Forçoso é, pois, confessar que a sua existência, ou melhor, a sua realidade, não depende essencialmente do organismo e que, desde então, elas procedem de um princípio diverso dele, independente dele, podendo funcionar sem ele e fora dele.
“Eis, pois, a realidade da alma rigorosamente demonstrada, incontestavelmente estabelecida, sem que nenhuma observação fisiológica a possa prejudicar. Podemos ver sair desta conclusão, como que jactos de luz clareando horizontes longínquos, que, entretanto, não abordaremos, porque esse gênero de estudos escapa do quadro que nos traçamos.
“O ponto de vista psicológico, sob o qual acabamos de apresentar os efeitos das substâncias anestésicas sobre a economia animal, e as conseqüências que daí deduzimos em favor da realidade da existência da alma, devem sugerir a esperança de que um método semelhante, aplicado ao estudo de outros fenômenos análogos da vida, poderia conduzir ao mesmo resultado.
“Nenhuma dedução seria mais justa, porque os efeitos fisiológicos e psicológicos que se mostram durante a embriaguez alcoólica, o delírio patológico, o sono natural e magnético, o êxtase e mesmo a loucura, oferecem a maior semelhança, em muitos pontos, com os efeitos das substâncias anestésicas que acabamos de estudar nesta obra. Uma tal concordância de diversos fenômenos, procedendo de causas diferentes, em favor de uma conclusão idêntica, não nos deve surpreender. Ela não é senão a conseqüência do que temos provado: a realidade da existência de uma essência distinta da matéria no organismo humano, e à qual são devolvidas as funções intelectuais que, sozinha, a matéria jamais poderia preencher.
“Seria aqui o lugar de examinar uma outra questão, de fazer uma incursão no domínio do magnetismo animal, que sustenta a permanência das faculdades sensoriais fora dos sentidos, isto é, da visão, da audição, do gosto, do olfato, durante a paralisia completa dos órgãos que, em estado normal, proporcionam essas impressões. Mas esta doutrina, cuja verdade não queremos contestar nem sustentar, não é admitida pela ciência fisiológica, o que é suficiente para que a eliminemos de nossas pesquisas atuais.”
Este último parágrafo prova que o autor fez, para a demonstração da alma, o que o Sr. Flammarion fez para a de Deus, isto é, que ele se colocou no próprio terreno da ciência experimental e que quis tirar só dos fatos oficialmente reconhecidos, a prova de sua tese. Ele nos promete outra obra, que não pode deixar de ter grande interesse, na qual serão estudados, do mesmo ponto de vista, os diversos fenômenos que apenas menciona, pois se limitou aos da anestesia pelo clorofórmio.
Certamente esta prova não é necessária para firmar a convicção dos espíritas, nem dos espiritualistas; mas, depois de Deus, sendo a existência da alma a base fundamental do Espiritismo, devemos considerar como eminentemente útil à Doutrina toda obra que tenda a lhe demonstrar os princípios fundamentais. Ora, a ação da alma, abstração feita do organismo, uma vez provada, é um ponto de partida que, como a pluralidade das existências e o perispírito, pouco a pouco e por dedução lógica, conduz a todas as conseqüências do Espiritismo.
Com efeito, o exemplo referido acima é do mais puro Espiritismo, do qual o Sr. Velpeau nem o suspeitava quando o publicou; e se tivéssemos podido citar todos, ver-se-ia que os fenômenos anestésicos não só provam a realidade da alma, mas a do Espiritismo.
É assim que tudo concorre, como foi anunciado, para abrir o caminho da doutrina nova; a ela se chega por uma porção de saídas, convergindo todas para um centro comum, e muita gente a ela traz a sua pedra, uns conscientemente, outros sem se darem conta.
A obra do Sr. Ramon de la Sagra é uma dessas cuja publicação temos o prazer de aplaudir, porque, não obstante nela se tenha feito abstração do Espiritismo, podemos considerá-las – como o Deus na Natureza, do Sr. Flammarion, e a Pluralidade das Existências, do Sr. Pezzani – como monografias dos princípios fundamentais da Doutrina, às quais eles dão a autoridade da Ciência.
Allan Kardec