Olhava para trás, como se tentasse surpreender algum carrasco. A certa altura, parece que alguém o chicoteia violentamente, pois ele se contorce e grita, desesperado. Aos poucos, porém, vamos transmitindo a ele uma sensação de segurança e calma. Digo-lhe que ele foi retirado de lá, e que está, agora, numa sala limpa, e não vai mais voltar para a sua prisão. Insistimos nos passes, e, ao cabo de muito tempo, ele pareceu ter readquirido a forma humana e começou a “conferir” suas mãos, o rosto, o corpo, mas ainda não conseguia enxergar: passou as mãos diante dos olhos, para testar. De pé, ao lado do médium, orei fervorosamente, com uma das mãos sobre os seus olhos e a outra na nuca. Enquanto fazia isso, ele procurava me reconhecer, também pelo tato, apalpando-me as mãos, o braço, a cabeça, o rosto. O ambiente estava tenso de emoção e do desejo de servi-lo, e creio que, por isso, realizou-se, mais uma vez, o suave milagre do amor. Ele começou a perceber os objetos, pela visão, e voltou a conferir tudo na sala, como se estivesse colocando juntas, pela primeira vez, em muito tempo (séculos, talvez) as sensações do tato e da visão. Olhou os móveis, a sala, as suas próprias mãos. Examinou os componentes do grupo, um por um.
Está calmo, agora. Parece que jatos de luz intensa o atingem nos olhos, porque ele se contrai e protege a vista com os braços. Como continuo a insistir em que ele pode falar, consegue dizer uma palavra: — Água! E fica a repeti-la, enquanto apanho o jarro, que conservamos sobre outro móvel, e lhe servimos vários copos, que ele bebe sofregamente, desesperadamente. Por fim, percebo que está orando um Pai Nosso, no qual eu o acompanho, emocionado até o fundo do meu ser. Ao terminar a prece, me abraça, em silêncio, sem uma palavra, esmagado pela emoção, e se desprende, deixando o médium desorientado, por alguns momentos, quanto à sua posição na sala.
O trabalho todo durou uma hora.
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Como pode uma criatura humana ser reduzida a uma condição como essa?
É evidente que ainda não dispomos de conhecimentos suficientes para apreender o fenômeno em todas as suas implicações e pormenores, mas a Doutrina Espírita nos oferece alguns dados que nos permitem entrever a estrutura básica do processo. A gênese desse processo é, obviamente, a culpa. Somente nos expomos ao resgate, pela dor ou pelo amor, na medida em que erramos. A extensão do resgate e sua profundidade guardam precisa relação com a gravidade da falta cometida, pois a lei não cobra senão o necessário para o reajuste e o reequilíbrio das forças universais desrespeitadas pelo nosso livre-arbítrio. Somos livres para errar e somos forçados a resgatar.
Não há como fugir a esse esquema, do qual não nos livra nem mesmo a trégua com que somos beneficiados ao renascer. É exatamente para que tenhamos a iniciativa da correção espontânea, que a lei nos proporciona o benefício do esquecimento e nos concede a oportunidade do recomeço em cada vida, como se nascêssemos puros, sem faltas e sem passado. Não podemos, no entanto, esquecer que o passado está em nós, nos registros indeléveis do perispírito, determinando todos os nossos condicionamentos, os bons e os outros.
Por conseguinte, a falta cria em nós o “molde” necessário ao reajuste. Disso se valem, com extrema habilidade e competência, fossos adversários espirituais, aqueles a quem infligimos dores e penas atrozes num passado recente ou remoto. Muitos são os que agem pessoalmente contra nós, outros, porém, valem-se de organizações poderosas, onde a divisão do trabalho nefando ficou como que racionalizada, tantas são as especializações lamentáveis. Realiza-se, então, uma troca de favores, através de contratos, acordos, pactos e arranjos de toda sorte, em que a vítima do passado — esquecida de que foi vítima precisamente porque também errou —associa- se a alguém que possa exercer por ela requintes de vingança.
Entra em cena, aí, a fria equipe das trevas. Se o caso comporta, digamos, a “solução” da deformação perispiritual, é encaminhado a competentes manipuladores da hipnose e do magnetismo, que imediatamente se aproximarão de suas vítimas, contra as quais nada têm, às vezes, pessoalmente, iniciando o trabalho no campo fértil do endividamento de cada um. Quem não deve à lei de Deus?7
É claro que o hipnotizador, ou o magnetizador, não pode moldar, à sua vontade, o perispírito da sua vítima, mas ele sabe como movimentar forças naturais e os dispositivos mentais, de forma que o Espírito, manipulado com perícia, acaba por aceitar as sugestões e promover, no seu corpo perispiritual, as deformações e condicionamentos induzidos pelo operador das trevas, que funciona como agente da vingança, por conta própria ou alheia. Nessas condições, a vítima acaba por assumir formas grotescas, perde o uso da palavra, assume as atitudes e as reações típicas dos animais e é segregado, por tempo imprevisível, de todo o convívio com criaturas humanas normais e equilibradas. Em antros diante dos quais o inferno é uma tosca e apagada imagem, imperam o terror, a alienação mais dolorosa, a angústia mais terrível, as condições mais abjetas.
Nessas furnas de dor superlativa, criaturas que, às vezes, ocuparam na Terra elevadas posições, resgatam crimes tenebrosos, que entre os homens permaneceram impunes.
O trabalho de resgate desses pobres irmãos, que chegam até a perder a consciência da sua própria identidade, é tão difícil quão doloroso, e jamais poderá ser feito sem a mais ampla cobertura espiritual. Além da dor que experimentamos ao presenciar tão espantosa aflição, estejamos certos de que a audácia de socorrer tais irmãos desata sobre os grupos que a manifestam toda a cólera das organizações que os subjugam. Aliás, esse é um recurso de que se utilizam os
7 Leia-se, a propósito, o capitulo 5º, “Operações seletivas”, de LIBERTAÇÃO, volume 7º da série André Luiz.
trabalhadores do bem, para desalojar de seus redutos os verdadeiros responsáveis por essas atrocidades inomináveis. Furiosos pela temeridade dos seareiros do Cristo, eles se voltam contra o grupo mediúnico, que precisa estar preparado, resguardado na prece e em imaculada pureza de intenções. É essa, às vezes, a única maneira de trazê-los à doutrinação e à tentativa de entendimento. Esteja, porém, o grupo, atento e preparado para recebê-los, porque eles virão realmente fora de si, transtornados de ódio, ante o atrevimento daqueles que ousam provocá-los.
Eles precisam “lavar a sua honra”, recuperar o prestígio perante seus comandados e impor castigo exemplar ao grupo que teve a insensata ousadia de exasperá-los. Os casos mais graves de deformações perispirituais, como a zoantropia, em geral, e a licantropia, em particular, são relativamente raros, consideradas as incontáveis multidões de seres aprisionados nas trevas pelas suas aflições íntimas. Eles constituem importantes figuras, no tenebroso xadrez das trevas, e são guardados a sete chaves e defendidos com unhas e dentes, como tivemos oportunidade de verificar pessoalmente, numa excursão a essas furnas da dor.
Chegado, porém, o momento do resgate, não há defesa que consiga resistir à vontade soberana de Deus, e os trabalhadores humildes da seara do Cristo conseguem trazê-los, nos braços amorosos, para a expectativa da libertação. A promissória maior está paga, e é preciso começar a reconstrução interior, pedra por pedra, com os escombros de um passado calamitoso.
Geralmente, como vimos, são Espíritos de consideráveis cabedais e possibilidades, que se transviaram muito gravemente. Eles têm condições de retomar a trilha evolutiva, embora ainda com muitos erros a resgatar. Recebem de volta a consciência de sua própria identidade e recomeçam o aprendizado. São usualmente recolhidos a instituições especializadas, onde vai realizar-se a tarefa do descondicionamento. É novamente a hora de inúmeros especialistas: médicos da alma, cirurgiões do perispírito, profundos conhecedores da biologia transcendental e das complexidades da mente. Comparecem planejadores, doutrinadores, médiuns, magnetizadores, para reconstruir, com amor, o que foi destruído com ódio, pelos planejadores, doutrinadores, médiuns e magnetizadores das trevas. As forças são as mesmas, os mecanismos são idênticos, os recursos são semelhantes, somente a direção é que muda, invertendo-se os sinais da operação, pois quase sempre os dedicados operadores que nos ajudam a reconstruir o Espírito, arrasado pela dor do resgate, são aqueles mesmos que, em épocas remotas, utilizaram-se dos seus conhecimentos para oprimir, para impor angústias e aflições, em nome de incontroladas ambições pessoais. O conhecimento ficou, porque os arquivos da alma são permanentes, mas mudou a motivação, e o que antes feria, agora quer curar. Se antes conseguia realizar tanta coisa espantosa, trabalhando ao arrepio das leis divinas, sem a sustentação dos poderes da Luz, que não conseguirá agora, ao voltar-se para o lado bom da vida, onde conta com o apoio de seus irmãos maiores?