Pois bem. Certa noite, volta, para receber os nossos cuidados, o companheiro que havia sido recolhido. Estava novamente em poder de um impiedoso hipnotizador, de quem já o havíamos subtraído, a duras penas. Ele próprio confessou o seu drama: recaira na faixa vibratória de seus perseguidores, ao deixar tombar as guardas que o protegiam. No decorrer do diálogo revelou-se mais impaciente do que nunca, exigindo, quase, solução imediata para o seu caso, pedindo a presença de parentes, sem nenhum desejo de entregar-se à prece e, acima de tudo, pronto para a vingança! “Assim que estivesse em condições” — e exatamente por isso não conseguia alcançar tais condições — “ele”, o obsessor, “iria ver...”
Meu Deus, como poderemos negar o perdão ao que nos feriu, se o exigimos para nós, exatamente para as dores que resultaram da nossa imprudência em ferir os outros?
O obsidiado só pensa em livrar-se de seus adversários, a qualquer preço, mas se esquece, ou ignora, que ele também está em dívida perante a lei, pois, de outra maneira, não estaria sujeito à obsessão, o obsessor, por sua vez, procura punir o companheiro que o fez sofrer, deslembrado de que ele próprio criou, com a sua incúria, as condições para merecer a dor que lhe é infligida.
Julga-se no direito de cobrar, pensando assim cumprir a lei de Deus, para que a “justiça” se faça. E, de fato, a lei do equilíbrio universal coloca o ofensor ao alcance da punição, que é, em suma, a oportunidade do reajuste. Por isso, dizia o nosso Paulo, em sua penetrante sabedoria:
— Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém.
Com frequência, os perseguidos apresentam-se em nossos grupos, nos primeiros momentos da libertação. Quantos dramas, Senhor! Vêm transidos de pavor, cansados de prisões tenebrosas, fugindo de obsessões que lhes parecem terem durado uma eternidade. Esgotaram todo o cálice de profundas amarguras, sofreram todos os tormentos, passaram por todas as humilhações, submeteram-se a caprichos e desmandos, cumpriram ordens iníquas. Um desses nos disse que estivera num dos calabouços infectos das trevas, onde nem chorar podia. Passaram-se séculos. Só nos pôde dizer que foi um sacerdote e que traiu alguém. Sente agora o peso de um enorme arrependimento e, quando convidado a orar comigo, não tem coragem de dirigir-se a Deus, pois se julga o último dos réprobos. A muito custo, consegue murmurar uma palavra: — Jesus!...
E fala baixinho, consigo mesmo:
— Que sacrilégio, meu Deus!
Outro, também egresso de um calabouço, não conseguia articular a palavra; fazia entender-se por gestos. Trazia um peso na cabeça, que o obrigava a manter-se curvado sobre si mesmo e, além de tudo, estava cego. Um terceiro apresenta-se com as “carnes” roídas pelos “ratos” e “baratas”, após um longo período de reclusão. Quase todos trazem ainda no perispírito os estigmas de suas penas: cegueira, deformações e mutilações, e, na mente, a lembrança de torturas e horrores inconcebíveis.
Subitamente, ao cabo de agonias seculares, durante as quais resgataram-se através da dor, escapam à sanha de seus perseguidores, tornam-se inacessíveis aos seus processos, evadem-se das masmorras e libertam-se do domínio magnético sob o qual se encontravam. Em suma: a Lei disse o “Basta!” a que até mesmo o mais terrível perseguidor tem de obedecer, ao assistir, impotente, à escapada da vítima. Chegou ao fim o processo corretivo e reajustador. Antes, era impossível: ninguém conseguiria interromper o curso da dor. Este é o exemplo vivo da experiência mediúnica.
Espíritos superiores, e já redimidos, seguem-nos os passos, até mesmo às profundezas da dor mais horrenda, sem poderem interferir senão com uma prece, ou uma vibração amorosa, pois o pobre companheiro transviado nem mesmo a presença dos amigos maiores pode perceber. Chegado, porém, o momento, tudo se precipita. Os mensageiros do bem estão apenas à espera de uma prece, ainda que somente esboçada, de um impulso de arrependimento, de um gesto de boa-vontade ou de perdão. Lembram-se da advertência do Cristo?
— Reconcilia-te com teu adversário enquanto estás a caminho com ele, para que não te arraste ele ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial de justiça, e este te ponha no cárcere. Digo-te que não sairás de lá enquanto não tiveres pago o último centavo.
Não está bem claro?
E muitos ainda acham que o Evangelho é só literatura... ou só poesia, ideal, inatingível...
Razão de sobra teve Kardec para optar pela adoção da moral evangélica, pois há mais sabedoria e ciência nos textos ali preservados, do que em todos os tratados de psicologia jamais escritos e nos que ainda se escreverão. A problemática do ser humano, suas complexidades e seus mecanismos de reajuste, estão inseparavelmente ligados aos conceitos fundamentais da moral. Um dia, a psicologia e a psiquiatria descobrirão o Cristo.