Não se conseguiria, mediante a sugestão, fazer escreverem analfabetos, obter, por meio de um velador, poesias como as que recolheram o Senhor Jaubert, presidente do Tribunal de Carcassone e que obtiveram prêmios nos jogos florais de Tolosa. Nem por esse meio se poderia, igualmente, provocar a aparição de mãos, de formas humanas, nem ainda a escrita em ardósias trazidas por observadores que não as largaram um momento.
É preciso recordar que a doutrina dos Espíritos foi constituída mediante numerosas comunicações, obtidas por médiuns escreventes, aos quais eram absolutamente estranhos tais ensinos. Quase todos haviam sido embalados em sua infância pelos ensinos das igrejas, pelas idéias de inferno e paraíso. Suas convicções religiosas, as noções que sobre a vida futura possuíam, estavam em flagrante oposição com as opiniões expostas pelos Espíritos. Neles não havia idéia alguma preconcebida da reencarnação, nem das vidas sucessivas da alma, nem da verdadeira situação do Espírito depois da morte, coisas essas expostas nas comunicações obtidas. Há nisso uma objeção irrefutável à teoria da sugestão; a realidade objetiva das comunicações ressalta com tanto mais vigor, quanto os médiuns não se achavam de modo algum preparados, pela sua educação e por suas opiniões pessoais, para as concepções transmitidas pelos Espíritos.
É evidente que, no meio da enorme quantidade de fatos espíritas atualmente registrados, muitos há medíocres e pouco concludentes, outros que podem ser explicados pela sugestão ou pela exteriorização do sensitivo. Em certos grupos espíritas, são as pessoas levadas a tudo aceitar como procedente dos Espíritos e não põem convenientemente de parte os fenômenos duvidosos. Por muito ampla, porém, que seja a parte atribuída a estes, resta um imponente conjunto de manifestações inexplicáveis pela sugestão, pelo inconsciente, pela alucinação e por outras análogas teorias.
Os críticos procedem sempre de modo uniforme a respeito do Espiritismo. Não se ocupam senão de um gênero especial de fenômenos e afastam propositadamente da discussão tudo o que não podem compreender nem refutar. Desde que acreditam haver encontrado a explicação de alguns fatos insulados, apressam-se a concluir pelo absurdo do conjunto. Ora, quase sempre a sua explicação é inexata e deixam na penumbra as provas mais flagrantes da existência dos Espíritos e da sua intervenção nas coisas humanas.
Outra teoria, muitas vezes invocada pelos contraditores da idéia espírita, é a do inconsciente, ou do ego inconsciente. A ela se reportam numerosos sistemas, obscuros e complicados.
Segundo essa teoria, dois seres co-existiriam em nós: um consciente, que se conhece e se possui; outro inconsciente, que a si próprio se ignora, como é por nós ignorado e que, todavia, possui faculdades superiores às nossas, pois que lhe são atribuídos todos os fenômenos do magnetismo e do Espiritismo; e não somente haveria um segundo “nós mesmos”, mas um terceiro, um quarto e mais até, porque certos teóricos admitem no homem a existência de grande número de personalidades, de consciências diferentes. Esse sistema é conhecido sob o nome de policonsciência.
Conforme demonstrou o Sr. Charles Richet no seu livro O homem e a inteligência, o sonambulismo provocado, o que se denomina a dupla personalidade representa, simplesmente, os diversos estados de uma única e mesma personalidade. Assim também o inconsciente não é mais que uma forma da memória, o despertar em nós de lembranças, de faculdades, de capacidades adormecidas.(cxvii) Os teoristas do inconsciente pretendem, por esse meio, combater o maravilhoso e inventam um sistema ainda mais fantástico e complicado do que tudo o que colimam. Não só a sua teoria é ininteligível, mas não explica absolutamente os fenômenos espíritas, porque não se pode compreender como o inconsciente produziria formas de finados, comunicações inteligentes por meio de sons ou de pancadas e todos os fatos outros atestados por experimentadores de todos os países.
Também se pretendeu atribuir as mensagens ditadas em sessão a uma espécie de consciência coletiva, que se desprendesse do conjunto dos assistentes. Concepção ilógica, se assim fosse. Um fato o vai demonstrar.
No dia 25 de outubro de 1908, foi realizada uma sessão, de manhã, em Paris, no escritório do Sr. H. Rousseau, 16 Boulevard Beaumarchais. Durante a seqüente refeição, no domicílio da família, em Vincennes, um batimento de pancadas chamou a atenção. Alguém desejava ser atendida e a médium, uma filha da família, foi solicitada por esse invisível a retificar certos erros de particularidades cometidos, de manhã, em Paris. Seria preciso, pois, admitir que esse hipotético ser, esse subconsciente, emanação de todo um grupo, persistisse depois da partida do maior número e pudesse vir, noutro meio, impressionar o médium para fazer corrigir, com inteligência e precisão, as indicações errôneas, registradas de manhã.
Quase sempre se confunde o subconsciente, quer com o duplo fluídico, que não é um ser mas um organismo, quer com o Espírito familiar, preposto à guarda de toda alma encarnada neste mundo.
Pode-se perguntar em virtude de que acordo universal esses inconscientes ocultos no homem, que se ignoram entre si e a si próprios se ignoram, são unânimes, no curso das manifestações ocultas, em se dizerem Espíritos de mortos.
Pelo menos, é o que temos podido verificar nas inúmeras experiências em que temos tomado parte durante mais de trinta anos, em tão diversos pontos, na França e no estrangeiro. Em parte alguma se apresentaram os seres invisíveis como inconscientes, ou “egos” superiores dos médiuns e de outras pessoas presentes, mas sempre como personalidades diferentes, na plenitude de sua consciência, como individualidades livres, tendo vivido na Terra, conhecidos dos assistentes, na maioria dos casos com todos os caracteres do ser humano, suas qualidades e defeitos, suas fraquezas e virtudes, e dando freqüentes provas de identidade.(cxviii)
O que há de mais notável nisso, convenhamos, é a argúcia, a fecundidade de certos pensadores, sua habilidade em arquitetar teorias fantasistas, no intuito de se esquivarem a realidades que lhes desagradam e os incomodam.
Indubitavelmente, não previram todas as conseqüências dos seus sistemas; fecharam os olhos aos resultados que deles se podem deduzir. Não ponderando que essas doutrinas funestas aniquilam a consciência e a personalidade, dividindo-as, são conduzidos, fatal e logicamente, à negação da liberdade, da responsabilidade e, por conseguinte, à destruição de toda a lei moral.
Com essa hipótese, efetivamente, o homem seria uma dualidade, ou uma pluralidade mal equilibrada, em que cada consciência agiria à vontade, sem preocupação das outras. São tais noções que, penetrando nas almas, tornando-se para elas uma convicção, um argumento, as impelem a todos os excessos.
Resumamos: Tudo, na Natureza e no homem, é simples, claro, harmônico. O espírito de sistema é que complica e obscurece tudo.
Do exame atento, do estudo constante e aprofundado do ser humano, resulta uma coisa: a existência em nós de três elementos: o corpo físico, o corpo fluídico ou perispírito e, finalmente, a alma ou espírito. O que se chama o inconsciente, a segunda pessoa, o eu superior, a policonsciência, etc., é simplesmente o espírito que, em certas condições de desprendimento e de clarividência, sente em si mesmo produzir-se uma como manifestação de potências ocultas, um conjunto de elementos que estavam momentaneamente escondidos sob o véu da carne.
Não, certamente; o homem não possui muitas consciências. A unidade psíquica do ser é a condição essencial da sua liberdade e da sua responsabilidade. Nele, porém, há muitos estados de consciência. À proporção que o Espírito se desprende da matéria e se emancipa do seu invólucro carnal, suas faculdades, suas percepções se ampliam, despertam as recordações, dilata-se a irradiação da personalidade. É o que, algumas vezes, se produz no estado de “transe”, de sono magnético. Nesse estado, o véu espesso da matéria se levanta e as capacidades latentes reaparecem. Daí certas manifestações de uma mesma Inteligência, que têm podido fazer crer numa dupla personalidade, numa pluralidade de consciências.
Isso não basta, entretanto, para explicar os fenômenos espíritas: na maioria dos casos, a intervenção de Inteligências estranhas, de vontades livres e autônomas, impõe-se como a única explicação racional.
Não citaremos, senão incidentemente, a teoria que atribui aos demônios essas manifestações. É argumento bem cediço, porque dele se tem feito uso em todos os tempos e contra quase todas as inovações. “Deve-se julgar a árvore pelos frutos” – diz a Escritura. Ora, se ponderarmos todo o bem moral que já realizou no mundo o Espiritismo, se considerarmos quantos cépticos, indiferentes, sensuais, têm sido por ele encaminhados para uma concepção mais alta e salutar da vida, da justiça e do dever, quantos ateus reconduzidos ao pensamento de Deus, teremos de concluir que o demônio, se autor dos fenômenos de além-túmulo, trabalha contra si, em detrimento dos próprios interesses. O que noutro lugar(cxix) dissemos do inferno e dos demônios nos dispensa de insistir neste ponto. Satanás não passa de um mito. Não há ser votado eternamente ao mal.