêm todas essas idéias? Sem dúvida ele leu: isto é evidente. Mas sua posição não lhe permitia ler muito e, aliás, precisava de uma aptidão especial para aproveitar essas leituras e tratar de assuntos tão abstratos. Viram-se poetas naturais saindo da classe operária, mas é mais raro ver saírem metafísicos sem estudos prévios, e ainda menos da classe dos cultivadores. O pai Chevelle apresenta, no seu gênero, um fenômeno análogo ao desses pastores calculistas, que confundiram a Ciência. Não está aí um sério assunto de estudo? São fatos. Ora, como todo efeito tem uma causa, os sábios procuraram esta causa? Não, porque teria sido preciso sondar as profundezas da alma. E os filósofos espiritualistas?
Faltava-lhes a chave, única que lhes podia dar a solução.
A esta questão o cepticismo responde: Bizarria da Natureza; resultado da organização cerebral. O Espiritismo diz: Inteligências largamente desenvolvidas em existências anteriores e que, nada tendo perdido do que haviam adquirido, se refletem na existência atual, servindo tal aquisição de base para novas aquisições.
Mas por que essas inteligências, que deveriam ter brilhado numa esfera social elevada, estão hoje relegadas às classes mais inferiores? Outro problema não menos insolúvel sem a chave fornecida pelo Espiritismo. Diz este: provas ou expiações voluntárias escolhidas por essas mesmas inteligências que, em vista de seu adiantamento moral, quiseram nascer num meio ínfimo, fosse por humildade, fosse para adquirir conhecimentos práticos que lhes serão aproveitados em outra existência. A Providência permite que assim seja para sua própria instrução e para a dos homens, pondo estes no caminho da origem das faculdades pela pluralidade das existências.
Tendo sido referidos na Sociedade Espírita de Paris, estes fatos ensejaram a seguinte comunicação: (Sociedade de Paris, 10 de novembro de 1865 – Médium: Sra. Breul) Meus caros amigos, na leitura feita por vosso presidente, de diversos fatos relatados por vosso irmão Delanne, vistes que um notável trabalho filosófico foi dado a lume por um simples camponês dos Vosges. Não é aqui o lugar para constatar quantos prodígios se realizam neste momento, a fim de chocar os incrédulos e os sábios do mundo? para confundir esses homens que julgam ter o monopólio da Ciência, e nada querem admitir fora de suas concepções mesquinhas, limitadas pela matéria?
Sim, neste tempo de preparação para a renovação humanitária que os Espíritos do Senhor devem realizar, pode-se reconhecer cada vez mais a verdade destas palavras do Cristo, que os homens pouco compreenderam: “Graças te dou, meu Pai, Senhor do céu e da terra, por haveres ocultado estas coisas aos sábios e aos poderosos e por as teres revelado aos pequeninos.” 33 Quando digo sábios, não falo desses homens modestos que, infatigáveis pioneiros da Ciência, fazem a Humanidade avançar, descobrindo-lhe as maravilhas que revelam a bondade e o poder do Criador; mas dos que, enfatuados de seu saber, crêem com muito gosto que não pode existir aquilo que eles não descobriram, patrocinaram e publicaram. Esses serão castigados em seu orgulho, e Deus já permite que sejam confundidos pela superioridade dos trabalhos intelectuais, que saem da pena de homens que estão longe de usar o barrete de doutor.
Como ao tempo do Cristo, que quis honrar e resgatar o trabalhador, escolhendo nascer entre artesãos, os anjos do Senhor agora recrutam seus auxiliares entre os corações simples e honestos, entre homens de boa vontade que exercem as mais humildes profissões.
Compreendei, pois, amigos, que o orgulho é o maior inimigo do vosso adiantamento, e que a humildade e a caridade são as únicas virtudes que agradam a Deus e atraem para o homem esses divinos eflúvios que o ajudam a progredir e dele o fazem aproximar.
Luís de França