III – Cismas
O perfume que se exala de todos os bons sentimentos é uma prece constante que se eleva a Deus, e todas as boas ações são ações de graças ao Eterno. Sra. Victor Hugo A dedicação pelo reconhecimento é um impulso do coração; o devotamento pelo amor é um impulso da alma. Sra. Dauban O reconhecimento é um benefício que recompensa aquele que o merece. A gratidão é um ato do coração que dá, ao mesmo tempo, o prazer do bem àquele a quem se deve ser reconhecido e àquele que o é. Vézy A ingratidão é punida como ação má pelo abandono de que é objeto, como a gratidão é recompensada pela alegria que proporciona. Leclerc O dever da mulher é trazer ao homem todas as consolações e os encorajamentos necessários à sua vida de vicissitudes e penosos trabalhos. A mulher deve ser o seu sustentáculo, o seu guia, o facho que ilumina o seu caminho e deve impedi-lo de falir; se faltar à sua missão será punida; mas se, apesar do seu devotamento, o homem repele os impulsos de seu coração, ela é duplamente recompensada por ter persistido no cumprimento de seus deveres. Delfina de Girardin A dúvida é o veneno lento que a alma faz a matéria absorver e da qual recebe o primeiro castigo. A dúvida é o suicídio da alma, que leva imediatamente à morte do corpo. – Uma alma suicidar-se é difícil de compreender; mas não é morrer o viver na sombra, quando se sente a luz em volta de si? Afastai, pois, do vosso Espírito, o véu que vos oculta os esplendores da vida, e vede esses sóis radiantes que vos dão o dia: aí está a verdadeira luz; aí está o objetivo a que deveis chegar pela fé. Jobard O egoísmo é a paralisação de todos os bons sentimentos. O egoísmo é a deformidade da alma, que trespassa a matéria, fazendo-vos amar tudo o que a ela se dirige e repelir tudo o que se dirige aos outros. O egoísmo é a negação da sublime sentença do Cristo, sentença alterada ignominiosamente: “Fazei aos outros o que gostaríeis que vos fizessem.” Plácido A susceptibilidade, eis o defeito para uso de todos, e cada um – não digais o contrário – dele está um pouco carregado. Irra! se soubésseis quanto é ridículo ser susceptível e quanto esse defeito se torna desagradável, eu vos asseguro que ninguém mais queria ser por ele atingido, porque se gosta de ser belo. Gay O orgulho é o guarda-chuva social de todos e que cada um rejeita sobre o gracioso amor-próprio; certo! é preciso ter amor-próprio e orgulho, é o que dá a ambição do bem (sem jogo de palavras), mas demasiado, isto estraga o Espírito e corrompe o coração. Mangin A ambição, ele acaba de dizer! mas sabeis qual a ambição que não impede a alma de elevar-se para os esplendores do infinito? Pois bem! é a que vos leva a fazer o bem. Todas as outras ambições vos levam ao orgulho e ao egoísmo, flagelos da Humanidade. Bonnefon Meus caros amigos, os Espíritos que acabam de vos falar, não só estavam felizes por manifestarem sua presença, mas têm a alegria de pensar que cada um de vós se esforçará para se corrigir e pôr em prática as sábias lições que vos deram e as que vos trazem em cada uma de vossas sessões. Crede, os Espíritos são para vós o que vossos pais foram ou deveriam ter sido. Eles vos admoestam, aconselhando e vos ajudando; e quando não os escutais, dizem que vos abandonam; revoltam-se contra vós; depois, tão logo vos falaram duramente, voltam a vós para vos encorajar, e se esforçam para impelir constantemente os vossos pensamentos para o bem. Sim, os Espíritos vos amam como o bom pai ama a seus filhos; compadecem-se de vós, cuidam de vossos dias e afastam de vós todo mal que vos pode acontecer, como a mãe cerca o filho de todos os cuidados mais delicados, de todas as atenções necessárias à sua fragilidade. Deus lhes deu uma missão; deu-lhes a coragem para a cumprir e nenhum desses Espíritos bons, seja qual for o seu grau na hierarquia espiritual, falhará na sua tarefa; compreendem, sentem, vêem esses esplendores divinos que devem ser a sua recompensa; vão adiante e queriam vos levar em sua companhia, vos impelir à frente deles, se o pudessem. Eis por que vos admoestam, eis por que vos aconselham. Por vossa vez, orai por eles, a fim de que a vossa indocilidade não os impeça de continuar seus benefícios por vós, e que Deus continue a lhes dar a força de vos ajudar. São Luís (Médium: Sr. Bertrand) Constituição Transitória do Espiritismo61 I CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES O Espiritismo teve, como todas as coisas, o seu período de gestação e, enquanto todas as questões, principais e acessórias, que dele derivam não se acharem resolvidas, somente pode dar resultados incompletos. Entreviu-se-lhe a finalidade, pressentiram-se-lhe as conseqüências, mas apenas de modo vago. Da incerteza sobre pontos ainda não determinados haviam forçosamente de nascer divergências sobre a maneira de os considerar; a unificação tinha que ser obra do tempo e se efetuou gradualmente à medida que os princípios se foram elucidando. Unicamente quando tiver desenvolvido todas as partes em que se desdobra é que a Doutrina formará um todo harmônico e só então se poderá julgar do que é o Espiritismo. Enquanto ele não passava de uma opinião filosófica, não podia contar, da parte de seus adeptos, senão com a simpatia natural que a comunhão de idéias produz; nenhum laço sério podia existir entre eles, por falta de um programa claramente traçado. Esta, evidentemente, a causa fundamental da débil coesão e da instabilidade dos grupos e sociedades que logo se formaram. Por isso mesmo, constantemente procuramos, e com todas as nossas forças, afastar os espíritas do propósito de fundarem prematuramente qualquer instituição especial com base na Doutrina, antes que esta assentasse em alicerces sólidos. Fora se exporem a fracassos inevitáveis, cujo efeito teria sido desastroso, pela impressão que produziriam no público e pelo desânimo em que lançariam os adeptos. Semelhantes fracassos talvez retardassem de um século o progresso definitivo da Doutrina, a cuja impotência se imputaria um insucesso devido, na realidade, à imprevidência. Por não saberem esperar, a fim de chegarem no momento exato, os muito apressados e os impacientes, em todos os tempos, hão comprometido as melhores causas.62 Não se deve pedir às coisas senão o que elas podem dar, à medida que se vão pondo em estado de produzir. Não se pode exigir de uma criança o que se pode esperar de um adulto, nem de uma árvore que acaba de ser plantada o que ela dará quando estiver em toda a sua pujança. O Espiritismo, em via de elaboração, somente resultados individuais podia dar; os resultados coletivos e gerais serão fruto do Espiritismo completo, que sucessivamente se desenvolverá. Se bem não haja ele dito ainda sua última palavra sobre todos os pontos, aproxima-se do seu complemento e soou a hora de se lhe oferecer uma base forte e durável, susceptível, contudo, de receber todos os desenvolvimentos que as circunstâncias ulteriores comportem e que ofereça toda a segurança aos que inquiram quem, depois de nós, lhe tomará as rédeas. A Doutrina é, sem dúvida, imperecível, porque repousa nas leis da Natureza e porque, melhor do que qualquer outra, corresponde às legítimas aspirações dos homens. Entretanto, a sua difusão e a sua instalação definitiva podem ser adiantadas ou retardadas por circunstâncias várias, algumas das quais subordinadas à marcha geral das coisas, outras inerentes à própria doutrina, à sua constituição e à sua organização. É destas que nos vamos ocupar especialmente neste momento. Conquanto a questão de substância seja preponderante em tudo e acabe sempre por prevalecer, a questão de forma tem aqui importância capital; poderia mesmo sobrepujar momentaneamente e suscitar embaraços e atrasos, conforme a maneira por que fosse resolvida. Houvéramos, pois, feito coisa incompleta e deixado grandes dificuldades para o futuro, se não prevíssemos as que podem surgir. Com o intuito de evitá-las foi que, com o concurso dos Espíritos bons que nos assistem em nossos trabalhos, elaboramos um plano de organização, pondo em jogo a experiência do passado, a fim de evitar os escolhos contra os quais se chocaram a maioria das doutrinas que apareceram no mundo. Podendo este plano prestar-se a todos os desenvolvimentos que reserva o futuro, demos, por isto mesmo, a esta constituição a qualificação de transitória. O plano aqui exposto concebemo-lo há longo tempo, porque sempre nos preocupamos com o futuro do Espiritismo, é certo, mas o bastante para mostrar que não é esta, hoje, uma concepção nova e que, trabalhando na parte teórica da obra, não nos descuidávamos do lado prático. Antes de abordar a fundo a questão, parece-nos útil lembrar algumas passagens do relatório que apresentamos à Sociedade de Paris, no dia 5 de maio de 1865, a propósito da caixa do Espiritismo, e que foi publicado na Revista de junho de 1865. As considerações que ele encerra se ligam diretamente ao nosso assunto, do qual elas são as preliminares indispensáveis.
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Mês Dezembro
Ano 1868