Visitante: — Certas pessoas encaram as idéias espíritas como capazes de perturbar as faculdades mentais, e, por essa razão, acham que a propagação de tais idéias deve ser impedida.
A.K.: — O senhor conhece o provérbio: “quando se quer matar um cachorro, diz-se que ele está raivoso”, portanto, não é de admirar que os inimigos do Espiritismo busquem se apoiar em todos os pretextos. Esse lhes pareceu próprio para despertar receios e suscetibilidades, então o aproveitaram com desvelo, mas ele desaparece diante do mais ligeiro exame. Escute, pois, sobre essa loucura, o raciocínio de um louco.
Todas as grandes preocupações do espírito podem ocasionar a loucura; as ciências, as artes, a própria religião fornecem seu contingente. A loucura tem por princípio um estado patológico do cérebro, instrumento do pensamento; o instrumento estando desorganizado, o pensamento fica alterado. Portanto, a loucura é um efeito consecutivo, cuja origem é uma predisposição orgânica que torna o cérebro mais ou menos acessível a certas impressões; e isso é tão verdadeiro que se vêem pessoas que pensam de forma excessiva e, no entanto, não se tornam loucas, enquanto outras enlouquecem sob o efeito da menor sobre excitação.(36)
Quando existe uma predisposição para a loucura, ela toma o caráter de preocupação principal, que se torna, então, uma idéia fixa. Essa idéia fixa poderá ser a dos espíritos naquela pessoa que ocupou seus pensamentos com eles de uma forma exagerada, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma ciência, da maternidade, de um sistema político ou social. É provável que o louco religioso se tornasse um louco espírita, se o Espiritismo fosse a preocupação que o dominasse.
É verdade que um jornal afirmou que, em uma única localidade da América, da qual não me lembro mais o nome, contavam-se quatro mil casos de loucura espírita; mas sabe-se que, entre nossos adversários, existe a idéia fixa de se acreditarem os únicos dotados de razão, e essa é uma mania como outra qualquer. Aos seus olhos nós somos todos dignos de um manicômio e, conseqüentemente, os quatro mil espíritas da localidade em questão deviam ser o mesmo que loucos. Iguais a esses, os Estados Unidos têm centenas de milhares, e todos os outros países do mundo um número bem maior. Essa brincadeira de mau gosto começa a se desprestigiar desde que se vê essa loucura alcançar as classes mais elevadas da sociedade.
Fez-se grande alvoroço em torno de um exemplo conhecido, o de Victor Hennequin,(37) mas se esquecem de que, antes de se ocupar com os espíritos, ele já havia dado provas de excentricidade nas suas idéias; se não aparecessem as mesas girantes, que, segundo um jogo de palavras bem espirituoso dos nossos adversários, lhe fizeram girar a cabeça, sua loucura teria tomado um outro caminho.
Portanto, eu afirmo que o Espiritismo não tem relação alguma com esse fato, e vou mais além, digo que bem compreendido ele é um preventivo contra a loucura e o suicídio.
Entre as causas mais numerosas de superexcitação cerebral, é preciso incluir as decepções, os infortúnios, as afeições contrariadas, que são, ao mesmo tempo, as causas mais freqüentes de suicídio. Ora, o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado que as atribulações não são para ele mais que incidentes desagradáveis de uma viagem. O que, em outra pessoa, produziria uma violenta emoção, afeta-o de uma forma comum. Aliás, ele sabe que os sofrimentos da vida são as provas que servem para o seu adiantamento, se as sofrer sem reclamar, porque ele será recompensado segundo a coragem com a qual ele as tiver suportado.
Suas convicções lhe dão uma resignação que o preserva do desespero, e, por conseqüência, de uma causa incessante de loucura e suicídio. Ele sabe, além disso, pelo que pode constatar nas comunicações com os espíritos, o destino deplorável daqueles que abreviam voluntariamente os seus dias, e esse quadro é bem próprio para fazê-lo refletir; também é considerável o número daqueles que foram detidos nessa inclinação funesta. Esse é um dos resultados do Espiritismo.
No número das causas da loucura, ainda é preciso colocar o medo, e o medo do diabo tem transtornado a razão de muitas pessoas. Sabe-se o número de vítimas que se tem feito, impressionando imaginações fracas com esse quadro que se esforçam em tornar mais assustador com detalhes hediondos? O diabo, dizem, só amedronta às crianças, é um freio para torná-las bem comportadas, assim como o “bicho-papão” e o “lobisomem”, e quando elas não mais sentem medo, ficam piores do que antes; porém, para esse belo resultado, ou seja, uma criança comportada, não se tem conta do número de epilepsias causadas pela perturbação de um cérebro delicado diante do medo.
É preciso não confundir a loucura patológica com a obsessão, que não vem de nenhuma lesão cerebral, mas da subjugação que os espíritos malignos exercem sobre certos indivíduos. Às vezes, essa subjugação tem as aparências da loucura propriamente dita. Essa afecção, que é muito freqüente, é independente de qualquer crença no Espiritismo e existiu em todos os tempos. Nesse caso, a medicação comum é impotente e mesmo nociva.
O Espiritismo, fazendo conhecer esta nova causa de perturbação do organismo, dá, ao mesmo tempo, o único meio de vencê-la, atuando, não sobre o doente, mas sobre o espírito obsessor. O Espiritismo é o remédio e não a causa do mal.