À exceção dos eruditos, Apolônio de Tiana quase que só é conhecido de nome. O seu nome não é popular, por falta de uma história ao alcance de todos. Só havia algumas traduções, baseadas numa tradução latina de formato incômodo. Devemos, pois, agradecer ao sábio helenista que acaba de popularizá-lo por meio de uma tradução conscienciosa, calcada no texto original grego, bem assim aos editores, por terem, com esta publicação, preenchido lamentável lacuna45.
Não há datas precisas sobre a vida de Apolônio.
Conforme certos cálculos, teria nascido dois ou três anos antes de Jesus Cristo e morrido aos noventa e seis anos, pelos fins do primeiro século. Nasceu em Tiana, cidade grega da Capadócia, na Ásia Menor. Desde cedo deu provas de grande memória e notável inteligência, demonstrando grande entusiasmo pelo estudo. De todas as filosofias que estudou, adotou a de Pitágoras, cujos preceitos seguiu rigorosamente até a morte. Seu pai, um dos mais ricos cidadãos de Tiana, deixou-lhe uma fortuna considerável, que ele repartiu com os parentes, reservando apenas uma pequena parte para si, porque, como dizia, o sábio deve saber contentar-se com pouco. Viajou muito para se instruir; percorreu a Assíria, a Cítia, a Índia, onde visitou os Brâmanes, o Egito, a Grécia, a Itália e a Espanha, ensinando por toda parte a sabedoria, graças à doçura do seu caráter e à honradez de suas virtudes, recrutando numerosos discípulos que lhe seguiam os passos a fim de ouvi-lo, alguns dos quais o acompanharam em suas viagens. Um deles, porém – Eufrates – invejoso de sua superioridade e de sua boa reputação, tornou-se seu detrator e mortal inimigo, não cessando de espalhar calúnias contra ele para o perder; mas apenas conseguiu aviltar-se.
Apolônio jamais se inquietou e, longe de lhe guardar qualquer ressentimento, lamentava-o por sua fraqueza e sempre procurava retribuir-lhe o mal com o bem. Ao contrário, Damis, jovem assírio que ele conheceu em Nínive, a ele se ligou com uma fidelidade a toda prova, foi o companheiro assíduo de suas viagens, o depositário de sua filosofia e deixou sobre ele a maior parte das informações que possuímos.
O nome de Apolônio de Tiana está misturado ao de todas as personagens lendárias que a imaginação dos homens se deleitou em revestir de atributos maravilhosos. Seja qual for o exagero dos fatos a ele atribuídos, é evidente que, ao lado das fábulas, encontra-se um fundo de verdades mais ou menos adulteradas. Ninguém poderia com segurança pôr em dúvida a existência de Apolônio de Tiana; o que é igualmente certo é que deve ter feito coisas notáveis, sem o que delas não teriam falado.
Para que a imperatriz Júlia Domna, esposa de Séptimo-Severo, tivesse pedido a Filostrato que escrevesse sua vida, fora necessário que ele tivesse dado o que falar, pois não é provável que ela tivesse encomendado um romance sobre um homem imaginário ou obscuro. Que Filostrato tivesse amplificado os fatos, ou que os tivesse achado amplificados, é provável e mesmo certo; pelo menos alguns deles estão fora de qualquer probabilidade. Mas o que não é menos certo é que colheu a essência de sua narrativa em relatos quase contemporâneos e que deviam gozar de suficiente notoriedade para merecerem a atenção da imperatriz. Às vezes a dificuldade está em deslindar a fábula da verdade. Neste caso há criaturas que acham mais simples negar tudo.
As personagens desta natureza são apreciadas muito diversamente; cada um as julga conforme suas opiniões, suas crenças e, mesmo, conforme seus interesses. Mais que qualquer outro, Apolônio de Tiana devia dar motivo para controvérsia, pela época em que viveu e pela natureza de suas faculdades. Entre outras coisas lhe atribuem o dom de curar, a presciência, a visão a distância, o poder de ler o pensamento, expulsar os demônios e de se transportar instantaneamente de um lugar para outro, etc. Poucos filósofos gozaram em vida de maior popularidade. Seu prestígio ainda era aumentado pela austeridade de seus hábitos, pela sua doçura, simplicidade, desinteresse, caráter benevolente e reputação de saber. O paganismo deitava, então, os seus últimos lampejos, e se debatia contra a invasão do Cristianismo nascente: quis transformá-lo num Deus. Misturando idéias cristãs a idéias pagãs, alguns o tomaram por um santo; os menos fanáticos não viram nele mais que um filósofo. É a opinião mais razoável e o único título que ele alguma vez aceitou, porquanto recusou o de filho de Júpiter, como alguns o pretendiam. Embora contemporâneo do Cristo, parece que dele não ouviu falar, porque em sua vida não faz nenhuma alusão ao que, então, se passava na Judéia.
Entre os cristãos que mais tarde o julgaram, uns o declararam velhaco e impostor; outros, não podendo negar os fatos, pretenderam que operasse prodígios pela assistência do demônio, sem pensar que assim confessavam os mesmos prodígios, fazendo de Satã o rival de Deus, pela dificuldade de distinguir os prodígios divinos dos diabólicos. São as duas opiniões que têm prevalecido na Igreja.
O autor dessa tradução manteve-se em sábia neutralidade. Não esposou nenhuma versão e, a fim de permitir que cada um as apreciasse, indicou com escrupuloso cuidado todas as fontes em que se pode colhê-las, deixando a cada um a liberdade de tirar, pela comparação dos argumentos favoráveis e contrários, a conseqüência que julgar conveniente, limitando-se a fazer uma tradução fiel e conscienciosa.
Os fenômenos espíritas, magnéticos e sonambúlicos lançam hoje uma luz inteiramente nova sobre os fatos atribuídos a essa personagem, demonstrando a possibilidade de certos efeitos, até hoje relegados ao domínio fantástico do maravilhoso, e permitindo separar o possível do impossível.
Antes de mais, o que é o maravilhoso? O cepticismo responde: É tudo aquilo que, estando fora das leis da Natureza, é impossível. Depois acrescenta: Se os relatos antigos são pródigos em fatos desse gênero, deve-se ao amor do homem pelo maravilhoso. Mas de onde vem esse amor? É o que ele não diz e que tentaremos explicar. Isto não será inútil àquilo que nos interessa.
Aquilo que o homem chama de maravilhoso o transporta pelo pensamento além dos limites do conhecido e é a inspiração íntima por uma ordem de coisas melhor, que o leva a procurar com avidez o que aí o pode ligar e lhe dar uma idéia. Tal aspiração lhe vem da intuição que tem, de que essa ordem de coisas deve existir; não a encontrando na Terra, busca-a na esfera do desconhecido. Mas não será essa mesma aspiração um indício providencial de que algo existe além da vida corporal? Ela só é dada ao homem, porque, nada esperando, os animais não buscam o maravilhoso. Intuitivamente o homem compreende que há, fora do mundo visível, uma força, da qual faz uma idéia mais ou menos justa, conforme o desenvolvimento de sua inteligência e, muito naturalmente, vê a ação direta dessa força em todos os fenômenos que não compreende. Assim, outrora, uma imensidade de fatos passava por maravilhosos e hoje são perfeitamente explicados, entrando no domínio das leis naturais. Disso resultou que todos os homens que possuíssem faculdades ou conhecimentos superiores ao vulgo passariam por ter uma porção dessa força invisível, ou domínio sobre ela; foram chamados de magos ou feiticeiros. A opinião da Igreja fez prevalecer a idéia de que tal força não poderia provir senão do Espírito do mal, quando exercida fora de seu seio.
Eram tempos de barbárie e de ignorância, em que se queimavam os pretensos magos e feiticeiros; o progresso da Ciência os recolocou na Humanidade.
Onde encontrais – perguntam os incrédulos – mais histórias maravilhosas? Não será na Antigüidade, entre os povos selvagens, nas classes menos esclarecidas? Não é prova de que resultam da superstição, filha da ignorância? Da ignorância é incontestável, e por uma razão muito simples. Os Antigos, que sabiam menos que nós, não eram menos impressionados pelos mesmos fenômenos; conhecendo menos as verdadeiras causas, buscavam causas sobrenaturais para as coisas mais naturais.
Ajudados pela imaginação e secundados pelo medo, de um lado, e pelo gênio poético, do outro, engendravam contos fantásticos, ampliados pelo gosto da alegoria peculiar aos povos do Oriente.
Lutando afanosamente com o fogo que o consumia, Prometeu devia passar como um ser sobre-humano, punido por sua temeridade, por ter usurpado os direitos de Júpiter. Franklin, o moderno Prometeu, para nós é um simples sábio. Montgolfier, elevando-se nos ares, nos tempos mitológicos teria sido Ícaro. Por quem tomariam o Sr. Poitevin, elevando-se num cavalo?
Tendo feito uma porção de fatos entrar na ordem natural, a Ciência reduziu bastante os fatos maravilhosos. Mas terá explicado tudo? Conhece todas as leis que regem os mundos? Nada mais tem a ensinar? Cada dia dá um desmentido a esta orgulhosa pretensão. Não tendo ainda investigado todos os segredos de Deus, daí resulta que muitos fatos antigos se acham inexplicados. Ora, não admitindo como possível senão aquilo que compreende, acha mais simples chamá-los maravilhosos, fantásticos, isto é, inadmissíveis pela razão. A seus olhos todos os homens, que supostamente os produziram, ou são mitos ou impostores e, diante de tal juízo, Apolônio de Tiana não encontraria graça. Ei-lo, assim, condenado pela Igreja, que admite os fatos, como um suposto Satã, e pelos cientistas, que não os admitem, como um hábil prestidigitador.