Entre os internos do Hospital Necker, no serviço do Dr. Follin, achava-se uma pobre mulher de 24 anos, vitimada por extensa queimadura nas costas e nos dois membros direitos e por um enorme abscesso, extremamente doloroso. Os menores movimentos lhe eram um suplício. Esgotada pelo sofrimento e, ademais, muito pusilânime, essa infeliz pensava com terror na operação que se fazia necessária. Foi nela que, de acordo com o Dr.
Follin, o Dr. Broca resolveu completar a prova do hipnotismo.
Colocaram-na sobre um leito em frente à janela, prevenindo-a de que iam fazê-la dormir. Ao cabo de dois minutos suas pupilas se dilatam; levantado quase verticalmente acima do leito, seu braço esquerdo fica imóvel. Ao quarto minuto suas respostas são lentas e quase penosas, mas perfeitamente sensatas.
Quinto minuto: O Dr. Follin espeta a pele do braço esquerdo e a doente nem sequer se mexe; nova espetadela mais profunda, que produz sangramento, e a mesma impassibilidade. Erguem o braço direito, que fica no ar. Então as cobertas são levantadas e afastados os membros inferiores para pôr à mostra a sede do abscesso. A doente não esboça reação e disse com tranqüilidade que, sem dúvida irão prejudicá-la. Ao ser aberto o abscesso, um fraco grito foi o único sinal de reação de sua parte, e durou menos de um segundo. Nem o menor tremor nos músculos da face ou dos membros, nem um só estremecimento nos braços, sempre elevados verticalmente acima do leito. Um pouco injetados, os olhos estavam largamente abertos; o rosto tinha a imobilidade de uma máscara...
Levantado, o pé esquerdo mantém-se suspenso. Tiram o corpo brilhante (uma luneta): a catalepsia persiste. Pela terceira vez picam o braço esquerdo, o sangue goteja e a operada nada sente. Há treze minutos que o braço guarda a posição que lhe foi dada.
Enfim, uma fricção nos olhos, uma insuflação de ar fresco despertam a jovem senhora quase subitamente; relaxados, os braços e a perna esquerda caem de repente na cama. Ela esfrega os olhos, readquire a consciência, de nada se lembra e surpreende-se de que a tenham operado. A experiência havia durado dezoito a vinte minutos; o período de anestesia, de doze a quinze.
Tais são, em resumo, os fatos essenciais comunicados pelo Sr. Broca à Academia das Ciências. Já não são mais isolados.
Grande número de cirurgiões de nossos hospitais teve a honra de os repetir, e o fizeram com sucesso. O objetivo do Dr. Broca e de seus distintos colegas era e deveria ser cirúrgico. Esperemos tenha o hipnotismo, como meio de provocar a insensibilidade, todas as vantagens dos agentes anestésicos, sem deles guardar os inconvenientes. Mas a Medicina não é de nossa alçada e, para não sair de suas atribuições, nossa Revista não deve considerar o fato senão sob o ponto de vista fisiológico.
Depois de haver reconhecido a veracidade do Dr. Braid sobre o ponto essencial, sem dúvida ter-se-á que verificar tudo que respeita a este estado singular, ao qual ele dá o nome de hipnotismo. Os fenômenos que ele lhe atribui podem ser classificados da seguinte maneira: Exaltação da sensibilidade – O olfato é levado a um grau de acuidade que no mínimo se iguala ao observado nos animais de melhor faro. A audição torna-se igualmente muito penetrante. O tato adquire, sobretudo em relação à temperatura, uma incrível delicadeza.
Sentimentos sugeridos – Ponde o rosto, o corpo ou os membros do paciente na atitude que convém à expressão de um sentimento particular e logo o estado mental correspondente é despertado. Assim, colocando-se a mão do hipnotizado sobre sua cabeça, ele se endireita espontaneamente, inclinando para trás; seu porte é o do mais vivo orgulho. Se nesse momento se lhe curvar para frente a cabeça, fletindo levemente o corpo e os membros, o orgulho dará lugar à mais profunda humildade. Afastando delicadamente os cantos da boca, como no riso, logo se produz uma tendência alegre; o mau humor entra em campo imediatamente quando se faz as sobrancelhas convergirem para baixo.
Idéias provocadas – Levantai a mão do paciente acima da cabeça e fleti os dedos sobre a palma: logo é suscitada a idéia de subir, de se balançar ou puxar uma corda. Se, ao contrário, forem os dedos fletidos, deixando o braço pendente, provoca-se a idéia de levantar um peso. Se os dedos forem fletidos e o braço levado à frente, como para dar um soco, surge a idéia de lutar box. (A cena se passa em Londres.)
Incremento da força muscular – Se se quiser suscitar uma força extraordinária num grupo de músculos, basta sugerir ao paciente a idéia da ação que reclama essa força e assegurar-lhe que o pode realizar com a maior facilidade, caso queira. Diz o Dr.
Carpenter: “Vimos um dos pacientes hipnotizados pelo Dr. Braid, notável pela pobreza de seu desenvolvimento muscular, levantar, com o auxílio de seu dedo mínimo, um peso de quatorze quilos e fazê-lo girar em volta da cabeça, com a única garantia de que o peso era tão leve como uma pluma.”
Limitamo-nos, por hoje, à indicação deste programa.
Aos fatos a palavra; as reflexões virão mais tarde.