Capítulo 6
Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é inexorável de forma alguma, nem tão complacente a ponto de deixar impunes todas as faltas; ao contrário, leva em conta rigorosamente o bem e o mal, recompensando um e punindo o outro equitativa e proporcionalmente, sem se enganar jamais na sua aplicação. Se, por uma falta passageira, resultante sempre da natureza imperfeita do homem e muitas vezes do meio em que vive, a alma pode ser punida eternamente, sem esperança de clemência ou de perdão, não há proporção entre a falta e o castigo e, portanto, não há justiça. Reconciliando-se com Deus, arrependendo-se e pedindo para reparar o mal praticado, o culpado estará retornando ao bem, aos bons sentimentos. Se, porém, o castigo é irrevogável, esse retorno ao bem em nada lhe aproveita, e um bem não considerado significa injustiça. Entre os homens, o condenado que se corrige tem a pena comutada e, algumas vezes, até perdoada. Não haveria, nesse caso, mais equidade na justiça humana do que na divina? Se a condenação é irrevogável, o arrependimento é inútil. Nada tendo de esperar do seu retorno ao bem, o culpado persiste no mal, de modo que Deus não só o condena a sofrer perpetuamente, mas ainda a permanecer no mal por toda a eternidade. Nisso não há nem bondade nem justiça.
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Doutrina das penas eternas
Tema Argumentos a favor das penas eternas
Item 13