Os inspirados
Esses pensamentos podem estar em desacordo formal com suas crenças, com seus sentimentos, ou antes, com aqueles que a educação lhe impôs, porque, para que certos Espíritos venham a ele, é preciso que exista alguma relação entre eles. Dão-lhe o pensamento, deixando-lhe o cuidado de achar a forma. É preciso, pois, que saibam que sua inteligência os pode compreender e assimilar momentaneamente suas idéias, para as traduzir. É raro que as circunstâncias tenham permitido que nos desenvolvamos no sentido de nossas aptidões inatas. Os Espíritos mais adiantados sabem que corda é preciso tocar, para que esta entre em vibração. Ela havia ficado muda, porque tinham atacado outras, desprezando aquela. Por um momento eles lhe dão a vida. É um germe por muito tempo abafado, que eles fecundam. Depois o inspirado, voltando ao seu estado habitual, não se lembra mais, pois vive uma existência dupla, cada uma das quais independe da outra. Entretanto, acontece também que conserve uma maior facilidade de compreensão, e conquiste um maior desenvolvimento intelectual. É a recompensa do esforço que fez, para dar uma forma compreensível aos pensamentos que outros vieram lhe revelar. Não acreditamos que todo inspirado possa conhecer tudo. Cada um, conforme suas predisposições naturais, muitas vezes mantidas com desconhecimento dele próprio e dos outros, é inspirado por tal ou qual coisa, mas não o é igualmente por todas. Com efeito, existem naturezas de tal modo antipáticas a certos conhecimentos, que os Espíritos não virão jamais bater numa porta que sabem não poder abrir. Só em certa medida o futuro é conhecido pelos inspirados. Assim, não é certo dizer que um inspirado predisse para que mundo tal pessoa irá após a morte, e que julgamento Deus pronunciará contra ela. Isto é um jogo de imaginação alucinada. Por mais alto que o homem tenha subido na escala dos mundos, não conhece qual será o destino de seu irmão. É a parte reservada a Deus: jamais a criatura poderá usurpar os seus direitos. Sim, há manifestações, mas não são contínuas, e nossa impaciência a seu respeito muitas vezes é condenável. Sim, tudo se mantém e nada se rompe no imenso Universo. Sim, existe entre esta existência e as outras um laço simpático e indissolúvel, que liga e une uns aos outros todos os membros da família humana, e que permite aos melhores vir nos dar o conhecimento do que não sabemos. É por esse trabalho que se realiza o progresso; quer se chame trabalho da inteligência ou da inspiração, é a mesma coisa. A inspiração é o progresso superior, é o fundo: o trabalho pessoal aí põe a forma, juntando ainda a quintessência dos conhecimentos anteriormente adquiridos. Nenhuma invenção nos pertence particularmente, porque outros lançaram antes a semente que recolhemos. Aplicamos à obra que queremos perseguir as forças e o trabalho da Natureza, que é de todos, e sem o auxílio da qual nada se faz, depois as forças e o trabalho acumulados por aqueles que nos prepararam os meios de triunfar. A bem dizer, tudo é obra comum e coletiva, para confirmar ainda esse grande princípio de solidariedade e de associação, que é a base das sociedades e da lei de toda Criação. O trabalho do homem jamais será tornado inútil pela inspiração. O Espírito que no-lo vem trazer respeitará sempre esta parte reservada ao indivíduo; ele a respeitará como uma coisa nobre e santa, pois o trabalho põe o homem na posse das faculdades que Deus depositou em germe em sua alma, a fim de que o objetivo de sua vida fosse de as fecundar. É por seu desenvolvimento que bem aprendeu a conhecer-se, e que mereceu aproximar-se dele. A inspiração vem indiferentemente de dia, de noite, em vigília e durante o sono. Apenas exige recolhimento. É-lhe preciso encontrar naturezas que possam abstrair-se de toda preocupação do mundo real, para dar lugar livre e vago ao ser que vier envolvê-lo todo e lhe infundir seus pensamentos. Nas horas de inspiração, o homem se torna muito mais acessível a todos os ruídos exteriores, e tudo o que vem do mundo real o perturba. Não mais está neste mundo, está num meio transitório, entre este e o outro, visto estar, de certo modo, impregnado da pessoa moral e intelectual de um ser elevado a uma outra esfera e que, no entanto, seu corpo se prende a este. Embora se dirija a todos, a inspiração descerá mais especialmente sobre as naturezas doentias ou consumidas por uma sucessão de sofrimentos, materiais ou morais. Já que é um benefício, não é justo que os que sofrem sejam mais facilmente aptos a recebê-la? A alucinação é um estado doentio, que o magnetismo pode modificar de maneira salutar. A inspiração é uma assimilação moral que se deve evitar provocar por passes magnéticos. O alucinado se entrega de bom grado a arroubos e a contorções ridículas. O inspirado é calmo. Os inspirados são melancólicos. Necessitam ser refletidos; para ser alegre não há que refletir muito; é preciso gozar, na sua saúde, de um equilíbrio que nem sempre possuem. Mas não vamos pensar que sejam difíceis e fantasiosos. Ao contrário, mostram-se dóceis e acessíveis com aqueles a quem amam. Há inspirados de vários graus. Uns vêm dizer-vos coisas palpáveis, fatos de segunda vista, para que se possa constatar a realidade da iniciação. Outros, mais clarividentes e pouco preocupados com os procedimentos materiais, cujos segredos não são chamados a divulgar, repetem, como lhes vêm, os pensamentos trazidos por Espíritos de progresso. Os primeiros curam o corpo, os segundos são os médicos da alma. A missão dos mais modestos limita-se a revelar como essas coisas lhes vêm. É um fato constatado que forças adiantadas de muitos graus vêm sobre nós, para nos dominar e nos inspirar. Para que o repetir? Acredite quem quiser. Mas sendo bem estabelecidas as constatações, não se deve tomar dos inspirados senão o lado útil e sério. Pouco importa, se as idéias são boas, de que fonte provêm. Eug. Bonnemère
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Mês Fevereiro
Ano 1868