Durante a vida, quando se considera a dificuldade da reabilitação do mais arrependido dos culpados, da reprovação de que é objeto, deve-se agradecer a Deus por ter lançado um véu sobre o passado. Se Latour tivesse sido condenado em tempo hábil, e mesmo se tivesse sido absolvido, seus antecedentes levariam a sociedade a rejeitá-lo. A despeito do seu arrependimento quem o teria admitido na intimidade? Os sentimentos que hoje manifesta como Espírito nos fazem esperar que, na próxima existência terrena, será um homem de bem, estimado e considerado. Mas suponde que se saiba quem foi Latour: a reprovação ainda o perseguirá. O véu lançado sobre o passado abre-lhe a porta da reabilitação; poderá sentar-se sem temor e sem desonra entre as mais distintas pessoas. Quantos não gostariam, fosse qual fosse o preço, de apagar da memória dos homens certos anos de sua existência!
Que se encontre, então, uma doutrina que melhor se concilie com a justiça e a bondade de Deus! Aliás, esta doutrina não é uma teoria, mas um resultado da observação. Não foram os espíritas que a imaginaram; eles viram e observaram as diversas situações em que se apresentam os Espíritos; procuraram a sua explicação, da qual saiu a doutrina. Se a aceitaram é porque ela resulta dos fatos e lhes pareceu mais racional que todas as concebidas até hoje sobre o futuro da alma.
Latour foi evocado muitas vezes, o que era muito natural. Mas, como sucede em casos semelhantes, houve muitas comunicações apócrifas, e os Espíritos levianos não perderam essa ocasião. A própria situação de Latour se opunha a que se pudesse manifestar quase simultaneamente em tantos pontos ao mesmo tempo. Tal ubiqüidade só é privilégio dos Espíritos superiores.
As comunicações que referimos são mais autênticas?
Pensamos que sim e o desejamos, sobretudo para o bem desse Espírito. Em falta dessas provas materiais, que constatam a identidade de modo absoluto, como muitas vezes são obtidas, pelo menos temos provas morais, que tanto resultam das circunstâncias em que ocorrem as manifestações, quanto da concordância. Sobre as comunicações que conhecemos, oriundas de fontes diversas, pelo menos três quartas partes concordam quanto ao fundo; entre as outras algumas não resistem a um exame, tão evidente é o erro de situação, em flagrante contradição com o que nos ensina a experiência sobre o estado dos Espíritos no mundo espiritual.
Seja como for, não se pode recusar àquelas que citamos um alto ensino moral. O Espírito pode ter sido, deve mesmo ter sido ajudado em suas reflexões e, sobretudo, na escolha das expressões, por Espíritos mais adiantados. Mas, em casos semelhantes, estes últimos só assistem na forma, e não no fundo, e jamais põem o Espírito inferior em contradição consigo mesmo.
Em Latour puderam poetizar a forma do arrependimento, mas não o teriam levado a exprimir o arrependimento contra a sua vontade, porque o Espírito tem o seu livre-arbítrio; nele viam o germe dos bons sentimentos, razão por que o ajudaram a exprimi-los, contribuindo, dessa maneira, para desenvolvê-los, ao mesmo tempo que para ele atraíram a comiseração.
Há algo de mais comovente, de mais moral, susceptível de impressionar mais vivamente, do que o quadro desse grande criminoso arrependido, a manifestar desespero e remorso? que, em meio às torturas, perseguido pelo olhar incessante de suas vítimas, eleva o pensamento a Deus para implorar misericórdia? Não está aí um salutar exemplo para os culpados? Tudo é sensato em suas palavras; tudo é natural em sua situação, enquanto a que lhe é atribuída por certas comunicações é ridícula. Compreende-se a natureza de suas angústias; elas são racionais, terríveis, embora simples e sem encenação fantasmagórica. Por que se não teria arrependido? Por que não haveria nele uma corda sensível e vibrante? Está precisamente aí o lado moral de suas comunicações; é a inteligência que tem da situação; são os pesares, as resoluções, os projetos de reparação que são eminentemente instrutivos. Que haveria de extraordinário no fato de ter-se arrependido sinceramente antes de morrer? que tivesse dito antes o que dissera depois?
Aos olhos da maioria de seus semelhantes, um retorno ao bem antes de sua morte teria passado por uma fraqueza. Sua voz de além-túmulo é a revelação do futuro que os aguarda. Está absolutamente certo quando diz que o seu exemplo é mais adequado a reconduzir os culpados que as perspectiva das chamas do inferno e, mesmo, o patíbulo. Por que, então, não o daria nas prisões? Isto levaria mais de um a refletir, conforme temos vários exemplos. Como, porém, acreditar nas palavras de um morto, quando se crê que, após a morte, tudo está acabado? Contudo, dia virá em que se reconhecerá esta verdade: que os mortos podem vir e instruir os vivos.